CINEMA
Anna e o Rei leva
romance épico às telaspor
KLEBER MENDONÇA FILHO
A platéia que for ver Anna e o Rei
(Anna and the King, EUA, 1999), de Andy Tennant, pode ser
dividida em duas: de um lado, os que viram o clássico O
Rei e Eu (The King and I, 1956), de Walter Lang. Do
outro, os que não o viram. O Rei e Eu, um musical com
partituras de Rodgers & Hammerstein (Oklahoma, A
Noviça Rebelde), tem excelente clima de divertimento e
atuações memoráveis de Deborah Kerr e Yul Brynner
(Oscar pelo papel), um dos maiores ladrões de cena do
cinema (Sete Homens e Um Destino, Westworld) com sua
presença máscula e cabeça raspada inconfundível.
Em Anna e o Rei, Jodie Foster e Chow
Yun Fat ocupam os papéis em versão bem mais `séria'
que o clássico, um dos marcos dos anos 50 no cinema
hollywoodiano. O resultado desta nova versão pode ser
considerado insípido, porém não desprovido de
qualidade.
Esta é a história de Anna Leonowens
(interpretada por Foster, que acaba de dizer não à
continuação de O Silêncio dos Inocentes), uma inglesa
viúva que chega a Bangkok, capital do Sião, em 1862,
com seu filho, Louis (Tom Felton). Ela deixa a Inglaterra
para trabalhar como professora das dezenas de filhos do
Rei Mongkut (Yun Fat), monarca preocupado com a
modernização do seu reino perante um mundo que, ele
sabia, já começava a se ocidentalizar.
O principal ponto de interesse desta
história é a tensão criada entre o choque de duas
culturas. Leonowens traz valores da Inglaterra Vitoriana
e Mongkut representa uma sociedade oriental cujos
costumes são apresentados para o espectador como, no
mínimo, pitorescos, uma vez que o ponto de vista aqui é
ocidental (americano).
Admiradores do clássico dos anos 50
poderão observar que a atmosfera honesta de contos de
fadas de O Rei e Eu foi trocada, nesta nova versão, por
uma tentativa de fazer um drama convencional e
`realista'. Um estilo que parece mesclar Merchant &
Ivory com uma pitada ou outra de Disney.
Se no clássico de Lang tínhamos
cenários suntuosos tipicamente recriados nos estúdios
da Fox, em Hollywood, em Anna e o Rei a tela larga nos
mostra cenários e locações filmadas na Malásia. Vez
por outra, este filme ganha proporções épicas e o
orçamento de U$ 75 milhões (uns R$140 milhões) faz-se
visto até onde o foco alcança.
Quanto aos elementos humanos, Foster,
com sotaque britânico bem treinado, mostra-se
discretamente fascinada por Mongkut, que também parece
sentir o mesmo por ela. Leonowens é uma mulher
`moderna', com noções de feminismo que até parecem
deslocadas nesse mundo distante em tempo e espaço. Ela
tenta intervir numa história de amor envolvendo Tuptim
(Ling Bai), uma das concubinas de MongKut, mas ignora
protocolos e costumes da realeza e faz-se presente com
sua maneira firme de ser.
Yun Fat, sempre eletrizante como o
pistoleiro lacônico dos thrillers de John Woo, na fase
Hong-Kong do diretor (The Killer, Hard Boiled), parece
ter chegado de vez a Hollywood depois de aparecer com
Mira Sorvino no thriller Assassinos Substitutos. Ele
apresenta interpretação carismática mas, ainda assim,
contida, especialmente se lembrarmos do tom flamboyant de
Brynner em O Rei e Eu, papel que desempenhou também na
Broadway durante quase 30 anos e que o marcou para
sempre.
`Contenção', aliás, é a palavra que
marca a relação Leonowens/Mongkut, resultado de um
misto de respeito e atração não-declarada, sensação
esclarecida num dos bons momentos de Anna e o Rei, quando
ambos dançam num baile na frente de diplomatas
parcialmente horrorizados com intercâmbio cultural tão
incomum. A seqüência contrasta com a clássica cena
(mais descaradamente romântica e energética) em que
Kerr e Brynner bailam sozinhos num dos salões do
palácio, em O Rei e Eu.
Este excesso de comparações entre os
dois filmes serve apenas para ilustrar um ponto
importante. O original tomou o caminho da diversão,
revogando as leis da lógica e o respeito por fatos
históricos a favor de um espetáculo com tom de conto de
fadas. Resultou num produto mais divertido, povoado por
personagens carismáticos.
Este novo filme preferiu contar a
história de uma relação inusitada entre duas culturas
e o efeito final que este intercâmbio (pessoal e
cultural) teve num líder e no seu país, ou pelo menos
é isso que nos informa o letreiro final. Resultou num
produto de qualidade industrial, mas sem personalidade,
burocrático.
Talvez seja a direção quase estéril
de Andy Tennant, responsável pela água-com-açúcar
Para Sempre Cinderela (Ever After, 1998). Talvez seja o
final, envolvendo desdobramentos políticos de um golpe
que deporia Mongkut, em tom aventuresco e decididamente
`Disney'.
O resultado é luxuoso, digno de algum
respeito como passatempo, mas, em termos gerais,
esquecível, sentimento que não se aplica à matinê
classe A de O Rei e Eu. Em tempo: Anna e o Rei foi
proibido no final de dezembro pelo governo tailandês,
que considerou o filme um desrespeito à cultura e
religião do país. Na semana passada, foram presos os
primeiros falsários com cópias pirateadas em VHS e DVD
do filme banido.
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