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URBANISMO
AS DUAS FACES DO CAPIBARIBE

Com mais de 50% de sua área territorial banhada pela Bacia do Rio Capibaribe, o Recife, cidade das águas, ainda continua de costas para o seu “companheiro mais íntimo”, na definição do poeta João Cabral de Melo Neto. Poluído, malcheiroso e abandonado pelos moradores da capital, o rio, hoje, se impõe somente por sua presença enquanto parte da paisagem urbana. Ele tem pouco uso e suas margens são, em quase toda a extensão, descuidadas e sem atrativos. As ocupações dos arredores do Capibaribe revelam contrastes: “Será um privilégio acordar de manhã e ver o rio correndo da minha varanda”, diz o designer gráfico Mazinho Constantino, 36 anos, que se muda para a Rua da Aurora esta semana, atraído pelo visual do Capibaribe. “Morro de medo de abrir a janela da cozinha e ver um corpo boiando no meu quintal”, contrapõe a dona de casa Marileide Moura da Silva, 35, que mora na Favela Abençoada por Deus, na Torre. A reportagem é de Cleide Alves

A paisagem do Rio Capibaribe, da foz até o bairro da Várzea, pode ser comparada a uma colcha de retalhos que alterna seda com chita. Até a Casa da Cultura as margens do Capibaribe servem de moldura para as edificações do centro do Recife. Quando se cruza a Ponte Velha, a impressão é de que se entrou em outra cidade: palafitas, lixo, abandono, prédios construídos de costas para o rio.

Do centro à Várzea, os contrates vão se repetindo e se revelando. Não muito longe do Coque, uma das maiores favelas às margens do rio, surge uma beira-rio na Ilha do Leite feita de casarões e prédios de luxo voltados para o Capibaribe, numa realidade bem diferente dos habitantes das palafitas. Na Madalena, a Avenida Beira-Rio consolidada entre as pontes da Capunga e da Torre já comporta 16 edifícios residenciais e tem mais cinco em construção.

Nas regiões de Torre, Iputinga, Casa Forte, Caxangá e Várzea casas de alvenaria e de tábuas são construídas praticamente dentro da água. No entanto, o rio fica reduzido a fundo de quintal e depósito de lixo. Algumas casas utilizam a margem do rio como criatório para porcos. Os manguezais afloram em muitos trechos, até as imediações de Apipucos, mostrando onde vai a influência da maré.

ESTUDO – “O contraste é muito grande”, afirma a arquiteta-paisagista da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Lúcia Veras que está estudando a ocupação das margens do Capibaribe. O trabalho é dividido com os outros arquitetos que formam o Laboratório da Paisagem da UFPE, Ana Rita Sá Carneiro, Luís Vieira e Alexandre Campelo, e com um grupo de alunos da universidade.

Os pesquisadores percorreram o rio de barco, observando a paisagem diurna e noturna. “Percebemos que o Capibaribe, no centro, é o ator principal. O que não acontece a partir dos Coelhos. No Centro, o rio reflete toda uma luminosidade. À noite, as palafitas se escondem, por falta de iluminação”, afirma Lúcia Veras. As informações colhidas estão sendo analisadas e interpretadas.

“Os alunos estão trabalhando o rio como um quebra-cabeças com peças em excesso e outras em falta. As peças sobrando são muros de grandes dimensões destruindo a borda do rio e moradias em palafitas. A peça que está faltando é a cidade se voltar para o rio e tirar proveito de poder olhar para as águas”, diz Lúcia Veras.

SUGESTÕES – Segundo ela, o grupo está mapeando os vazios existentes ao longo das margens e apresentará propostas de intervenções paisagísticas, dizendo o que fazer e como, em cada trecho. “Vamos descobrir recantos, varandas e belvederes no Capibaribe que ainda podem ser resgatados”. Um dos trechos a serem trabalhados fica no final da Rua Manoel de Almeida, no bairro das Graças.

“Ali tem um trecho abandonado que se abre apenas para o rio e a cidade precisa se apropriar dessa área, como opção de lazer”, adianta Lúcia Veras. Uma ilha remanescente da retificação do rio, na região do Monteiro, é outro trecho de grande potencial, na avaliação da arquiteta.

Lúcia Veras acrescenta que apesar de o rio cortar a cidade de leste a oeste, poucos pontos de travessia entre bairros são vistos nessa costura. Estão em funcionamento apenas dois pontos, um da Torre para a Jaqueira e outro do Parque Santana até a Vila Santa Luzia, na Torre. “Além de a população ganhar tempo na locomoção, seria uma forma de aumentar o contato com o rio. Hoje, o único contato com o Capibaribe é a travessia das pontes”, completa.

Ao longo do Capibaribe estão situadas 17 das 33 Zonas Especiais do Patrimônio Histórico e Cultural (ZEPH) do Recife. “Mais de 50% das ZEPH estão próximas ao rio, isso mostra que o Capibaribe foi um fator importante de desenvolvimento urbano da cidade”, diz o diretor do Departamento de Preservação dos Sítios Históricos da Empresa de Urbanização do Recife, Nílson Andrade.

Existem ZEPH nas margens do rio, como os conjuntos urbanos de Apipucos e do Benfica, os conjuntos antigos do Poço da Panela e do Bairro do Recife, e na vizinhança imediata, como a Casa de Brennand e a Fábrica da Tacaruna.

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Jornal do Commercio
Recife - 10.12.2000
Domingo