HISTÓRIA
O que vai acontecer nos
próximos 25 anospor
MARCOS GUEDES DE OLIVEIRA*
Aldous Huxley ficou mundialmente
conhecido por sua utopia pessimista "Admirável
Mundo Novo" acerca de um futuro mundo dominado pela
engenharia genética e o autoritarismo. Como Orwell,
Huxley escreveu para um mundo marcado pelo totalitarismo
e seu pessimismo deve ser visto mais como um alerta do
que uma previsão. Pois bem, caiu em minhas mãos um
ensaio que Huxley escreveu anos antes do início da
Segunda Guerra Mundial chamado "Os próximos 25
anos". Nele, após perguntar-se sobre qual
ocorrência chamaria a atenção dos jornalistas em 25
anos, ou seja em 1960, ele faz uma declaração de
esperança: seja o que for que ocorra neste intervalo, o
jornalista não terá que escrever sobre guerras.
Lendo este ensaio, 40 anos depois de
1960 e 65 anos depois de ter sido escrito, Huxley parece
completamente ingênuo. Lembrei-me de otimistas e
pessimistas que conheço e conheci e considerei o quanto
estamos todos sempre a cometer erros, mesmo quando
tentamos sugerir tendências em um curto período de
tempo, muitas vezes com a arrogância do rei que matou a
galinha dos ovos de ouro para conseguir o tesouro
escondido em suas vísceras.
Em meio às preocupações cotidianas
que vão da compra de pão e leite na venda da esquina,
da garantia de um lugar em um dos luxuosos restaurantes
do mundo para comemorar o ano novo, até a agonizante
dúvida se os computadores do mundo perderão sua
sanidade no primeiro segundo do ano 2000, muitos, nesta
virada de século e de milênio, estarão pondo uma
pergunta semelhante. Qual será a situação do planeta
em 25 anos? Como estará vivendo o brasileiro no meio do
próximo século? Uma boa maneira de responder a esta
questão é olhando o que ocorreu nos últimos cem anos.
Qual o aspecto mais relevante da
história no século XX? Qual sua relação com o Brasil?
Tanto na Europa quanto na Ásia, o século foi marcado
por uma sucessão de guerras que ceifaram nestes cem anos
mais de cem milhões de vidas. Nunca morreram tantos em
nome de ideologias e de regimes totalitários que
prometiam paz e prosperidade, em nome da supremacia de
superpotências e da vaidade de um punhado de falsos
líderes. A Europa, principalmente a Inglaterra, perdeu
seu papel de principal líder mundial para os Estados
Unidos e ainda não aprendeu, depois de duas guerras
mundiais, que o melhor caminho para a manutenção e
ampliação da influência no contexto internacional é a
coperação e a integração regional.
Os problemas sociais que antes eram
associados ao chamado terceiro mundo se tornaram globais.
Crianças abandonadas e cheirando cola, miséria,
desemprego e subemprego, violência e violações brutais
dos direitos humanos encontram-se em toda parte do
planeta e variam apenas em quantidade. Um dia alguém
entra numa escola dos EUA atirando e matando, no dia
seguinte alguém entrou em um cinema no Brasil atirando e
matando, na semana seguinte alguém entra numa Igreja na
Inglaterra com uma espada, matando. Os problemas são
globais, mas os governos não conseguem olhar além de
seus interesses imediatos, e as elites mundiais -por
trás de suas pequenas fortalezas - pensam apenas em
acumular e produzir mais capital. As organizações
criadas para estabelecer regras mundiais, como a ONU e a
OMC, parecem cada vez mais prisioneiras das
superpotências e das grandes coorporações
multinacionais.
Nunca a ciencia foi capaz de produzir
tantas maravilhas, e jamais o futuro da humanidade esteve
tão ameaçado. Faz 20 anos havia apenas um punhado de
bilionários no mundo. Hoje, a riqueza de alguns homens
chega a cem bilhões de dólares e, logo, pelo menos o
mais rico deles será mais rico que a quase totalidade
dos países do mundo. Mais ainda, que algumas das dez
principais economias, incluindo possivelmente o Brasil.
