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PARTIDOS
As mil faces do PT

Dividido em várias correntes políticas, as chamadas ‘tendências’, os petistas ganharam fama pelas suas ‘divergências internas’. Nos últimos anos, porém, o partido vem amadurecendo e promete manter a unidade em torno de João Paulo

por SÉRGIO MONTENEGRO FILHO

Na definição semântica, partido político é “uma associação de pessoas unidas pelos mesmos interesses e ideais”. Mas, em se tratando do Partido dos Trabalhadores, a semântica fica aquém da realidade. Dividido em várias correntes de pensamento – as chamadas “tendências” – o PT é a reunião de vários partidos em um só. E nem sempre o entendimento vem fácil. Famosos pelas suas ‘divergências internas’, os petistas garantem que as diferenças são salutares e que a pluralidade é a grande responsável por manter a legenda unida e cada vez mais forte ao longo de mais de vinte anos.

Por mais paradoxal que possa parecer, especialistas da área afirmam que a tese tem procedência. Segundo a professora Luiza Pontual, do Mestrado em Ciência Política da UFPE, os partidos são, por natureza, anti-democráticos, por não permitirem divisões internas. “A democracia pressupõe discordâncias”, explica. Esse caráter heterogêneo, segundo ela, é o que marca o PT. “Hoje se fala muito em uma crise na representação partidária, porque a sociedade se pluralizou e os partidos mantiveram uma construção rígida, monolítica, e não acompanharam esse processo”, acrescenta, citando o PT como uma exceção.

Essa pluralidade de pensamento, porém, será um dos desafios do prefeito eleito do Recife, João Paulo. Há quem afirme que será mais fácil para ele administrar a relação com os partidos aliados de que agradar a todas as tendências do seu próprio partido.

Exatamente por conta das diferenças entre as correntes políticas petistas, os pré-requisitos básicos para quem deseja assumir um cargo de direção no partido são, acima de tudo, ter grande capacidade de diálogo e muita habilidade para contornar divergências, que algumas vezes chegam a fugir ao controle interno e passam a ser tratadas publicamente. Hoje, porém, os representantes das nove tendências que compõem a atual configuração do PT pernambucano garantem que, se ainda não atingiram a maturidade política, ela está muito próxima. E citam como exemplo a unidade em torno da candidatura de João Paulo.

Pela primeira vez, um petista governará a capital de Pernambuco. E com o apoio de todas as vertentes do partido. “O clima é de maturidade. Desde o Encontro Estadual do partido de 1999, passamos a reconstruir as regras de convivência e nos momentos mais críticos, usamos o bom senso. O nome de João Paulo era viável e as chances de vitória forjaram o amadurecimento”, explica o vereador eleito Humberto Costa, líder da tendência Articulação Unidade na Luta (AUL), majoritária no PT. Humberto teve seu nome colocado, juntamente com o de João Paulo, para representar o PT na disputa pela Prefeitura, mas abriu mão em favor da unidade.

Também da AUL, o vereador reeleito Dilson Peixoto reconhece que o PT passou por momentos difíceis de confronto interno, mas garante que hoje há um clima de “harmonia discutida”. “Há quatro anos, vivemos uma crise que enfraqueceu o partido na disputa de 1996. Em 98 retomamos o clima de convivência pacífica e, desde então, amadurecemos muito”, conta. Hoje, segundo ele, diante da perspectiva real de poder, as diferenças foram secundarizadas.

Representante do Movimento de Tendência Marxista, mais à esquerda no partido, a jornalista Sheila Oliveira – integrante da direção partidária – diz que há uma disposição unânime das tendências em assegurar o êxito da administração de João Paulo, mas adverte que o PT jamais abrirá mão de ser um partido plural. “Nossa vontade de acertar, de fazer da gestão da Prefeitura um instrumento de transformação da realidade, é maior. Mas isso não quer dizer que as diferenças desapareceram”, afirma.

E, ao que tudo indica, essas divergências ainda vão exigir muito jogo de cintura do próprio prefeito eleito. Isso fica claro na voz do professor e sindicalista Edmilson Menezes, coordenador de O Trabalho, considerada a mais radical nas tendências. Um dos fundadores do PT, ele defende um governo de ruptura. “João Paulo recebeu um crédito da população, e para honrá-lo, tem que acabar com o pagamento das dívidas com a União. Se não fizer isso, estará traindo o mandato”, diz, alertando que o programa Orçamento Participativo, carro-chefe da gestão petista, perderá recursos.

“Se João Paulo não cumprir o que prometeu, colocando 100% das verbas no Orçamento Participativo, vamos ficar ao lado do povo e denunciá-lo”, ameaça Menezes. E completa: “Ele está compondo um Governo com partidos que não tiveram coragem de romper com tudo. Serão os coveiros da administração. Confiamos no prefeito, mas ele tem que romper com esses partidos”, conclui.

Apesar das ameaças, João Paulo não acredita em radicalismos, e garante que o clima é de unidade. “O grau de maturidade que atingimos será mantido durante a nossa administração. Não existe ninguém no PT que defenda essas posições radicais”, aposta.

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Jornal do Commercio
Recife - 10.12.2000
Domingo