LG_jc.gif (3670 bytes)

ARIANO SUASSUNA
Um retrato de corpo inteiro do autor do movimento armorial

Instituto Moreira Salles, que já dedicou mais da metade de sua revista literária a escritores nordestinos, destaca agora o paraibano Ariano Suassuna

O Instituto Moreira Salles, braço cultural do Unibanco, promove, nesta quarta-feira, a partir das 20h, no Forte das Cinco Pontas, noite de autógrafos com Ariano Suassuna.

O autor de Auto da Compadecida é o assunto de todo o número dez dos Cadernos de Literatura Brasileira, publicados há quatro anos pelo IMS.

A revista literária, de periodicidade semestral, é sempre monotemática. Atualmente, junto com a revista Cult, a Poesia Sempre, pode ser considerada a melhor publicação do gênero no país.

O critério para ser escolhido pelos Cadernos é evidentemente já ser uma espécie de clássico da moderna literatura do Brasil. A própria revista tem uma estética desse tipo. É austera, limpa e de muito bom gosto.

A estrutura das matérias obedece a um padrão simples e eficaz. Uma longa entrevista com o homenageado, completada por ensaio extenso e bibliografia o mais possível completa, além de ensaio fotográfico e rica iconografia, além de textos inéditos.

Se o ponto alto é a qualidade da publicação, o baixo é a distribuição. Apesar de anunciar que está disponível nas principais livrarias do país, quase ninguém sabe da existência da revista no Recife, porque mal chega por aqui. O número sobre João Cabral de Melo Neto, a despeito do êxito (foi reimpresso devido à grande procura) mal aportou na sua terra. Talvez com essa edição dedicada ao hoje mais carismático dos escritores com atuação em Pernambuco o Instituto corrija essa falha.

Suassuna, paraibano radicado em Pernambuco, é o sexto escritor nordestino a ser focalizado pela publicação do IMS; os outros foram o pernambucano João Cabral de Melo Neto (tema da edição de estréia, em março de 1996), o baiano Jorge Amado (no terceiro número, em março de 1997), a cearense Rachel de Queiroz (número 4, setembro de 1997), o maranhense Ferreira Gullar (número 6, setembro de 1998) e o também baiano João Ubaldo Ribeiro (número 7, de março de 1999).

A revista homenageou ainda os paulistas Raduan Nassar (no segundo número, de setembro de 1996) Lygia Fagundes Telles (número 5, março de 1998) e Hilda Hilst (número 8, outubro de 1999) e a mineira Adélia Prado (número 9, junho de 2000).

Entre os destaques dos Cadernos sobre Ariano Suassuna estão os depoimentos de Raduan Nassar e de Millôr Fernandes - numa seção, intitulada Confluências, em que colabora também o acadêmico Marcos Vilaça - um poema inédito do criador do Movimento Armorial, ilustrado por ele mesmo, e sete iluminogravuras de sua autoria.

Nesta edição de 204 páginas, o leitor encontrará também a mais longa entrevista já realizada pelos Cadernos. No último sábado de setembro, Ariano Suassuna recebeu em sua casa no Recife, Antônio Fernando de Franceschi, diretor editorial, e Rinaldo Gama, editor executivo da revista.

Além das próprias questões, eles levaram ao autor de O Rei Degolado (1977) perguntas do vice-presidente da República, Marco Maciel, e do economista Celso Furtado, dos críticos João Alexandre Barbosa (literário) e Mariângela Alves de Lima (teatral), dos diretores de TV e cineastas, Luiz Fernando Carvalho e Guel Arraes e do ficcionista Moacyr Scliar.

Idelette Muzart Fonseca dos Santos (da Universidade de Paris X-Nanterre), o crítico Wilson Martins, Carlos Newton Júnior (da Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e Ligia Vassalo (da Universidade Federal do Rio de Janeiro) assinam os Ensaios, que tratam, respectivamente, da importância de Ariano na cena cultural brasileira, de sua ficção, poesia e teatro.

Como sempre , a publicação do IMS traz ainda as seções Geografia Pessoal, com fotos de Eduardo Simões feitas na região da Pedra do Reino (na divisa entre Pernambuco e Paraíba), Memória Seletiva e Guia - estas, de dados bibliográficos.

Ariano Villar Suassuna nasceu no dia 16 de junho de 1927, na capital da Paraíba, que tinha então o mesmo nome do Estado. Formado em Direito e Filosofia e livre-docente em Cultura Brasileira, foi secretário de Cultura do Recife (1975-79) e do Estado de Pernambuco (1995-99).

Desde 1990, ocupa a cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras.

Publicou, além dos trabalhos mencionados, as peças teatrais O Santo e a Porca (1964), A Pena e a Lei (1971) e A Farsa da Boa Preguiça (1974) e o romance Fernando e Isaura (1994), entre outros textos.

Apesar da produção literária relativamente magra e lenta (A Pedra do Reino, a sua melhor narrativa é de há quase trinta anos), Ariano Suassuna tem despertado o interesse - renovado e acentuado nos últimos anos - da mídia e das editoras. Há mais de dez anos está a escrever - ou a reescrever - aquela que pretende ser a sua maior obra -, e deve terminá-la em breve, se os constantes pedidos de entrevistas, cargos públicos, colunas em revistas, jornais e televisões não o atrapalharem.

O ponto mais destacado da sua obra é o teatro, que se popularizou graças às adaptações para a televisão e o cinema. Um exemplo de grande sucesso recente é a releitura que fez o diretor Guel Arraes de sua mais famosa peça.

A Pedra do Reino, um romance feito de romances, que retrata os acontecimentos épicos e fantásticos do messianismo nordestino é a sua obra mais ambiciosa, mas grandemente desconhecida. As novas gerações conhecem mais o Ariano personagem que o Ariano autor. A publicação do IMS contribuirá para diminuir essa lacuna na formação de muitos leitores.

Cadernos de Literatura Brasileira (Instituto Moreira Salles, 204 páginas, R$ 25 reais. Pedidos de assinaturas (com 20% de desconto sobre o preço de capa) podem ser feitos pelo telefone (0xx11) 288-3166, ramal 213, ou via Internet, no endereço http//www.ims.com.br

___________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 04.12.2000
Segunda-feira