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Congresso de urbanismo

Durante a semana que finda, o Recife hospedou o 9º Congresso Ibero-americano de Urbanismo, que, pela primeira vez, se realiza em uma cidade brasileira. Quatro capitais foram propostas para sede do evento: além da nossa, Brasília, Rio de Janeiro e Curitiba. O Recife foi escolhido; o que se deve, em boa parte, ao esforço de convencimento de sua secretária de Planejamento, Urbanismo e Meio Ambiente, a arquiteta Celecina Pontual. O congresso reuniu cerca de 600 profissionais e estudantes do Brasil e de países da Península Ibérica e América Latina. A promoção foi da Prefeitura da Cidade do Recife, Governo do Estado, Associação Espanhola de Técnicos Urbanistas e Associação dos Urbanistas Portugueses.

O tema central das comunicações e debates foi “O desafio do século 21: a reconquista da cidade”, que se desdobrou em três abordagens: qualidade (do desenho urbano à qualidade de vida), sustentabilidade (respeitando o meio ambiente natural e construído) e governança (formas de gestão participativa e compartilhada). Foram debatidos os desafios que as cidades enfrentarão no século que chega, buscando-se a nova cidade do novo milênio.

No trabalho que apresentou no congresso, O Recife da Campina do Taborda ao Conde da Boa Vista, o arquiteto pernambucano José Luiz Mota Menezes, presidente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico do nosso Estado, mostrou como nossa cidade evoluiu, sob o aspecto urbanístico, desde o fim da presença holandesa, no século 17, até o início do século 19, quando novas influências se fizeram sentir, da França, Inglaterra e Alemanha. Ele disse que a retomada do velho urbanismo português, entre 1654 e 1822, é o capítulo menos documentado da história urbanística do Recife. Faltam quase totalmente informações gráficas.

Para ele, a cidade manteve o mesmo ar de vila colonial até o século 19. Até então, a população se mantinha estável em torno de 20 mil pessoas, começando a mudar com a chegada aqui das ondas da Revolução Industrial. A partir de então, a orientação obedeceu ao interesse de fazer do Recife um assentamento urbano moderno, com saneamento, transporte público, destinação final do lixo, água potável e outras exigências das cidades francesas, inglesas e alemãs. Já em 1848, ano da Revolução Praieira (as idéias revolucionárias também eram importadas da Europa), criava-se a Companhia do Beberibe, para prover o Recife de água potável, antes transportada de Olinda em canoas d’água “sujas e malcheirosas”.

Começaram também a generalizar-se os aterros de mangues e alagados; tendência que muito contribuiu para o caos urbano em que vivemos hoje. O que leva os especialistas a encarar afinal os desafios; tema do congresso. Uma das soluções encontradas é a revitalização dos velhos centros das cidades. Em São Paulo, a prefeita eleita Marta Suplicy tem plano para o centro velho da capital, que prevê a construção ou restauração de 55 mil moradias. Aqui, já temos know how em recuperação e revitalização, com o grande sucesso do Recife Antigo; mas ainda há muito caminho a percorrer. Há centenas de prédios abandonados ou em adiantada decadência em Santo Antônio, São José, Boa Vista. Recuperados, eles poderiam inclusive servir para frear a expansão das periferias, que gera despesas de infra-estrutura, transporte etc.



Jornal do Commercio
Recife - 10.12.2000
Domingo