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ARTIGO

Educação para quê?

por EMANUEL DIAS*

A rapidez do discurso pedagógico nesta ante-sala do novo milênio ainda não está suficientemente dimensionada. Talvez até se transforme num processo para o qual não seja possível criar balizamentos, medidas, pesos, pelo seu conteúdo dialético. Ocorre-me, a propósito, como ponto de apoio para mexer nesse monumental edifício de conceitos que é a idéia de educação hoje, aplicar-lhe a conhecida tese de Marx, para quem os filósofos se preocupavam em entender o mundo, quando o que importava era transformá-lo. Uma exortação revolucionária, com certeza, que tem a ver, em nossos tempos, com a urgência das transformações que ele exige.

Porque não cabe mais apenas compreender o mundo, mas transformá-lo, a educação deste 2000 já contém os germes desse mundo novo, seja porque a informática é agregada como equipamento irreversível na construção do cotidiano das pessoas - não apenas pelo conforto e rapidez que oferece mas, também, pelo que permite de conhecimento - seja porque há recursos produzidos nas universidades que permitem a superação dos mais dramáticos problemas do passado, como a produção de alimentos de qualidade, para todos, com a ajuda da engenharia genética, entre outros avanços.

Resta pensar, postas essas duas vertentes irreversíveis do novo mundo, qual o grau de cidadania contido em uma e outra. De que forma a informática é agregada ao cotidiano para a construção da cidadania? Será que o domínio do genoma está propiciando as condições racionais para a intervenção mais profunda do homem na natureza sem cavar sua própria sepultura com a destruição do ecossistema? Estará essa engenharia genética a serviço da qualidade de vida de todos, ou do lucro de uma minoria?

Essas questões fazem parte de qualquer arcabouço que se imagine para a educação nos tempos que vivemos. À rapidez instrumental permitida pelos novos recursos da informática - que se superam numa freqüência inimaginável - deverá corresponder o aprofundamento do conteúdo, a natureza íntima do conhecimento, sua essência, sua dimensão ética. Até porque se faltar esse conteúdo, tudo mais faltará. A pressa da criação pode ser proporcional a sua destruição, por incompatível com as carências de uma sociedade que, como nunca, sabe o que quer e luta para isso. Nossa educação tem, pois, que dar respostas aos desafios na rapidez com que eles são postos. Não bastará mais entender o grau de benefício dos avanços tecnológicos mas a precisão com que eles estarão a serviço da comunidade. Não será mais suficiente presumir a idéia do conhecimento pelo conhecimento como base científica, mas seu correspondente humanismo, de que forma ele é agregado ao patrimônio coletivo. Isso implica em compromisso ético do saber, significa fazer da educação uma plataforma integral do ser humano.

Pode parecer um truísmo pensar a educação para a vida. Esse tem sido o discurso corrente, mas o 2000 e os novos tempos que batem a nossas portas exigem uma configuração mais precisa do que parece apenas um discurso. Porque quando imaginamos a intervenção do cientista para tornar uma cultura geneticamente protegida contra pragas necessariamente teremos que dispor da idéia não como um conhecimento acadêmico, acima de qualquer suspeita, em especial dos simples mortais que não puderam chegar à Universidade. O significado ético do novo conhecimento está exatamente no contrário desse raciocínio. Ele nos leva ao entendimento de que o mais sofisticado de todos os produtos de laboratório deve ser explicado ao mais humilde dos cidadãos porque esse é um imperativo do novo contrato social que sujeita não apenas alguns grupos à supremacia hegemônica de outros pequenos grupos. Estamos tratando, agora, da biosfera, da sobrevivência de toda a humanidade.

Em nosso caso específico, o desafio parece ainda mais angustiante porque não temos apenas de acompanhar a rapidez das transformações tecnológicas, dando-lhes aplicação prática, como, por exemplo, na produção de alimentos geneticamente alterados e explicação teórica que justifique essas transformações. Temos, também, que resgatar a imensa dívida social de uma sociedade orgulhosa por estar entre as dez maiores economias do mundo e envergonhada por deter uma das três primeiras colocações entre as maiores concentrações de renda do mundo. Há, nessa contradição, um fosso que precisa ser ultrapassado a partir de um grande esforço nacional e de uma vertente: a educação.

* Emanuel Dias é reitor da Universidade do Estado de Pernambuco


Jornal do Commercio
Recife - 11.01.2000
Terça-feira

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