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ADOÇÃO
Adote essa idéia

Pais adotivos contam suas experiências junto aos filhos. Felizmente, a prática vem sendo vista, cada vez mais, com naturalidade pela sociedade

por LUIZA BARROS

“Todo filho deve ser adotado por seus pais e isso independe do vínculo sanguíneo existente entre eles”. Essa máxima é defendida por Luiz Schettini, psicólogo e autor de livros como Compreendendo o Filho Adotivo; Compreendendo os Pais Adotivos e Adoção: Origem, Segredo e Revelação. "Se uma mãe não adota afetivamente o filho que gerou, ela é apenas genitora, não mãe. Os verdadeiros laços entre pais e filhos são de origem afetiva", explica o especialista, pai adotivo de Juliana, 22 anos, e Max, 27, que já tem dois filhos (ambos biológicos). "Considero um privilégio o fato de ser avô adotivo, pois é uma condição pouco comum", brinca.

Se Max fez desabrochar sorrisos em Schettini com a chegada dos netos, Juliana, estudante de Psicologia e atual estagiária do consultório do pai, também deve deixá-lo contente do mesmo modo. Pai e filha, ao que parece, muito têm em comum – além de terem escolhido a mesma profissão, entendem o processo adotivo de maneira muito similar. "Concordo quando se considera a adoção como um processo de construção de afeto. Às vezes penso que alguns filhos adotivos são mais amados do que certos filhos biológicos. Afinal, a adoção é pensada e planejada, o casal espera ansioso a chegada da criança enquanto há casos em que os pais só assumem o bebê por força das circunstâncias, pois a gravidez era indesejada", diz a futura psicoterapeuta.

A visível serenidade com que Juliana trata o assunto pode ser relacionada ao trabalho desenvolvido por seus pais, que sempre trataram a adoção de maneira muito natural. Assim como seu irmão, Juliana chegou ainda recém-nascida e, desde bem pequena, ouve contos com metáforas relativas ao processo adotivo. "Lembro de ouvir histórias como a do Patinho Feio e coisas semelhantes. Era tudo tão natural que nem sei dizer ao certo quando me dei conta de que aquelas eram minhas histórias", conta.

A estratégia de usar narrativas infantis para, de forma lúdica, revelar aos filhos adotados sua condição também está sendo usada pela gerente de marketing Cláudia Sá Leitão e pelo seu marido, Paulo Roberto da Silva, pais de Renato, 3, e Carolina, 5, esta última filha biológica. "Cabe aos pais tratarem o assunto com naturalidade, sem ares de mistério, pois só assim os filhos também o farão. Apesar de Renato ainda ser novinho e não ter muita noção das coisas, já contamos a ele que é adotivo. Sua irmã, Carolina, é que entende um pouco melhor, porque é mais velhinha”, diz Cláudia.

A gerente de marketing lembra, com carinho, o momento em que Paulo e ela resolveram fazer a adoção de uma criança. “A gente já tinha Carolina, mas meu marido sempre falou na possibilidade de adotar um filho. Até chegarmos a uma decisão final, conversamos durante um ano. Só então resolvemos fazer a inscrição no Juizado”, rememora. E foi justamente na inscrição do Juizado que o casal demonstrou a real vontade de receber mais um filho em casa, sem exigências. “A grande maioria das famílias quer meninas recém-nascidas, mas nós, ao contrário, não escolhemos o sexo e só impusemos a condição de que tivesse menos de um ano de idade”.

CURIOSIDADE - Depois de grandes, alguns filhos adotivos não conseguem conter a vontade de conhecer suas origens e vasculham tudo em busca do ‘paradeiro’ de seus pais biológicos. Foi assim com Juliana, que, quando adolescente, insistiu com seus pais adotivos para conhecer quem a tinha trazido ao mundo. “Na época, minha mãe até chegou a me ajudar, mas a gente não tinha por onde começar. Como já faz muito tempo que nasci, os lugares que podiam indicar pistas não faziam mais sentido nenhum”, lamenta. De acordo com ela, que diz ‘ter adotado’ plenamente seus pais no sentido afetivo, às vezes incomoda desconhecer o rosto de sua mãe natural: “Não queria pensar que corro o risco de cruzar com ela na rua e não saber quem é”.

A curiosidade, todavia, não é regra. Ao contrário de Juliana, a filha da jornalista Tel Araújo, M.C., com 16 anos, sempre que questionada pela mãe quanto ao desejo de conhecer sua genitora, nunca demonstrou interesse algum. “Mais de uma vez já perguntei se queria conhecer a mãe verdadeira e ela nunca quis. Agora, a única coisa que ela pensa é na viagem de intercâmbio que vai fazer no próximo ano”, ressalta Tel.

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Jornal do Commercio
Recife - 10.12.2000
Domingo