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POESIA PERNAMBUCANA
Um ginasta da palavra, com engenho

Em Alberto da Cunha Melo o emergente é o homem enquanto ser social inquieto, na dose certa do lírico, do épico, do dramático

POR NORMA GODOY

Para aqueles que se mantêm distanciados dos melhores momentos da poesia pernambucana, reafirmo o que venho dizendo em algumas comunicações e que hoje é enfatizado pela crítica nacional: Alberto da Cunha Melo encabeça um grupo de escritores de fortíssimo calibre estético, equivalente ao de um Drummond de Andrade, de um Bandeira e, principalmente, pela tenacidade no ofício poético, de um Melo Neto.

Alberto da Cunha Melo não media, não apazigua. Realiza sua poesia no diálogo dos extremos sob a tensão de um sujeito lírico livre do linear, da lição tradicional, e, como reza em Wölfflin , nos “conceitos fundamentais”, da mensuração dos opostos.

Trata-se de um Poética de recorrência à natureza dúplice que habita todas as coisas. A mensagem dá-se num texto de descentramento do leitor, o qual é socorrido pela propulsão lírica do organismo poético, uma espécie de chama dilatadora/delatadora das emoções. O leitor entra num processo catártico que redime, salva-o.

Em Alberto Cunha Melo o emergente é o homem enquanto ser social inquieto, na dose certa do lírico, do épico, do dramático:

"Levamos fogo, não esponjas,/ ao trono sujo de excremento,/ disputando o mesmo vazio/ de uma estrela no firmamento;/ jarros negros e estrelas, tudo/ é uma busca de conteúdo;/ mas, todos estamos em casa,/ como os vôos dentro das asas."

Nesse trecho de Yacala, a mais recente publicação do poeta (acaba de sair uma segunda edição, no Rio Grande do Norte), exemplo ímpar do seu humanismo, tomamos contato com uma nova forma de expressão octossilábica, criada pelo poeta, constituída de um quarteto, um dístico, um terceto e um dístico.

Nada falta, nada sobra ao ajustamento necessário ao equilíbrio formal (veia cabralina), sem querer dizer que o poético não esteja à solta iluminando o campo poemático.

É Cláudia Cordeiro quem diz no seu prefácio a Poemas Anteriores: uma poesia "construída com a paciência, a persistência, a perspicácia do seu modo de Sísifo, que não procura um tempo de paz”.

Paradoxalmente, há espontaneidade nos versos untados de um lirismo comovente, eivado de humanidade:

“Dele salta um homem cansado/ de voar e de ser tão vão/ pelo ar, o Poeta que agora/ aponta a alma novamente.”

Um ginasta da palavra que, sem estar na clausura de um Beneditino de Olavo Bilac, nutre sua Poética com engenho e beatitude no trapacear com o signo lingüístico.

É a vigília prometéica sem o ensurdecer do canto lírico, movimento de tensão/expansão responsável pela sustentação da tessitura poemática.

Na poesia de índole social, o vate moderno se insurge na pele do lírico/poesia que se circunscreve no desenho, no contorno, no nível imagético do texto:

"Dizem que meu povo/ é alegre e pacífico./(...) Eu digo que meu povo/ é uma pedra inflamada/ rolando e crescendo/ do interior para o mar."

Arte-testemunho de vida do sociólogo-poeta, de predição social, de instauração de uma nova ordem, um vir-a-ser que enseja a quebra do estabelecido.

Seria querer demais investigar a poesia de um Cunha Melo em tão breve espaço. Fico com a insatisfação de não haver dito nada. Trata-se de uma poética de tese, que sustenta os mais complexos conceitos da teoria literária. Síncrese de labor prometéico e efervescência dionisíaca.

Norma Godoy é professora e crítica literária

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Jornal do Commercio
Recife - 04.12.2000
Segunda-feira