![]() |
Se facilitar, brasileiro entroncha A senhora aí, toda ancha, no multiplex, traçando um saco de cinco quilos de pipoca, um litro de Coca, curtindo um filmeco indicado pela Set, será que viveu ou lhe falaram sobre uma excrescência chamada censura prévia? Até final dos anos 70, certos filmes a gente só conhecia por ouvir dizer. Neguinho que morava na Europa contava o que tinha visto em O Império dos Sentidos. E a gente, do outro lado do oceano e da luz, custava a acreditar. Felatio au grand complet, mulher botando ovo de galinha nas partes, nu frontal? Marlon Brando traçando uma amanteigada Maria Schneider pela entrada de serviço? Numa das fitas mais comentadas e proibidas a mocinha possuía o, com licença da palavra, clitóris na garganta. Na dúvida se ia prum otorrinolaringologista ou prum ginecologista, acabou caindo na gandaia. Este no entanto era pornô-chique, e a única discussão que poderia advir daí era se a pronúncia correta seria clitóris ou clítoris. Tais filmes, alertavam as autoridades, jamais passariam em telas verdes-amarelas, visto que se tratavam, obviamente, de uma conspiração comunista, com o fito de solapar e apoucar a família brasileira. Então veio a tal abertura lenta e gradual. Permitiram Laranja Mecânica, de Kubrick, só que com umas bolinhas pretas em cimas das pudendas desnudas dos artistas. Os atores corriam e as bolinhas pretas saiam em perseguição de respectivos perseguidos e perseguidas, nem sempre acertando o alvo, para gáudio da platéia. Aí aposentaram a tesoura. O Império dos Sentidos passou no falecido Cine Moderno. Sempre de casa cheia. Na sessão em que eu fui, quando a nipônica sorveu o farto néctar do amor do nipônico, uma pudibunda moça ao meu lado, engulhou e correu pro banheiro. Não deu tempo: regurgitou nos que assistiam ao filme sentados no corredor. Liberaram até o filme da moça do clitóris trânsfuga. Linda Lovelace, sua graça, Garganta Profunda, o título da fita. Vieram O Diabo na Carne de Miss Jones, Emanuelle, e daí degringolou pro incrível, fantástico e extraordinário. Tanto o sucesso que o Astor e o Ritz viraram pornôs, levando clássicos, tais como Meu Cachorro, Meu Amante (Bernardão Está de Volta). Já não se ia ao cinema a fim de prestigiar a sétima arte, mas pra aprontar artes mil. Pra resumir, o que antes era caso de polícia voltou a sê-lo. Numa sessão no Astor, a jovem e o namorado assistiam enlevados a Bacanais de Freiras Ninfomaníacas. Súbito, ela leva a mão aos cabelos, e pergunta: Bem, foi tu? Ele respondeu negativamente, e ela: Então, foram. Em suma, um rapaz na fila de trás ao prestar culto no altar de Onan, conspurcou a cabeleira da moça com o produto do seu ato despudorado. O namorado ofendido partiu pra ignorância. Acabaram na delegacia de Santo Amaro. Não, eu não tava presente, minha senhora. Escutei o buruçu no Bandeira Dois. Enfim, com brasileiro é assim. Se facilitarem a gente entroncha. Do romântico e insaciável casal japonês de O Império pro sátiro cachorro Bernardão foi um pulo. Felizmente se restaurou a moralidade. Agora a juventude sadia só vê filmes idem; Esqueceram de mim não sei quantas vezes, Pânico 1, 2, 3... Cento e tantos Dálmatas... Esta crônica foi publicada originalmente no site www.kinema.com.br e-mail: teles@jc.com.br |
|