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ENTREVISTA/ Altemar Pontes
"Prefiro as mulheres cínicas"

Altemar Pontes, 27 anos, é diretor industrial do grupo Elógica. Passa mais da metade do seu dia no trabalho. Nas poucas horas vagas, escreve e pinta. Já publicou dois livros - um de poesia, outro de contos. Há três anos, coleciona prêmios internacionais de literatura. Pela internet, escreveu a primeira novela interativa da língua portuguesa. Quando era criança, sofreu de pólio e solidão. Adulto, tornou-se analista de hardware e escritor. Há duas semanas, ficou sabendo que ganhou mais um prêmio, na Argentina, com um conto juvenil. Nesta entrevista, ele diz como concilia o mundo dos números e das letras e para que serve a literatura.

JC Cultural - Que síntese você faria das suas atividades literárias? Quais livros publicou, e do que tratam?

Altemar Pontes - Participei de duas coletâneas: Jovem Escritor/89 e Contos de Tantos (90). Meu primeiro livro foi: "Mácula - Resquícios e Máscaras" (96), de poesias e, o segundo, de contos: "Retalhos" (98). Em ambos os casos, o foco está numa maneira de apresentar o cotidiano de modo saudosista; os contos são em sua maioria ambientados no Recife do passado, mas esse trabalho de pesquisa serve como simples pano de fundo a histórias extremamente simples.

JC - Por que você resolveu tornar-se escritor?

Pontes - Ainda não tenho convicção se realmente sou um escritor, muito porque sou autodidata, aprendi a ler e escrever muito cedo, a poliomielite foi fator decisivo, pois não só vitima músculos, transforma-nos em solitários também; o que possibilitou-me a descoberta da literatura aos cinco anos, adorava contar histórias, escrever cartas e ler, lia tudo, principalmente bula de remédio (aliás, material farto, devido a saúde precária de meus avós). Cartas escrevi muitas, para primos, amigos, Mulher Gato e Daniel Boom (referências da infância, o Daniel pelo sentido de justiça que dava às aventuras, e Mulher Gato, porque sempre adorei mulheres cínicas).Em suma, não tenho idéia de como aconteceu, mas o importante é que parece que aconteceu.

JC - Para que serve a literatura no mundo atual?

Pontes - Mais do que inspiração, o ato de escrever exige vontade, afinco, melhor: determinação. Encarar o papel - ou a tela do computador - é um desafio constante. O espaço está ali, vazio, aguardando por uma idéia genial ou engraçada, uma mensagem de conforto, um desabafo angustiado, um grito de revolta ou simplesmente o conhecimento técnico de alguma área. Há um clima de intimidade entre escritor, papel, matéria, espírito e leitor. Acredito que este universo é a chave da literatura atual, um escape da confusa realidade à qual estamos expostos, um grande exemplo disto é Paulo Coelho, que vem conquistando legiões de fãs no mundo inteiro.

JC - Você considera existir alguma incompatibilidade entre a sua atividade profissional e a literatura?

Pontes - Não encontro distâncias entre a área de engenharia eletrônica e a literatura, em ambos os casos o fator criatividade é primaz. O único detalhe realmente palpável é o baixo exercício do idioma nas áreas de exatas. Contudo, se o prazer pela língua já lhe for nato, não será uma determinada formação que virá a tolhê-la. Outro fator é que ultimamente os profissionais específicos precisam cada vez mais ter visões abrangentes, pois os "clientes" (nomenclatura genérica) tendem a tornar-se exigentes, assim o diferencial é ser eclético.

JC - Se tivesse de optar entre o reconhecimento e elogio da crítica e o de um simples leitor, qual preferiria?

Pontes - Não escrevo pela crítica, meu alvo é o leitor. Tento embeber meus textos de emoção, o objetivo é resgatar as mais inusitadas recordações dos leitores, para que possam associar vida às personagens, enquanto se emocionam com suas próprias lembranças. Alguém já disse que escrever é um ato solitário, e, permita-me dizer, solidário. Porque toda idéia é escrita para o outro. É isso que torna mágica essa profissão: o ato de transmitir idéias, conhecimentos, sensações, amor, sonhos, com um objetivo muito simples: registrar que o ser humano é muito maior que a notícia que tem de si. Sob encomenda, escrevi para uma leitora do Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado um texto; em sua solicitação ela pedia que uma das personagens fosse um cachorro, assim narrei as memórias de um quarentão, com o foco de seu relacionamento com um cão: Toddy. O interessante é que todos que tiveram um na infância emocionam-se ao ler; saber-se veículo para uma emoção como esta é indescritível prazer.