Esta ciência e riqueza que deveria beneficiar a todos
tem sido cada vez mais privatizada e usada para manipular
a natureza em favor do lucro. As impressões genéticas e
as plantas medicinais são patenteadas gratuitamente e
com algumas modificações genéticas revendidas a preço
de ouro aqueles cujos antepassados produziram o saber
sobre a flora e fauna.
O século provocou formidáveis
mudanças no Brasil. De uma sociedade rural, exportadora
de café, o país passou por uma grande revolução
industrial e urbana que colocou a economia brasileira
entre as dez maiores do planeta. O objetivo de
desenvolvimento e de integrar o Brasil em torno de uma
economia e cultura modernas foi, consideravelmente,
atingido. Apesar disto, o país continuou dividido entre
uma minoria de ricos e uma grande maioria que pouco
usufruiu do crescimento econômico. A violência, as
favelas, as crianças abandonadas, os sem terra e os sem
teto, a corrução viraram temas chaves de problemas
graves e não resolvidos. Ao contrário do países mais
avançados, o Brasil tem sido incapaz de manter uma
dinâmica de crescimento e distribição de riquezas a
ponto que produza tecnologia, crie oportunidades para um
número crescente de pessoas e possa atrair considerável
número de migrantes.
Faz apenas dez anos que os arautos do
mundo pós-guerra fria anunciavam o início do reino da
democracia e do desenvolvimento econômico por todo o
planeta, o "fim da historia". Hoje, após a
guerra da ex-Iugoslávia e da guerra da Chechenia o mundo
parece mais uma vez dividido entre interesses de grandes
potências que utilizam as organizações mundiais como
escudo para exibirem e imporem seu poderio. Assim como a
Europa não atingiu uma situação de paz e está hoje
ameaçada mais uma vez pelas guerras étnicas e pelo
latente conflito entre as superpotências nucleares, o
Brasil continua à espera de soluções definitivas para
seus crônicos problemas sociais.
A América Latina viveu um século de
guerras de independência, guerras contra elites
corrutas, autoritárias e submissas aos senhores do mundo
e de massacres de camponeses, trabalhadores, pobres,
jovens e intelectuais que ousaram lutar por justiça. Um
quadro que tem mudado e tem-se inclinado - no final do
século XX - na direção de uma região onde a
diplomacia desempenha papel central na busca de
soluções para as crises, e as guerras internas. O
autoritarismo tem sido substituído por ainda frágeis
experiências democráticas. Velhas rivalidades estão
sendo, com projetos do tipo Mercosul, substituídas pelo
interesse comum no comércio, na língua e na cultura da
região. A aproximação tambem se da no nível de
segurança e da construção de uma zona não nuclear e
de confiança mútua.
Iniciativas políticas, como as do
grupo do Rio, fortaleceram a idéia de uma postura
política comum entre os países latino-americanos. As
possibilidades de consolidação de uma zona de paz
associada a integração regional nunca foi tão
favorável e desejável. Em um momento no qual a Europa
continua presa a velhas rivalidades e as possibilidades
de que a futura guerra européia seja nuclear crescem, o
Brasil vive uma situação favorável a consolidação de
um processo de integração regional promissor, que crie
as condições para que os graves problemas sociais que
atingem o país, e toda a América Latina, possam ser
solucionados através da cooperação e do trabalho
conjunto.
Não podemos esquecer a lição de
Huxley. Tudo indica que a divisão entre bilionários e
excluídos, as guerras e a disseminação de armas
nucleares vão continuar. Quando os leitores do mais
importante jornal capitalista do mundo, o Financial
Times, elegem Karl Marx como o intelectual do milênio é
por que a luta de classes pode voltar, e agora no nível
global. Autor algum, contudo, deve se deixar tomar pelo
pessimismo. Se o seculo XX representou a modernização
econômica do Brasil, quiçá que o início do próximo
século represente não apenas a consolidação da
integração regional, mas o início de soluções
duradoras para nossos críticos problemas sociais.
* Marcos Guedes de Oliveira é
Professor da UFPE e Diretor do Centro de Estudos
Brasileiros da Universidade de Middlesex, em Londres
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