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POESIA
A dupla vida (morte) de Ana C.

por SCHNEIDER CARPEGGIANI

Nos últimos dois anos, foi iniciado o relançamento da obra de Ana Cristina César, ou Ana C., nome ficcionalizado, que substitui a mulher pela poeta marginal. O primeiro foi A Teus Pés, seu único livro lançado em vida por uma editora. Depois foi a vez de Inéditos e Dispersos, reunião de seus escritos feita por Armando Freitas Filho. E agora, quase simultaneamente, chegam às livrarias duas obras bastante curiosas da poeta: Ana C. - Correspondência Incompleta, marcada por epístolas a quatro amigas; e Crítica e Tradução, compreendendo os livros Literatura Não é Documento, Escritos do Rio e Escritos da Inglaterra.

Correspondência Incompleta mostra Ana Cristina César, durante o tempo em que realizou o seu mestrado em tradução na Inglaterra, enviando cartas para Clara Alvim, Maria Cecilia Londres, Ana Candida Perez e Heloisa Buarque de Holanda - essa última a primeira pessoa que publicou a poeta, na célebre coletânea 26 Poetas Hoje. Quem procura maiores informações sobre a sua vida pessoal ou mesmo as prováveis razões do seu suicídio vai se decepcionar. O grande mérito da obra é mostrar a exímia missivista que ela foi, com um estilo tão apurado que, em alguns momentos, parece que estamos lendo algumas das cartas fictícias presentes em A Teus Pés.

"Nós centramos esse livro na época em que ela passou na Inglaterra, porque foi o período em que Ana mais tinha a necessidade de se corresponder com as pessoas. Pelo teor dos textos, é possível perceber o quanto ela era carente e estava sempre precisando chamar a atenção das pessoas. Em muitos momentos, é claramente notável que, apesar das interlocutoras serem diferentes, ela estava sempre centrando a conversa nela mesma", comentou Heloisa Buarque de Holanda, em entrevista por telefone. Heloisa, inclusive, junto com Armando Freitas Filho foi a organizadora do livro.

O interessante é que tanto ela quanto Armando, com os nomes Mary e Gil, foram as personagens de Correspondência Completa, uma carta fictícia, que aparece em A Teus Pés. Mais uma razão para se confundir Ana C. com Ana Cristina César. "Essa confusão entre a mulher e a poeta era algo que a deixava extremamente perturbada. Várias vezes, ela chegou a reclamar que a sua obra nunca era devidamente avaliada. As pessoas só se concentravam na sua pessoa e em sua beleza", afirmou Ítalo Moriconi Jr, autor da biografia de Ana Cristina César, O Sangue de uma Poeta.

Enquanto Correspondência Completa tem Ana Cristina César trocando correspondência, Crítica e Tradução mostra Ana C. escrevendo e falando sobre literatura o tempo todo. O livro é indispensável para quem quer entender um pouco do cenário literário brasileiro das últimas décadas, ainda por cima sendo comentado por alguém que foi personagem da época. Além disso, contém ainda um pouco do seu trabalho como tradutora, centrado na obra de Dylan Thomas, Sylvia Plath, Marianne Moore, Anthony Barnett e Katherine Mansfield, grandes influências em sua poesia.

A POETA OU A MULHER? - Essa verdadeira enxurrada de lançamentos fez a imprensa brasileira voltar a analisar a obra da escritora com os velhos erros de confundir Ana Cristina César com Ana C. Na revista Bravo, o crítico literário e poeta Bruno Tolentino escreveu: "O véu de suspiros que a deusa da Zona Sul chamou de caderno terapêutico é de outra ordem: é de uma inconseqüência que se escora mal até mesmo na noção carioca de inconclusão". O jornalista e biógrafo José Castello a definiu apenas uma moça bonita e fútil, que escreveu poemas baseados em escritores cerebrais.

Ítalo Moriconi Jr., em Sangue de uma Poeta, afirmou a importância da sua obra e pessoa como o marco de uma época: "Todos estavam vivendo sua crise dos trinta anos (em 82/83) e não eram poucos os que passavam por depressões ou revoluções interiores, motivadas por razões que iam desde a necessidade de finalmente batalhar a sério para assumir uma carreira profissional estável até a urgência de definitivamente fixar-se na hetero ou na homossexualidade, depois do ideal orgiástico e bissexual dos anos 70 que, para muitos, apenas adiara essa questão enquanto opção trágica e inescapável. Ao `conseguir matar-se' Ana estava sendo um pouco antena da raça, sua raça, nossa raça".

Para a maioria da imprensa, ela foi tanto a deusa da Zona Sul quanto a moça bonita e fútil, que deixou uma obra importantíssima na literatura brasileira contemporânea. É fato mais que comprovado: não existe meio-termo ao se avaliar a obra da poeta ou mesmo é impossível, ao se comentar os seus poemas, não misturar sua persona literária com a mulher real. Mas ela é totalmente culpada disso, tão culpada que não suportando as confusões e o rastro de suspiros - como definiu Tolentino - da sua beleza, se viu obrigada a acabar com tudo em outubro de 83.

O problema central em Ana C. é que todo mundo quis desvendar o que existia por trás das cartas falsas e dos diários presentes em A Teus Pés, sem realmente avaliar a fundo a importância da sua obra para a poesia brasileira. Na primeira edição desse livro, inclusive, Caio Fernando Abreu afirma que ela revela sua intimidade, "intimidade essa, algumas vezes, indiscreta, mas sempre elegantíssima".

Ao escrever seus diários e cartas, Ana C. sabia muito bem que o literário transcende o pessoal. Para determinar isso, ela se escorava na teoria de Mário de Andrade, que distingue a intenção pessoal da intenção estética. "Por exemplo, intenção pessoal eu posso ter tido quinhentas, acho que não interessa de jeito nenhum. Agora, intenção estética é alguma coisa que se revela no livro. Você pode ter pensado antes, ou pode ter pensado depois", comentou a poeta em uma palestra transcrita integralmente em Crítica e Tradução.

Ana C. sabia muito bem dessa distinção, mas, provavelmente, o que ela queria, era confundir o leitor com o tom mostrar/esconder dos seus textos, da mesma forma que confundia seus poemas com trechos de outros escritores. Uma afirmação sua dizia que a chave para compreender a poesia estava, não na vida, mas no índice onomástico, presente em A Teus Pés. Mas essa chave, muitas vezes, é falha, pois como a própria citou nessa mesma palestra: "quando você lê um texto, você pode cair que nem um patinho".

Talvez Ana C. não tenha sido tão importante como muitos queriam. Mas foi uma poeta bastante regular, cuja produção não ficou datada como a de muitos dos seus companheiros de `marginalidade'. Sua obra também tem o mérito de conseguir alcançar dois tipos distintos de leitor: aquele culto, que se sente seduzido pelas suas recriações de grandes escritores, como Baudelaire, T.S. Eliot e Elizabeth Bishop; ou aqueles que simplesmente se emocionam com os seus versos. Se, em vez de apenas querer fundir Ana C. com Ana Cristina César, fosse possível fundir esses dois tipos de leitores em um só, seria perfeito.

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Jornal do Commercio
Recife -
10.01.2000
Segunda-feira