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MUNDO POP
A tênue linha entre amor e ódio ao ídolo

por JOSÉ TELES

O atentado frustrado a George Harrison, no penúltimo dia de 99, fechou um ciclo macabro de atos semelhantes, perpetrados, a maioria por admiradores, no século 20. Não por acaso, Mick Jagger atiçou os advogados em cima do romancista Littlejohn David, que, em 81, escreveu The Man who Killed Mick Jagger. A estória de um fã amalucado que baleia o vocalista dos Stones durante um show da banda, não agradou nem um pouco a Jagger, que não conseguiu que o livro fosse tirado de circulação.

Embora tenha sofrido várias ameaças durante sua longeva carreira, Mick Jagger só viu ameaçado pessoalmente uma única vez, em 69, por um rapaz negro, durante a apresentação dos Stones no festival de Altmont, na Califórnia. Supondo que ele apontava uma arma em direção ao palco, um grupo de Hell's Angel cobriu o rapaz de porrada e o esfaquearam, tudo isto diante das câmeras. O rapaz morreu, e não portava arma alguma.

George Harrison, assim como os demais ex-Beatles passou a importar-se mais com a segurança pessoal, desde o fatídico 8 de dezembro, dia em que Mark Chapman. um fã dos Beatles, assassinou John Lennon defronte do edifício Dakota, em Nova Iorque.

É muito tênue a linha imaginária que separa a paixão exacerbada por um ídolo do ódio pelo objeto da idolatria. Um simples gesto de descaso pode embaralhar os sentimentos, caso que muitos atribuem ter acontecido a Mark Chapman. Ele teria ficado frustrado com a pouca atenção que lhe foi dada por Lennon, que assinou secamente o nome e o ano, na capa do álbum Double Fantasy. Michael Abram, o rapaz de 33 anos, que tentou matar George Harrison também era um fã.

Quanto maior o mito mais arrebatadoras as paixões que eles provocam. Madonna, há dois anos, viu-se obrigada a colocar a polícia no encalço de um fã que a ameaçava de morte por telefone e cartas, e chegou a furar o cerco dos seus vários seguranças.

O caso mais notório dos anos 90 foi a da superestrela do público hispânico dos EUA, Selena. Responsável por milhões de discos vendidos e hits como Baila esta Cumbia e Bidibidi Bom Bom, Selena tentava impor-se também no mercado pop inglês, quando teve a carreira interrompida, em 31 de março de 95, pelos disparos desferidos por uma mulher não apenas sua amiga íntima e presidenta do seu fã-clube oficial.

Nestes casos, o capitalismo não pára para derramar lágrimas, converte a tragédia em lucro. Selena teve sua vida levada ao cinema, num filme campeão de bilheteria, que por sua vez catapultou a venda do seu catálogo discográfico. A cópia do LP autografado por Lennon para seu algoz, foi a leilão e arrematada por 460 mil dólares. Com os EUA carregando uma triste e histórica tradição de assassínio de figuras públicas, são relativamente poucas as baixas no mundo artístico provocadas por atentados (as drogas mataram muito mais gente).

O PERIGO MORA AO LADO - Não raro namoradas, assaltantes e até parentes podem ser mais perigosos do que fãs. A morte do lendário bluesman Robert Johnson segundo Skip Johnson, um contemporâneo, foi obra do demônio. Não foi exatamente o demo, mas o criminoso tinha um par de chifres. O seminal mestre do Delta blues, foi envenenado por um marido ciumento. Mulherengo inveterado, Johnson teve seu uísque batizado com veneno, agonizou por três dias, até falecer em 16 de agosto de 1938, aos 26 anos. Destino parecido teve outro Sam Cooke, uma das vozes-guia do pop americano, intérprete de clássicos tais como You Send Me, Wonderful World e Twisting the Night Away. Cooke morreu baleado, no dia 1º de abri de 64, em um motel, cuja dona, alegou que atirou nele porque o cantor tentou forçar a porta do seu quarto. Foi um caso confuso. Uma moça que estava com Sam Cooke o deixou às carreiras e pediu proteção à dona do estabelcimento. Ele tentou entrar nos aposentos dela, pela janela, vestido apenas de cuecas. Ele tinha 33 anos, e estava no auge da carreira.

Al Jackson, baterista do estúdio Stax, em Memphis, que ao lado de Steve Cropper, Donald Duck Dunn, e Booker T, definiu o som do soul dos anos 60 e 70 de Aretha Franklin, Al Green, Otis Redding, entre outros, foi ferido mortalmente, em 75, quando se dirigia ao estúdio. O assassinato foi atribuído a um ladrão.

Já Mal Evans, o mais bem sucedido roaddie da história da música pop (trabalhava com os Beatles, o mais bem sucedido grupo da história da música pop, logo...) foi morto pela polícia, na Califórnia. Incorporado ao staff dos Beatles em 63, ele acabou sendo o pau para toda obra do grupo (Evans que bate a bigorna em Maxwell's Silver Hammer). O enorme (quase dois metros) e aparentemente desajeitado roaddie foi aposentado precocemente. Bêbado e armado ele ameaçava uma mulher com o revólver e não quis se entregar à polícia. Mal Evans foi fuzilado, em 4 de janeiro de 76, em Los Angeles.

Uma das mais trágicas baixas da música pop, não teve fã, marginal ou a polícia no banco dos réus. Em abril de 84, Marvin Gaye, um dos gênios do pop da Motown, nos 60, e do soul dos 70, aos 45 anos, encontrava-se no auge do sucesso, com Sexual Healing no topo das paradas mundo afora, quando foi baleado mortalmente. O autor dos disparos foi seu próprio pai, a quem o cantor agrediu depois de uma discussão acirrada.

No Brasil, curiosamente, nunca nenhum astro de renome foi vítima de atentado por parte de fã. Pelo contrário. Cantores, coincidentemente, bregas dispararam suas armas. Nelson Ned e Lindomar Castilho nas respetivas mulheres; Agnaldo Timotéo, em playboys que cometeram a temeridade de tirar um sarro com ele, na praia de Botafogo, no Rio. Os mais temidos atentados contra personalidades e artistas famosos no Brasil não envolviam armas de fogo ou facas-peixeiras, mas beijos. O criminoso era o notório panificador português conhecido como o Beijoqueiro, que andou osculando de Frank Sinatra a Sting. Ao contrário dos americanos, somos um povo cordial, pois não?

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Jornal do Commercio
Recife - 11.01.2000
Terça-feira