A VIDA CRÔNICA
O homem à margem da
cidadepor JOAQUIM
CESÁRIO DE MELLO*
O ano que se inicia é igual ao que
passou, já que os relógios não distinguem os dias:
todos têm as mesmas horas e os mesmos minutos. O que
muda é a seqüência dos números nas semanas dos
calendários e um ou outro amigo que se foi, um ou outro
que ficou. Se um dia não é mais que duas voltas de um
ponteiro - quantas voltas deve ter uma vida inteira?
Poderia com tais idéias ocupar a mente, mas nelas não
pensava. A uma mente despida de pensamentos, sobra-lhe o
interior oco de palavras, o indivisível do ser. Cada
homem, todo ele, dentro de si, é primariamente um homem
baldio, pois o desencontro vem sempre muito antes que
qualquer encontro. O rosto de alguém é alguém que não
se conhece.
A madrugada é a tarde da noite e a
ressaca do dia. Podia-se ainda ouvir o frágil rebentar
de longínquos e atrasados fogos que rareantes explodiam
por detrás dos edifícios que apontavam à lua, ao
invés de arranharem o céu. O mar estava quase distante.
Preferia assim a quietude companheira dos rios, talvez
por temer oxidar de salinidades e agitos. Alguns poucos
eram como ele: desconhecidos entre desconhecidos, melhor
do que em meio a conhecidos. Doía-se menos. Um clima de
cumplicidade irreconhecida se misturavaao fino frio do
fim da noite. Sorveu em um só gole todo o conhaque que
continha o copo. A quentura dominou-lhe repentinamente a
alma com a leveza de uma transitória embriaguez, talvez
pelo estômago vazio, fazia horas que trocara o
corriqueiro jantar por um sanduíche de queijo e
mortadela. Um tanto tonto, porém insuficientemente,
pediu a conta e pagou, sem antes solicitar outra dose.
Caminhava agora pelas ruas com a
inabalável certeza de que chegaria, afinal chegar era o
prazer de depois partir. Pisava sem pressa o chão das
calçadas e os asfaltos da cidade que era sua. Nela
nasceu, cresceu e haverá um dia em que nela se
enterraria. Quando por baixo dela viver, outros a
pisarão com o mesmo cuidado com que pisa sua infância,
seu passado, sua história... Os pés do adulto que o
corpo leva trilham as pegadas do menino insone e traído.
Várias vezes passou ele por aquelas ruas e pontes, como
várias vezes passará, até que passar não lhe seja
mais nenhuma obrigação.
Da cidade herdara o prenome e
sobrenomes, bem como os seus desígnios e destinos. Seu
nome o revestia de ser exatamente o que não era: o
desejo de quem o batizou primeiro do que um padre. O
batismo de um nome é acima de tudo o legado de um sonho,
e se o filho é o espólio silencioso de um sonho, o nome
deste é sempre a frustração de um outro. Fadado ao
insucesso, restava-lhe a vida inteira para lembrar que ao
nascer já não era quem nunca fora. Chamava-se pelo nome
do avô materno a quem jamais conhecera. Uma mãe não
devia, afirmava consigo e tomado pelo pensamento, parir
um pai, pois pais também se fazem de rupturas e cortes.
Pudesse adotar números em vez de letras, adotaria o um e
o sete. Setenta e um ou dezessete, pouco importa, melhor
assim seria do que já era.
Ali ia o homem margeando o rio que
margeava a cidade que margeava sua vida. No limiar dos
seus limites amanhecia o amanhecer, embora ainda
estivesse um pouco escuro e se iluminasse das luzes dos
postes e da matina. A princípio impercebeu que rumo ou
rotaseguia, tão somente continuava como se o continuar
fosse a tarefa dos que ficaram. Quando por si se deu,
logo compreendeu que o longo muro que o seguia feito
cachorro sem dono e que se findava em um largo e elevado
portão de ferro era todo o cemitério. Plantado como um
poste se planta, aguardou o dia com suas claridades e
conseqüências - acaso passasse alguém no adiantado
daquela hora, imaginaria ser ele uma assombração.
Quando abriram o pesado portão não se importou com o
susto do zelador, continuou. Consigo não trazia nada
além da roupa do corpo e suas lembranças, lembranças
estas que depositaria, que nem flores, no jazigo onde
estavam os nomes da sua família.
Se me perguntarem se ele voltou ou se
ele ficou, não saberei neste instante responder. O que
apenas sei foi que ele não escutou, ou não quis ouvir,
quando o zelador educada e timidamente pronunciou um
distante, como distante é o mar: - Feliz ano novo.
* Joaquim Cesário de Mello é
escritor e psicólogo.
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