RESENHA II
O
humanismo e a luz mais lírica Se a lírica de Alberto, contando
os passos da paixão de Yacala nos seus três
desmaios/quedas, canta a história do homem nordestino e
universal rumo ao infinito da terra e da vida, embora
não mais, insisto, com a roupagem e as metas do Severino
de João Cabral na sua imigração para o Recife em busca
da sobrevida material com um a todo sem-nada nordestino,
a lírica de Lucila canta a história do homem universal
e nordestino rumo ao amor absoluto como redenção e em
antítese a Yacala: Recuso-me/ a aceitar toda essa
mágoa/ foi mais/ do que eu podia suportar...// são
colunas de cedro/ minhas pernas/ e arcadas de marfim/
são os meus braços/ retorna aos meus carinhos/
comandante/ vem caminhar/ no fogo sobre as águas.
Neste jogo de contrapontos, ambos nos levam ao mesmo
ponto do universo: à luz. Com a volta de Zacarias como
pescador e o cão Sertão da mesma genealogia de Baleia
de Graciliano Ramos, já é patente o clima cabralino e
de nordestinia de Yacala por essas e outras alusões
explícitas, como: João, o Cabral dos pescadores.
Originário das mesmas nascentes de onde brotaram Morte e
Vida Severina e Vidas Secas, não é em vão que
Zacarias, aquele lá da serra da Costela, limites
da Paraíba de João Cabral e Baleia de Graciliano
Ramos, agora como Sertão, retornem em Yacala. Na
cadência seca do octossílabo (segundo suas próprias
palavras em entrevista), do primeiro quarteto da primeira
retranca (forma fixa descoberta por Alberto, constituída
de um quarteto, com assonâncias no segundo e quarto
versos; um dístico com assonâncias aparelhadas; um
terceto com assonâncias no primeiro e terceiro versos da
estrofe e um dístico final com rimas consonontais) de
Yacala, já se anuncia que a essência do poema trata de
luz e de estrelas. Do homem-luz em busca do seu lugar no
infinito, no absoluto. O lugar de uma estrela/homem, o
lugar de Lúcio e Elsa que são cometas. Se em um o cerne
do seu discurso lírico é a angústia existencial, comum
a todo homem, e no outro o amor absoluto pelo homem, nem
sempre comum a todo homem, não determina que se anulem,
mas antes se completem, evidenciando a essência da
condição humana, ora aquém, ora além do amor e da
dor. Se em Imilce os seres são filhos, pais ou amantes,
em Yacala são cometas, mesmo que se apenas viventes aqui
na terra, aqui no mangue do nosso Recife. Essa graça é
um bem da poesia e da existência espiritual. Em
memorável poema, o meu pai Waldemar Cordeiro diz: Sibonei
minha luz, meu amor, minha vida,/ embora esteja longe em
plano sideral,/ êxul estrela em céu de aurora
tropical,/ paralela a Plutão, grande estrela perdida.//
Um dia, não sei quando, eu rolarei no espaço/ como um
corpo suspenso além dos intermúndios,/ onde Deus é
Senhor de eternos latifúndios,/ domínios cuja lei é a
força do seu braço. O fenômeno poético como
reflexo da vida é a história de cada um e de todos rumo
a luz, rumo ao infinito, a Deus? A qualquer poema são
dadas diversas e múltiplas leituras e dimensões. O
verso tal qual o pentagrama é infinito. Por mais que se
tente decifrá-lo e analisá-lo, nunca será dito tudo
sobre ele. É inesgotável a dimensão do seu espírito e
impossível ser totalmente decifrado.
Se em Oração pelo poema
Alberto ora pelo poema, João Cabral levou esta prática
até às últimas conseqüências: morreu orando. Não
obstante, estrelas devoradoras (Bomba A ou H, a própria
existência, o câncer), em Yacala sinto que há
esperança, porque ao fim de tudo prevalece a Luz, mesmo
que em outros planos ou dimensões. Se em Morte e vida
severina, ao fim, nasce uma criança, em Yacala, após a
queda, os homens renascem estrelas. Em Imilce, poema do
amor absoluto, a sua força é o seu próprio amor pelo
outro e pelo próximo que faz dos personagens heróis,
sem, no entanto, serem mártires como Yacala, Adriana e
Sertão, arquétipos e testemunhas de que, para a maioria
do povo brasileiro, a vida já seja um verdadeiro
martírio.
Contextualizando a
História no seu poema, o mítico e o onírico dão a
medida do clima luciliano ao recriar na História a
história do seu amor sem limites. Vestida de cigana,
fada, rainha ou simplesmente mulher, Lucila exerce a sua
fantasia e o seu supremo mister com uma elaboração
formal que prioriza o decassílabo em versos rimados ou
assonantados partidos ou divididos em duas linhas que
dão a idéia de dois versos independentes, que poderão
ser lidos separadamente. Nesses dois poemas heróis e
mártires se entrelaçam e se completam. Poesia
nordestina e universal da mais alta categoria,
libertária, ela nos encoraja para prosseguir porque ao
fim de tudo prevalece o amor ou a sua essência: a luz.
Benditos Lucila e Alberto./ Se aqui louvo o amor de
Imilce,/ de Yacala eu louvo o peito aberto./ Cantos de
luz, de Orfeu e Berenice.
* Marcos Cordeiro é
pintor e poeta.
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