LITERATURA II
Nova poética
alimenta-se da tradiçãopor
MÁRIO HÉLIO
Um poeta de vinte anos é um demolidor
de tradições, estranho ladrão do Fogo Original, de
comportamento excêntrico, fascinado pela maldição,
violentador da linguagem. Essa idéia, que formulou toda
uma literatura da modernidade, parece definitivamente
morta. Assim pensam os autores que começam a se destacar
no cenário da nova literatura pernambucana.
Duas tendências, pelo menos, já podem
ser notadas: uma de escritores cerebrais, que vivem a
literatura em tempo integral, e não separam a criação
da crítica. Os clássicos, antigos ou modernos, são a
sua principal referência. Outra, daqueles para quem a
comunicação direta é mais importante que a
complexidade, e a literatura deve buscar o leitor
simples, sem pretensão, interessado numa crônica do
cotidiano, leve e bem-humorada.
No primeiro grupo, estão nomes como
Perón Rios, Jacineide Travassos e Fábio Cavalcante. No
segundo, entre outros, Altemar Pontes (leia entrevista na
página 3). Com a definição de perfis desses autores,
quase inteiramente inéditos, e a divulgação de alguns
dos seus trabalhos, o JC Cultural inicia uma série que
pretende revelar quem são os novos escritores de
Pernambuco, na poesia, no ensaio, na crônica, no teatro,
no conto, romance e novela. O adjetivo "novos",
neste caso, não se limitará a idade ou cronologia.
Deve-se também encontrar autores, bissextos ou não, que
silenciaram durante muitos anos e, já maduros, começam
a divulgar a sua produção.
Entre os novos autores lançados a
partir desta edição, também inclui-se Ana Carolina
Carneiro Leão, boa revelação para o ensaio literário.
No seu texto, e no de Schneider Carpeggiani (outra
revelação), por assim dizer, explica-se o contexto
anterior ao da nova geração de escritores.
Perón Rios tem 20 anos e é estudante
de Letras, na Universidade Federal de Pernambuco. Fábio
Cavalcanti, de 22, também. Jacineide Travassos, 27,
ensina duas disciplinas de literatura na mesma
universidade. Em comum, além do curso, eles têm a
assumida vocação para a poesia e a crítica literária.
E um gosto exacerbado por autores difíceis como Joyce,
Osman Lins, Clarice Lispector e João Cabral de Melo
Neto. Este parece ter instilado neles a idéia de que a
poesia para ser boa deve ser cerebral. De que um texto
serve somente se for exaustivamente reescrito.
Mas não se pense que o talento seja
produto direto dos bons fluidos universitários.
"Há muito solipsismo nos textos que se escrevem na
Universidade", reconhece Fábio Cavalcante. O termo
"solipsismo" traduz-se pela mais sagrada mania
dos subnarcisos que são os professores e estudantes
universitários: adoram falar para si mesmos.
Embora tenha produzido mais de cem
poemas, Perón Rios considera que só dez deles merecem a
benevolência do leitor. Por isso, ainda não se animou a
publicar livro. Fábio Cavalcante, apesar de mais
prolífico (já fez mais de quatrocentos), também
insiste no ineditismo. Jacineide Travassos vai pelo mesmo
caminho, mas festeja a criação de um conceito - a
"logofania", que fundamenta a sua dissertação
de mestrado em teoria da literatura pela UFPE: "A
Logofania em Água Viva de Clarice Lispector".
Ousadamente, Travassos quer que a sua
idéia sirva como uma superação da
"epifania", usada para explicar em parte alguns
arroubos das personagens joycianas. "Esse termo
judaico-cristão que é a epifania não traduz bem o grau
de hiperestesia de autores como Joyce e Clarice",
diz a jovem professora. "O sujeito não se salva,
busca-se na linguagem", sintetiza. Entre os autores
que ela costuma visitar está o pré-socrático
Pitágora, de quem toma uma comparação para classificar
os níveis de interesse estético: o que sabe contemplar
está acima dos que simplesmente jogam ou dos que compram
e vendem, seja nos festivais helênicos ou na literatura
de hoje.
Há bastante estetismo nesses autores
de vinte e poucos anos. Todos querem ser poetas e
críticos ao mesmo tempo. Estão bem distantes de
qualquer forma de esoterismo (inclusive daquele que
define o poeta como um místico que não crê em nada).
Afirmam uma espécie de "superliteratura",
inseparável de valorizar uma tradição, que ainda tem
no topo Homero, Shakespeare e Dante.
Rios, Cavalcante e Travassos são do
tipo "livresco", leitores quase profissionais,
ou, noutras palavras, aspirantes a críticos e teóricos.
Ao contrário de Altemar Pontes, um admirador convicto de
Paulo Coelho, eles não suportam o autor de "O
Alquimista". "Não estávamos falando de
literatura?", ironiza Jacineide Travassos, quando
perguntada sobre o autor brasileiro atualmente mais
conhecido no exterior. Ela é, entre os seus pares, a
mais preocupada com uma formação filosófica que lhe
permita fazer uma crítica de fundamento estético. A sua
própria poesia quer uma aproximação com as musas de
Sócrates e Platão. "Poeta é o que se pergunta
sobre o ser", filosofa.
Além da filosofia, esses novos
poetas-críticos - diferentemente dos da geração
imediatamente anterior - são tradutores. Perón Rios é
o mais produtivo, entre os três citados do grupo
universitário. Os seus exercícios alcançam sobretudo
os autores de língua francesa. Quando se pergunta a ele
sobre a poesia que pratica ele quase desconversa - não a
considera ainda madura. "Quero reconfigurar a
tradição e a vanguarda, e não simplesmente uma
vanguarda estabelecida ou uma tradição já
resolvida", explica. Talvez por essa atitude não
seja fácil enquadrá-lo no chamado pós-modernismo,
afeito apenas a quase fazer uma paráfrase do passado.
Como para os seus colegas, a palavra
"tradição" tem um sentido positivo, e não
pejorativo, como nos momentos heróicos do modernismo,
mas com o objetivo de recriação, e não só de
encômio.
Fábio Cavalcante volta-se mais para
uma tradição americana, seja a poesia de Octavio Paz,
ou a crítica de Harold Bloom. Não que a sua admiração
seja menor por autores europeus do início do século
como Rilke. Mas a sua maior influência, e
"angústia", como diz, parodiando Bloom, é um
brasileiro: Mário Faustino, o poeta e crítico de
"O Homem e a sua Hora" e das resenhas do JB.
Como Faustino, Cavalcante mantém uma
relação de simpatia com o concretismo. Por isso,
realizou em parceria com Alexandre Nunes (outro
neo-concreto) um poema-objeto. O primeiro livro que
pretende publicar tem a marca da presença de Paz -
"Trans-Lúcido" é o título. O seu projeto
mais ambicioso, no entanto, é de um romance, de feição
flaubertiana, quanto à obsessão por depurar a
linguagem. "Ainda preciso tirá-lo da sombra de
Osman Lins, Joyce e Guimarães Rosa, apesar de saber que
é impossível qualquer prosador passar incólume por
eles", justifica.
Para aglutinar a nova produção
literária dos exigentes como ele, Fábio Cavalcante
começou a editar há um ano a revista ou jornal
alternativo "Crispim". "Tudo que pretenda
se despir da retórica inútil e aspire à concisão, por
princípio, nos interessa", avisa o editor. Rios,
que está nos dois números até agora publicados, parece
resumir os interesses do seu grupo numa frase:
"Mesmo que o poeta seja um ladrão de fogo, a poesia
dele deve enfrentar-se de lucidez e sobreviver".
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