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RESENHA
A poesia iluminada de Lucila e Alberto

por Marcos Cordeiro

No imenso espaço poético do Recife dois poemas cintilam sobre nós: Yacala e Imilce, respectivamente de Alberto da Cunha Melo e Lucila Nogueira.

Qual uma estrela, dotado de luz própria, Yacala é o astro maior da constelação poética albertiana. Refletindo no mangue humano e nordestino do Recife, Yacala/Severino/Eu/Você, hoje, já possui alguns dos mais consagrados mimos do capitalismo atual: computadores e walkman. Ele não é mais o pobre retirante Severino, aquele nosso conhecido de sandália de rabicho, chapéu de palha e cigarro de fumo de Arapiraca do sertão de antigamente. Do sertão de Vidas Secas e de Morte e Vida Severina. Ele, agora, pode ser o retirante sofisticado de sandálias Rieder, cigarros de filtro e outras drogas. Não resta dúvida que Yacala é a medida da evolução da miséria no Nordeste e no Brasil. Além da fome como causa mortis tradicional, agora, temos os estupros homicidas e os extermínios indiscriminados e institucionalizados. Yacala é o retirante de si mesmo, da sina de ser brasileiro do Nordeste, da pré-determinação política da miséria e da violência nordestina e brasileira, estrangeiro numa terra hostil e desumana. Imenso campo de pólvora e de “concentração” de rendas para 10% e de miséria e violência para a maioria do pobre povo brasileiro. Sua casa, palafita ou cela, pode ser o barraco de zinco ou papelão ou a casa de subúrbio ou centro de qualquer uma das cidades violentas do violento Brasil.

Se em vez de um pobre de Cristo brasileiro, irmão das almas da poeira, eu fosse um político brasileiro, após ler Yacala, eu me acanharia de sê-lo e, envergonhado, renunciaria ao mandato doado por inocentes e miseráveis eleitores manipulados pela miséria e pelas mídias. Felizmente não sou.

A minha porção “sertão” me identifica, também com o cão Sertão, e a sua sina. Vagalume a iluminar a nossa escuridão material e mental, bendito Alberto pelo que diz e pelo que é: poeta. A sua visão do homem nordestino, dentro de um sereno holocausto oficial, quase sem rebeldia, a um martírio institucionalizado pela República do Sul Maravilha me faz lamentar o insucesso da Confederação do Equador e a falta que ainda nos faz um Padre Roma ou alguns poetas/revolucionários da estirpe de Frei Caneca e Natividade Saldanha, entre outros heróis nordestinos de outrora e de sempre.

Como um vulcão em constante erupção, Imilce coloca mais uma vez, entre outros, desde os fulgores de Almenara, Peito Aberto, Quasar, A Dama de Alicante, O Livro dos Desencantos, Ainadamar e Ilaiana, no topo da criatividade poética de Pernambuco e do Nordeste e sua autoria: Lucila Nogueira. Lá do alto da poesia, na constelação dos poetas de primeira magnitude, como o seu nome indica, ela “lucila” soberanamente única. “Romântica e fatal, livre e sombria/ cabeça, coração, nervos e sexo/ sou estrela cadente no vazio/ esqueçam de me amar, homens concretos.”

Mesmo pedindo o impossível, quem poderia deixar de amar os versos ou pulsações de uma estrela, quando, mais adiante, ela desdiz em parte tal melancolia e se devolve inteira e plena: “Para não sepultar minha alegria/ devo ressuscitar a cada instante.”

A volúpia da sua linguagem é a força da sua lírica incontida e envolvente, apaixonada pela vida. Amor, amor e amor ainda em tom maior.

A dicção poética de Lucila, como não poderia deixar de ser, difere totalmente da de Alberto. São antípodas de um mesmo e grande universo, o da poesia, eterna e absoluta. Se um testemunha a morte quase sem salvação possível, o outro sugere a solução: o Amor, o imenso Amor, arma maior da poesia e da existência. Se um indica a morte da matéria, do efêmero, do transitório, o outro poema indica a salvação pelo amor, verbo intransitivo do espírito, da alma, do não perecível, do não transitório, do eterno.”Meu corpo/ é um braseiro de perfumes/ meus olhos são/ estrelas de esmeralda/ meus lábios/ são o Etna e o Vesúvio/ meus seios/ são cordilheiras de prata.”

Sem a imposição de cânones ou pré-conceitos, qualquer um que se digne a viajar nos territórios desses dois poemas, estará participando de uma grande aventura, a aventura da vida. A aventura do espírito pelo universo.

A diversidade formal entre os dois poemas são tessituras e partituras específicas da lírica atual e eterna da poesia. O amor do e ao homem pelo próprio homem: “E se inda houver amor eu me apresento/ e me entrego ao príncipe do oceano./ E se inda houver amor eu me arrebento/ feliz, atravessada de esperança/ e mesmo lacerada inda assim tento/ quebrar com meu amor todas as lanças.// E se inda houver amor terei alento/ para agüentar o inútil destes anos.// E se inda houver amor, ah, me consente/ ser pasto da tua chama, astro medonho./ E se inda houver amor, eu simplesmente/ apago essa ferida do meu sono.”

Quanto a Alberto, ao ordenhar o seio das nuvens e do seu imenso humanismo, mais uma vez nos ilumina com a lâmina do seu poema:

“Porque a verdade quando inútil/ alarga certas cicatrizes/ e não é cardápio na mesa/ desforrada dos infelizes.”

E se alguma dúvida persiste, ao falar sobre “Sertão”, ele retorna com: “O cão, pelas aves rasgado,/ já nasceu desaparecido/ e nenhuma cadela guarda/ as sementes do seu gemido.”

Para culminar com: “Yacala chega a solidão/ maior, não do anjo caído,/ mas a da impossibilidade/ suprema de ser socorrido.”

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Jornal do Commercio
Recife - 03.07.2000
Segunda-feira