O Estado vizinho terá a maior safra dos últimos 10 anos: 26 milhões de toneladas de cana. Pernambuco atingirá 15,2 milhões de toneladas
por ANGELA FERNANDA BEFORT
O setor sucroalcooleiro de Alagoas está longe da crise que atingiu a maioria das empresas do ramo em todo o Nordeste e, especialmente, em Pernambuco. O Estado vizinho terá a maior safra dos últimos dez anos, com uma colheita estimada em 26 milhões de toneladas da cana-de-açúcar, enquanto Pernambuco produzirá de 15,2 milhões de toneladas na safra 2000/2001. Os dois Estados iniciaram a década passada com Alagoas produzindo um pouco mais do que Pernambuco, o que já vem ocorrendo há mais de 15 anos. O primeiro tinha uma produção de 22,6 milhões de toneladas, enquanto o segundo apresentava uma colheita de 18,6 milhões na safra 90/91.
Ambos os Estados também foram atingidos pela seca que trouxe uma perda da safra em pelo menos quatro anos de estiagem registrados ao longo da década de 90. Os empresários alagoanos do setor, que estavam à frente das grandes usinas, passaram a aumentar a quantidade de cana irrigada depois das primeiras estiagens. O resultado é que hoje as principais usinas daquele Estado instalaram sistemas de irrigação que atingem de 60% a 70% das suas áreas cultivadas. Em Pernambuco, esse número médio é de 35%.
Outro fato que também ajudou a capitalizar as empresas do setor sucroalcooleiro alagoano foi uma “concessão” feita quando o ex-presidente Fernando Collor de Mello, era governador de Alagoas. Na época (1988), o setor assinou um acordo liberando as usinas e destilarias do pagamento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) que incidia sobre as canas próprias. Isso reduziu drasticamente a quantidade de tributos recolhidos pelo setor.
“Foram R$ 800 milhões que deixaram de ser recolhidos durante dez anos”, contabilizou o professor do programa de Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Cícero Péricles de Carvalho, autor do estudo Análise da Reestruturação Produtiva da Agroindústria Sucroalcooleira Alagoana, que mostra o que aconteceu com o setor na década passada.
Ainda nos anos 90, foi extinto o antigo Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA) e também ocorreu a desregulamentação dos preços do açúcar e do álcool. O IAA durante mais de 50 anos comercializou os produtos do setor e também definia as cotas de exportação das empresas.
“Com todas essas alterações, o setor ficou mais dinâmico em Alagoas, porque as empresas começaram a desenvolver estratégias diferentes da época da regulamentação”, comentou o professor, acrescentando que houve uma reestruturação na qual as grandes empresas passaram a concentrar uma grande parte da produção e algumas unidades fecharam porque estavam muito endividadas e também perderam a competitividade. Pelo menos cinco unidades encerraram as suas atividades na década passada em Alagoas. Em Pernambuco, ocorreu o fechamento de 14 unidades do setor no mesmo período.
As grandes empresas que concentraram a produção, modernizaram a sua gestão, investiram em equipamentos mais modernos e na plantação de novas variedades da cana-de-açúcar. “Muitas delas também estavam capitalizadas porque não pagaram os débitos que tinham junto ao Banco da Produção do Estado de Alagoas (Produban) cerca de R$ 76 milhões e também com a Companhia de Eletricidade do Estado de Alagoas (Ceal), que era de R$ 40 milhões até 1996”, comentou Carvalho. Segundo o professor, não se pode falar que há uma caracterização de crise no setor sucroalcooleiro de Alagoas, já que a mesma implica em diminuição da produção, redução das exportações, baixa de rendimento agrícola e falta de inovação tecnológica. “Isso não está acontecendo com as empresas do setor em Alagoas”, argumentou.