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NO PÉ DA CONVERSA
Lenivaldo Aragão

Matreiro-mór

Em 1966, depois que o Brasil fracassou na tentativa de conquistar o tricampeonato mundial, em Londres, houve uma grande celeuma em torno do presidente da CBD, hoje CBF, João Havelange. Muita gente queria sua cabeça, mas JH tirou de letra, sendo reeleito por aclamação, depois que Rubem Moreira saiu de Porto Alegre com um manifesto assinado pelos presidentes das federações Gaúcha, Paranaense e Catarinense, que terminaria contando com a adesão do restante dos presidentes estaduais.

Até que isso acontecesse, houve muitos lances dignos do mais legítimo raposismo – e folclore – político, como conta no livro Futebol, Paixão & Catimba, Osório Vilas Boas, na época presidente do Bahia, e um dos homens poderosos do futebol nordestino.

Segundo Osório, em São Paulo, o presidente da Federação, Mendonça Falcão aparecia como líder, mas a “eminência parda” era Paulo Machado de Carvalho, mais tarde, o ‘marechal da vitória’. Seu sonho era derrubar Havelange, usando Mendonça como testa-de-ferro. Confiando na capacidade de liderança de Paulo Machado, Havelange entregou-lhe o comando da Seleção do bi, em 58 e 62, prestigiando-o e, ao mesmo tempo, neutralizando-o como adversário.

Com Paulo Machado anulado, Mendonça começou a sentir a influência da mosca azul, tratando de seduzir Rubem Moreira, tido como o vice-rei do Nordeste. JH sentiu a coisa no ar e conversou com Osório: “Rubem está com Mendonça. Você é o único capaz de derrotá-lo no Nordeste, trabalhando as federações de lá. Vá a Sergipe, Alagoas, Paraíba e Ceará e consiga derrubar Rubem da vice-presidência (do Norte-Nordeste) da CBD.”

Em seguida, conta Osório, JH sugeriu seu nome para vice-presidente do Norte-Nordeste, justamente o cargo de Rubão. O presidente do Bahia não quis, mas aproveitou o gancho, dizendo que o posto deveria ser dado a Walter Passos, o presidente da Federação Baiana. Havelange concordou: ‘Um bom rapaz. Uma boa lembrança sua. Mas, aja!”

Depressa, Osório voou a Salvador, e Walter Passos aceitou a indicação de seu nome. Walter não viajava de avião, então os dois foram de carro a Aracaju, onde obtiveram o apoio da Federação Sergipana, argumentando que não se tratava de derrubar Rubem, de quem todos eram amigos, mas de estabelecer um sistema de rodízio, de modo que cada estado do Nordeste e do Norte tivesse sua vez na CBD. Nada de pessoal, portanto. O presidente Robério Garcia, amicíssimo de Rubem aceitou, mas impôs uma condição: Sebastião Bastos, o Bastinhos, presidente da Federação Alagoana, hoje um dos vice-presidentes da CBF, teria que dar seu apoio também. Bastinhos aprovou a idéia, mas condicionou seu apoio à aceitação pelo Ceará. Lá se foi Osório a Fortaleza falar com Bié, o presidente local. Foi mais um que o baiano levou no papo.

Osório ficou todo fagueiro e pegou o avião de volta, rumo a Salvador e escalas. Em Maceió, Bastinhos o aguardava no aeroporto. “Como é que foi?”, perguntou Bastinhos. “Tudo certo”, respondeu Osório. “Leia este telegrama aqui!”, disse o dirigente alagoano. Osório quase desabou quando leu o texto: “Dispensadas todas as dívidas dessa Federação a pedido do nosso amigo Rubem Moreira.” O telegrama era assinado por Abílio de Almeida, dirigente da CBD e homem forte do staff de JH. Bastinhos afirmou, diante de um Osório trêmulo e contrariado: “Osório, honestamente, já não estou entendendo nada! Os homens querem derrubar Rubem e dão, agora, tal prestígio a ele? Como é que é?” Resposta do baiano: “Este telegrama só pode ser falso. Aguarde uma comunicação minha.”

Em Aracaju, Robério Garcia também o aguardava, com o mesmo telegrama. Estarrecido, Osório prosseguiu viagem, desceu em Salvador às 14h, e duas horas depois embarcava num Douglas para o Rio. No pinga-pinga, só à noite aterrisaria no Santos Dumont. Enraivecido com o que considerava uma falseta, Osório entrou na CBD, no dia seguinte, xingando Abílio de Almeida, de cara: “Você é um safado.” E tome palavrão. Cobra criada, Abílio nem se abalou e aconselhou-o: “Vá falar com o presidente.”

Logo, o baiano estava com Havelange, perguntando-lhe em tom irado: “Como é que você fez uma coisa destas?” A resposta: “Rubem esteve comigo. Deixou Mendonça e acertou os ponteiros.”

Acontece que toda a trama de Osório chegara ao conhecimento de Rubem Moreira, através do cronista esportivo cearense, Aliatá Bezerra. Sem perda de tempo, Rubão caiu em campo e anulou o trabalho do baiano. Foi matreiro, como todo cartolão que se preza. Deu, sem dúvida, um verdadeiro golpe de mestre.

Varejo 1

O Náutico deu o bizu e o Santa pegou: Ricardo Rocha volta ao Arruda, agora como técnico, se José Mendonça for o novo presidente. ***** Por falar em Náutico, é preciso que se faça alguma coisa para tirá-lo da inércia. A poucos meses do centenário – se chegar lá –, o clube vê seu prestígio, tecido através de gerações, atirado na lama. ***** Há muito não se via uma sucessão tão agitada como esta do Sport em que Luciano Bivar e Wanderson Lacerda disputam a presidência para o biênio 2001/2. As tensões tendem a explodir e é preciso que pessoas equilibradas controlem os mais exaltados. ***** Depois de amanhã, Leão recebe, às 18h, na Assembléia Legislativa, o título de cidadão pernambucano.

Varejo 2

Pelo menos isso: o Náutico recebe a imprensa terça-feira, para apresentar seus novos uniformes. ***** Não deu para os pernambucanos no vôlei do Circuito Banco do Brasil. Neste último dia, a gente vê a festa dos outros. ***** Clayton Pinteiro, após 12 anos, deixa – para o caruaruense Gilberto Lira – a presidência da Federação Pernambucana de Automobilismo, assumindo a vice-presidência na CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo). ***** Parabéns ao companheiro Jamildo Melo, da Editoria de Economia, por ter ganho o 8º Prêmio Cristina Tavares de Jornalismo. ***** Sábado que vem, na Fortaleza do Brum, jantar de confraternização da colônia de Santa Cruz do Capibaribe.


Jornal do Commercio
Recife - 10.12.2000
Domingo