JC - Você já ganhou algum prêmio literário? O que representa isso para você?

Pontes - Sim, já ganhei alguns. Posso inclusive listá-los. Nacionais: Prêmio Jovem Escritor/89 (crônica) - Academia Literária do Rio Grande do Sul, em 1989. Prêmio Orlando Dantas (poesia) - Academia de Letras de Minas Gerais, em 1993. Prêmio Martins Assumpção (poesia) - Associação Poética do Paraná em 1994. Primeiro Prêmio Cibernético de Poesia Brasileiro (poesia) - GlassofMilk magazine, em 1995 (São Paulo - SP). Portugal e o Mundo (contos) - Grêmio Recreativo e Literário Português em 1997 (Belém - PA). Internacionais: Prêmio Julio Ramires (contos) - Associação Mundial dos Escritores Espânicos (França), em 1997. Prêmio Enzo Passamaniere (contos) - Universidade de Pádova (Itália), em 1998. Prêmio Interamericano de Cultura Portuguesa (infanto-juvenil) - Casa da Cultura, em 1999 (Argentina). Menção Honrosa: Baluarte de Prata (contos) - Associação literária de Lisboa, em 1997. Como já disse, sempre escrevo pra alguém, e, no caso dos concursos, pra uma banca. Como meu tempo é bastante exíguo: 10h de trabalho (Elógica) e a faculdade (AESO) noturna condicionei-me a escrever sob encomenda, assim aprendi a valorizar meu leitor que inicialmente cativei escrevendo contos para o suplemento cultural do DO, recebi cartas, elogios verbais, críticas verbais; porém, o mais interessante é que em todos os casos havia um prazo, um tema e um "cliente", o preço de ver meu texto ser apreciado era atender a estes três senhores.

JC - Quem você imagina que se interessa pelo que você escreve, ou, numa só expressão, quem é o seu leitor?

Pontes - Em seu último diário, a poetisa Florbela Espanca citou: "Quando morrer, é possível que alguém, ao ler estes descosidos monólogos, leia o que sente sem o saber dizer que essa coisa tão rara neste mundo - uma alma - se debruce com um pouco de piedade, um pouco de compreensão, em silêncio, sobre o que eu fui ou o que julguei ser. E realize o que não pude: conhecer-me". Acredito que meu leitor, tal qual Florbela, busca conhecer-se, e através do saudosismo, talvez possa consegui-lo. Por isso tenho apostado no que ficou escrito em sua memória. Afinal, quem somos senão o que sentimos?

JC - A tecnologia ajuda, atrapalha ou lhe é indiferente ao seu trabalho artístico?

Pontes - A tecnologia foi sem dúvidas a alavanca para projetos mais ousados, como, por exemplo, textos interativos que escrevi na internet durante três meses, em 1996. O projeto interativo: Sherazade, causou-me espanto pois uma média de 2 mil pessoas votavam a continuidade das estórias postas no ar, que alcançou nível internacional quando o jornal português "Notícias de Lisboa", em forma de patrocínio, colocou-o num link da primeira página de seu número virtual. Hoje, está sendo estabelecida uma nova forma de comunicação, que prescinde em respeitar um leitor mais exigente, com exíguo tempo, solitário, que prefere grupos virtuais, mas que nem por isso é menos afável, e atingi-lo somente possível é através da ferramenta: Internet; por conseqüência, um mundo com tamanha possibilidade de tornar-se seco, e inóspito, pelo simples cheiro de tecnologia ganha ares de pura arte.

JC - A literatura do mundo antigo esteve a serviço dos deuses, a da Idade Média, da Igreja, a da era moderna do racionalismo, a deste século que se acaba da crise do homem. Como pensa que será a do futuro que você representa?

Pontes - Acredito que esta literatura que fazemos hoje (perdoem a ousadia de incluir-me) busca restituir ao homem algumas perdas que o vertiginoso crescimento tecnológico tende a quebrar, como o respeito a privacidade do outro, a cumplicidade e o enaltecimento do talento natural que temos em sermos felizes.

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Jornal do Commercio
Recife -
10.01.2000
Segunda-feira