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POESIA PERNAMBUCANA II A tragédia de todos os dias em Yacala, de Alberto da Cunha Melo POR JOSÉ MÁRIO RODRIGUES Assim que li o livro Yacala, de Alberto da Cunha Melo, comecei imediatamente a releitura. Achei que havia mais a descobrir, pois o poeta conta uma tragédia e, com a minha preocupação de saber como seria o fim da história, poderia ter deixado passar certos momentos poéticos definitivos em qualquer obra literária. Apesar de convivemos com acontecimentos trágicos desde que nascemos, e depois quando conhecemos as tragédias da Literatura Universal, nunca iremos nos acostumar nem perder o interesse por elas, que estão enraizadas na nossa vida e na história da humanidade. As grandes obras literárias são sempre trágicas e o tema supremo é a morte. Brueghel, grande pintor da Idade Média, retratou essa verdade nun quadro que tem o título "Triunfo de La Muerte", que está no Museu do Prado, em Madrid. Quando não expressam a morte, as obras literárias que resistiram ou resistirão aos séculos, tratam do conflito entre os homem e o mundo, a alegria e a tristeza, o prazer e a dor, a guerra e a paz, etc. Todos esses conflitos terão como resultado a morte ou "um diário de luz em extinção/enquanto rastreia no espaço/ a luz da destruição", no dizer do poeta Alberto. Os personagens de Yacala, mestre Bai e Adriana, filha do mestre, estão presentes na tragédia brasileira de todos os dias. São apenas três personagens. Isso revela um forte sentimento de religiosidade: a Trindade Cristã. Para tornar mais profunda a tragédia, tenho a impressão de que o poeta preferiu colocar na história uma filha do mestre, e não um filho, por ser a mulher responsável pela reprodução da espécie e que tem levado um peso maior de sofrimento, através dos séculos. De quebra, aparece no cenário de Yacala um cão, símbolo da fidelidade. ESTÉTICA Os personagens, contudo, são apenas atores do grande texto, da beleza poética do livro, do aspecto estético da obra, da linguagem firme, da palavra exata. O livro não possui lugar-comum. A impressão que se tem é de um trabalho que levou muito tempo, como o de um restaurador de afrescos numa catedral atingida por um míssil. O sociológico e psicológico poderiam até sacrificar o estético como afirmam alguns críticos literários. Com Alberto, acredito, isso não aconteceu, mas não consigo ver o livro Yacala fora desse contexto. Não sou e nem pretendo ser crítico literário. Minha opinião tem a ver com a minha emoção. Portanto, só escrevo sobre livros que bagunçam transcendentalmente a minha sensibilidade. O livro de Alberto da Cunha Melo é um desses. Possui unidade. Não desafina em seus octossílabos. O poeta está sempre usando o diapasão para não sair do tom, pois ele bem sabe que "Todo dia sem alegria/ é um dia perdido, é um dano/ a mais na hélice da esperança/ movida a pó, ano após ano". Yacala é um livro para iniciados. As sutilezas poéticas não são apreendidas por todos, infelizmente. Terminei a releitura e telefonei para o poeta. Eu precisava dizer de minha felicidade em pertencer a uma geração - Geração 65 - que possui um poeta tão genial. Louvado seja Yacala. Louvado seja Alberto da Cunha Melo. José Mário Rodrigues é poeta e integra a chamada Geração 65 |
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