LG_jc.gif (3670 bytes)

VÕLEI DE PRAIA II
Jogar com alegria, receita de campeãs

Shelda e Adriana não fazem planos tão longos, mas esperam estar juntas daqui a quatro anos para tentar novamente a conquista da medalha de ouro na Olimpíada de Atenas. Em Sidney, elas ficaram com a prata

por JOSÉ NEVES CABRAL

Subeditor de Esportes

Adriana saca, Shelda bloqueia. Ponto para a dupla. Em seguida, cumprimentos, abraços, carinho, respeito. Shelda levanta, Adriana arremata. Ponto para a dupla. Em seguida, abraços, cumprimentos, carinho. Tem sido assim há cinco anos, quando a cearense Shelda e a carioca Adriana Behar decidiram formar a parceria. De lá para cá foram quatro títulos do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia, quatro do Circuito Mundial e a medalha de prata em Sidney. O quarto título brasileiro aconteceu aqui, no Recife, sexta-feira.

Líderes do ranking, elas precisavam apenas de mais duas vitórias para fechar a temporada como campeãs. Conseguiram. Hoje, naturalmente, estarão brigando pelo título da etapa. Com a mesma motivação.

Sexta-feira, pela manhã, logo após vencer a primeira partida para Ingrid/Shirlei por 15x4, Adriana resumiu o que é jogar por cada ponto, sem sem preocupar com o título. “De quantos pontos nós ainda precisamos para ser campeãs? Não sei. Eu quero é continuar jogando”, avisou, animada com o calor do público recifense. “Gosto de jogar aqui, o público prestigia, isso nos estimula muito, tenho muitos amigos no Recife.”

Para as duas, os títulos são apenas conseqüência de cada passe, cada bloqueio, cada levantamento, que elas tentam executar com o máximo de concentração. E essa concentração traz para quem acompanha os jogos da dupla a falsa impressão de que cada vitória delas é algo muito fácil.

“Não é”, lembra Adriana Behar, 31 anos, dona de conhecimentos acima da média em dois fundamentos importantes do vôlei – o saque e o bloqueio. Tanto que há duas temporadas (98/99) vem sendo eleita o melhor saque/ataque e bloqueio do Circuito BB. Sua companheira não fica atrás. Nesses dois últimos anos, Shelda foi escolhida a melhor em dois fundamentos – defesa e recepção. Mas talento natural apenas não resolve num esporte cada vez mais profissional.

NOS DETALHES – Daí a estrutura que acompanha a dupla. A treinadora Letícia Pessoa, mais três auxiliares-técnicos e um preparador físico. Essa equipe filma o jogos de Shelda e Adriana, e também os de suas adversárias. A partir disso, monta-se o plano de trabalho.

Mas para que tudo dê certo, é preciso profissionalismo e união, o que não falta a essa dupla. As duas dizem que, geralmente, dormem cedo. Não são de sair à noite. “Nós treinamos no Rio de Janeiro, mas eu não sou muito de sair, nem Adriana. Vida de atleta é muito regrada”, comenta Shelda. As briguinhas entre as duas acontecem, mas, segundo elas, são facilmente superadas. “Basta uma conversa”, diz Shelda.

Após vibrarem com a conquista do título do Circuito BB no Recife, as duas entram em férias. Em janeiro, voltam a se encontrar para planejar a temporada 2001.

A Olimpíada de Atenas ainda está longe, mas as duas deixam claro que vão tentar chegar lá com a mesma união. “Nós planejamos nossa temporada a cada ano e não para daqui a quatro anos, mas se estivermos bem até lá vamos tentar novamente”, diz Adriana.

A dupla já superou o trauma da derrota na final para as australians Cook e Pottharst. No dia seguinte à decisão, Shelda chegou a pedir desculpas aos brasileiros por ter conquistado a prata. Três meses depois, ela garante estar orgulhosa da medalha. “Aquilo foi um momento. O objetivo de qualquer atleta que vai a uma Olimpíada é ganhar uma medalha, nós ganhamos”, afirma Shelda.

Adriana Behar completa lembrando que elas fizeram tudo para conquistar o ouro. “Eu não mudaria nada do que fizemos. Foi uma questão de momento. Jogo tem profissionalismo, tem treinamento, mas também é dia, é inspiração”,analisa.

ÓTIMA TEMPORADA – Na avaliação da dupla, a temporada foi muito positiva. “Só não conquistamos o título desse circuito por antecipação porque deixamos de competir em uma de suas etapas”, explica Shelda.

No próximo ano, elas, naturalmente, vão ter que se preocupar com as mudanças no vôlei de praia. A quadra vai diminuir. Cada lado da mesma tem, atualmente, 81 metros quadrados. Com a alteração promovida pela Federação Internacional de Vôlei, cada metade da quadra ficará com 64 metros quadrados, 17 a menos.

Adriana acha que a mudança pode tirar uma das principais características do vôlei de praia: “É uma pena porque fundamentos como a defesa e a variação de bola ficarão comprometidos.”

___________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 10.12.2000
Domingo