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COMPORTAMENTO
Os serial kissers vão invadir a festa

Adolescentes criam uma nova prática que começa a virar mania: a ordem é beijar o máximo de pessoas numa noite

por Marcia Cezimbra

Quando a filha de 18 anos, meiga e bonitinha, vai a uma festa e beija um rapaz, os pais costumam achar natural. Mas se essa menina meiga e bonitinha acorda no domingo às gargalhadas com as amigas porque beijou 15 rapazes numa única festa, como acontece com a estudante Gabriela Martins, uma das serial kissers que invadem as festas do Rio, os pais provavelmente levarão um enorme susto, como ocorreu com o casal de psicólogos Marcos e Suzana Martins, quarentões que se consideram liberais na educação da filha. E se este hábito de beijar dezenas na boca numa só noite torna-se uma prática comum entre os adolescentes, os pais mergulham em grave perplexidade, principalmente quando essas festas são à fantasia, reunindo de dois a cinco mil jovens enlouquecidos, pelo menos na aparência.

“Não sei por que tanto show. A gente só beija e se diverte muito. É uma maneira de conhecer gente e até arranjar um possível namorado, quem sabe. Às vezes, eu acho que ficar com mais de cinco é muito, mas a festa é longa e as coisas vão acontecendo. É natural. Todas as minhas amigas e meus amigos fazem isso, sem a maldade vista pelos meus pais”, defende-se Gabriela.

Para a psicanalista Lulli Milman, autora do livro Cresceram!!! - Um guia para pais de adolescentes, a perplexidade dos pais de hoje diante dos filhos que ‘ficam’ com muitos numa só noite é a mesma de seus próprios pais quando, nos anos 60 e 70, eles, na época jovens libertários, resolveram fazer sexo antes de casar.

“A conduta dos jovens mudou, mas o discurso dos pais perplexos, que não compreendem a atitude dos filhos e a consideram um absurdo, é o mesmo. Até o discurso que esconde um moralismo, dizendo que esses jovens não vão criar um vínculo afetivo satisfatório agindo dessa maneira, é igual ”, diz.

Lulli Milman conta que há uma diferença na avaliação do comportamento de moças e rapazes que ‘ficam’ com muitos nas festas. Ela observa que a conduta do menino é recebida com orgulho e a da menina, com reserva. “Os pais do menino ficam satisfeitos ao vê-lo com tantas garotas. Já os da menina ficam preocupados, como nas gerações passadas. Também entre os meninos, as meninas que ficam com muitos são vistas, digamos, como garotas mais fáceis. E muitas meninas se arrependem quando ficam com tantos numa festa”.

BLOQUINHO – O estudante Mario da Costa, de 20 anos, é um dos serial kissers que andam assombrando muitos adultos que, há duas ou três décadas, eram tão ou mais rebeldes e revolucionários que os jovens dos tempos de Aids. Mario costuma ficar com no mínimo dez garotas por noite. Mas ele explica que essas festas de muitos beijos na boca são esporádicas, como a que foi, fantasiado de D. Juan, há um mês. “Foi uma festa da faculdade, que acontece todo ano. Não perco uma. Todo mundo já sabe que é para ficar com quantas puder. Nessa última, eu fiquei com 17 e meu primo com 21. A gente vai dançando, se olhando, pinta um clima e um beijo. Ou então ela me olha, eu chego perto, converso e pinta outro beijo. Se a garota for bonita e simpática, a gente telefona depois e pode até namorar. Eu estou namorando a décima quarta que eu fiquei naquela noite. Depois, nos perdemos, e eu fiquei com mais três. Na saída, nos reencontramos e estamos namorando”, conta.

Mario diz que não precisa levar um bloquinho no bolso para anotar com quantas vai "ficando". Marcos Oliveira Telles, estudante de 18 anos, diz que a graça de ficar com mais de uma é se livrar da dúvida sobre com quem ficar: “Se há duas meninas muito bonitas numa boate, para que ficar pensando com quem ficar? Dá para beijar as duas e tirar a prova de quem é melhor”, comenta.

Meninas serial kissers revelam que adotaram esse comportamento porque os meninos de hoje não querem namorar normalmente. Solange Mendes, estudante de 17 anos, tem namorado. Mas, quando vai a festas sem ele, ‘fica’ com muitos outros, mesmo sem ter muita vontade: “Ele também ‘ficaria’ com outras se estivesse no meu lugar. Às vezes, nem estou a fim, mas ‘fico’ com uma porção”, diz.

Para o psicanalista Renato Avzaradel, os pais não devem se preocupar muito com esse novo comportamento dos adolescentes, porque, na sua opinião, eles fazem isso como um rito de passagem para a idade adulta. “Tenho a impressão que os adolescentes fazem isso para se auto-afirmarem, para brincar de adultos. Eles precisam beber um pouco mais, tomar um porre. Todo adolescente precisa disso para ver o que acontece depois.

Para Avzaradel, essa conduta dos adolescentes é natural e saudável desde que não se transforme num aprisionamento, que ocorre quando o adolescente quer viver experiências afetivamente mais ricas e não consegue: “Eles fazem isso para entrar em contato com a sexualidade. Na adolescência, há um certo descompromisso com tudo e isso é muito bom. A menina está descobrindo que é mulher, o menino, que é homem. Beijar muitos numa festa é uma espécie de brinquedo nesses tempos de Aids, em que a relação sexual exige maiores precauções que nas gerações passadas”, explica.

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Jornal do Commercio
Recife - 10.12.2000
Domingo