
DISCOS
O primeiro
canto do gênio solitário do blues por José Teles
Robert Johnson morreu, em
1938, sem conhecer a fama, logo ele que, boatava-se,
havia feito um pacto com o capeta, numa encruzilhada do
Mississipi. O produtor John Hammond o considerava o maior
cantor de blues primitivo de todos os tempos. Quando
estava organizando sua célebre série de concertos
Spirituals to Swing, o primeiro a levar artistas negros
ao Carnegie Hall, Hammond (que era branco e da abonada
família dos Vanderbilt) viajou até o Sul à procura de
Robert Johnson, a fim de contratá-lo e comprar suas
gravações para lançá-las pela Columbia, gravadora de
que era produtor. Chegou muito tarde, Johnson já havia
morrido, enquanto a lenda começava a nascer.
O bluesman (ou blueseiro,
no nosso idioma) estava com 26 anos quando começou a
registrar sua pequena (29 blues) mas imensamente seminal
obra. Eram apenas ele, seu violão,e o produtor Don Law,
num estúdio tosco, em Robsonville, Mississipi. Foram
cinco sessões. Três delas em novembro de 1936, e as
demais em junho de 1937. Ele ganhou algumas centenas de
dólares, na época uma fortuna para um músico negro no
Sul dos EUA.
As gravações foram
lançadas inicialmente pelos chamados race records, ou
seja, pequenos selos dirigidos à comunidade negra, como
o Vocalion, o Perfect. Somente em 1961, a música de
Robert Johnson alcançou o grande público, quando a
Columbia lançou o álbum King of the Delta Blues
Singers, que acaba de sair aqui pela Sony.
O impacto produzido por
este disco foi parecido com o acontecido no Brasil quando
se escutou pela primeira vez o violão de João Gilberto.
O violão de Robert Johnson era diferente de qualquer
coisa que se ouviu até então no blues. Enquanto
cantava, ele ia mudando de andamento, atravessando o
ritmo a cada estrofe, fazendo harmonia e percussão ao
mesmo tempo.
Suas letras também eram
bastante originais (hoje fazem parte do currículo de
Literatura da Universidade da Virgínia). Os temas eram
idênticos ao de tantos outros blues, em que o sofrimento
e desilusões amorosas são a tônica. Porém Johnson ia
mais longe: Early this morning when you knocked
upon my door/I said hello Satan, I believe its time
to go/Me and the devil was walking side by side/ Im
going to beat my woman until I get satisfied (Me
and the devil blues).
Foi o disco certo no
momento certo. No inicio dos anos 60, com o crescimento
do Movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos, o
blues recebeu seu devido reconhecimento. King of the
Delta Blues saiu fazendo amigos e influenciando pessoas
nos EUA e Europa, mais precisamente na Inglaterra. Em
1963, não havia banda de blues inglesa que não tocasse
pelo menos uma composição de Robert Johnson.
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