HISTÓRIA DA LITERATURA
Poesia marginal e
pós-modernismopor ANA
CAROLINA CARNEIRO LEÃO
Em 1955, Allen Ginsberg encenava nos
recitais da Six Gallery, em Nova York, o poema
"Uivo", e com ele inaugurava um novo panorama
poético para a literatura da língua inglesa,
caracterizado por um descentramento em torno da
influência de escritores como Dante, Shakespeare e
Goethe, e por uma excursão para fora desse cânone
literário tradicional. Allen Ginsberg e sua beat
generation foram, além de um fenômeno juvenil
determinante para as manifestações de contracultura que
surgiriam a partir da década de 60, um marco na
literatura contemporânea.
"Uivo", embora tenha trazido
em sua essência alguns elementos de uma poesia de
vanguarda (conceito que se encontra no âmbito da arte
moderna), como a ruptura com a estrutura e a influência
literária dominantes, está inserido no contexto de uma
cultura pós-moderna; sobretudo quando faz da poesia um
espetáculo diário, assim como propunha Andy Warhol e
sua pop art. O discurso romântico que inaugurou a
literatura da modernidade, centrado no
"sujeito" e na rebelião individual de cada
escritor, é substituído pela performance do grupo.
Ainda o escritor marginal, rebelde. Mas quem fala não é
apenas a voz poética de Ginsberg ou Ferlinghetti. Quem
fala é toda a geração beat.
A literatura brasileira teve, com a
geração de poetas rotulada "marginal", a sua
própria beat generation. Sem Rota 66. A viagem interior
se fixava em um ponto qualquer do Brasil: Rio de Janeiro,
São Paulo. E o único deserto que se tinha era o
"vazio cultural" instaurado pela repressão e
censura do regime militar. Surgidos na década de 70, os
escritores dessa fase estabeleceram uma ligação com a
linguagem proposta pelos beatnik 20 anos antes, seja na
adoção da contracultura como estilo de vida ou no
rompimento das fronteiras entre arte e vida cotidiana. Se
na geração beat há um descentramento com relação ao
cânone literário europeu, na "poesia
marginal" esse descentramento será manifestado no
abandono da temática do nacional que sempre marcara a
literatura brasileira desde a época do Modernismo. Da
mesma forma que os escritores beat são performáticos,
os "marginais" adotam, também, a poesia como
performance. Assim como em "Uivo", de Allen
Ginsberg, há uma multiplicidade de discursos resultantes
de recortes textuais, citações, metalinguagem e
referências a personagens e passagens da beat
generation, o mesmo se dará com a poesia de Ana Cristina
César, Cacaso, Chacal, Chico Alvim, Eudoro Augusto e
Geraldo Carneiro.
A década de 70 se caracteriza pela
produção de corporações artísticas independentes: a
"poesia marginal", assim definida por ser
difundida através de publicações alternativas como
Verbo Encantado e Malasartes; o cinema Super-8; o teatro
experimental de Asdrúbal Trouxe o Trombone; grupos
mambembe de rock. Todos funcionavam como uma saída para
a produção artística da época cujos projetos
culturais eram, em sua maioria, financiados pelo Governo
Federal. Filmes como "Tenda dos Milagres" e
"Dona Flor e seus Dois Maridos" e espetáculos
teatrais encenados com o aval do regime militar passaram
a compor o quadro artístico da época, tão distante dos
anos "subversivos" do Cinema Novo e do Teatro
Oficina. A arte das vanguardas, do Centro Popular de
Cultura e do Tropicalismo foi substituída por
expressões artísticas produzidas pela política
governamental, a qual passou a manipular os eventos
culturais fundamentando-se na questão do nacional
popular; que, anteriormente, havia sido a base do
discurso e dos projetos revolucionários da esquerda
brasileira. A poesia da geração anos 70, nascida no
ápice da indústria cultural e da modernização
brasileiras, procurará, portanto, outras
identificações literárias. Do rock n' roll à poesia
beat, de Walt Whitman a Dylan Thomas, de haicais à
cultura de massa. Sui generis, o repertório poético
desses escritores não limitará a poesia apenas à
literatura; mas a levará, também, à música popular,
ao teatro experimental, aos shows de rock, às
performances nas universidades.
Templos da "poesia marginal",
as Universidades (principalmente a UFRJ), assim como na
beat generation, foram o palco de representação de uma
nova forma de ensinar, ler e consumir literatura
resultantes da própria repressão ao Movimento
Estudantil e da Reforma Universitária. A Universidade
acabou, nos anos 70, por controlar as associações
estudantis em represália as manifestações contra o
regime militar. O materialismo histórico dos estudos
marxistas passaram a ser obscurecidos pelos estudos
pós-estruturalistas de Foucault. Somado a essa mudança
curricular tem-se o boom da psicanálise, que virou mania
nacional no meio artístico da época, e as seduções da
cultura de massa. Resultado: "desbunde". Assim
ficou, também, conhecida a "geração
marginal", a "geração do desbunde". Se a
modernidade é caracterizada por um devir incessante, a
poesia pós-moderna é voltada à momentaneidade. Por
isso, a adoção do "desbunde", da loucura como
estilo de vida. Os escritores conhecidos como
"marginais" fizeram da literatura um modo de
viver. Seja na dicção pop de seus textos, nos poemas
"piada-minuto" de Chacal e Ana Cristina César
ou nas performances de seus recitais.
Se a modernidade era caracterizada por
uma transformação cíclica que buscaria sempre o novo;
a poesia da pós-modernidade se satisfaz buscando o
passado, no pastiche, na paródia. A intenção dos
escritores desta geração não é o make-it-new
modernista de Ezra Pound que buscou através da colagens
de diversos textos literários a criação de uma
linguagem heterogênea mas crítica e nova. As colagens
da "poesia marginal" procuram a ironia, a
desconstrução de velhos mitos literários, políticos e
culturais e o flerte com os meios de comunicação de
massa. Na "poesia marginal" a interxtualidade
é pop. Nos textos, fragmentos e meta-poemas de Ana
Cristina César, por exemplo, ela surge nas citações
sobre a própria geração da qual ela faz parte, e em
intertextos entrecortados de alusões à poética de
escritores como Emily Dickinson, Sylvia Plath ou
Baudelaire e citações de canções e cantores da
música pop.
A "poesia marginal" é feita
de descobertas. A descoberta de que os velhos discursos
políticos que fizeram parte dos projetos culturais da
esquerda não mais funcionavam nos anos 70. Surge,
então, uma nova identificação literária que poderia
ser anti-literária. Leia-se: irônica, instantânea,
cosmopolita ou tudo mais que a literatura brasileira não
apresentava como dominante neste período. A descoberta
da contracultura, da psicanálise e da poesia como
performances diórias. A descoberta de que o texto, ou o
ato de escrever poesia, pode ser colocado à frente de
qualquer compromisso com projetos políticos. A
descoberta de que a poesia é uma descoberta que não
precisa seguir, necessariamente, uma transformação que
traga sempre o novo.
* Carolina Carneiro Leão é
mestranda em Comunicação pela UFPE
-----------------------------------------------------------------------