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Nós queremos paz

Muito oportuna e bem brasileira, a manifestação de rua, iniciada na sexta-feira, 7 de julho, sob o título geral “Basta! Eu quero paz”.

No Recife, foi escolhido um local muito bonito para a concentração. A nova Praça Rio Branco, que tantas celeumas causou, se presta muito a eventos como este, conforme já demonstrara em ocasião anterior, quando concentrou focos de animação juninos. As pessoas geralmente de branco, as velas acesas, nas fotografias de nossa edição do sábado, bastam para confirmar o sucesso da iniciativa. Em outros estados também multidões foram às ruas, levar o seu apoio à proposta contida naquela frase. Em alguns, escolheram locais “perigosos”, focos de violência, como para demonstrar que também neles devem-se reunir pessoas pacatas e que esperam ter o direito de circular em qualquer ponto da sua cidade.

Temos dito, em sucessivos comentários, que o país não suporta mais tanta violência, como a que se vem registrando nos últimos anos, sobretudo a de natureza continuada, diária, em suas principais metrópoles. E também acentuamos mais de uma vez que segurança não é função apenas dos órgãos de repressão, mas da população como um todo.

De início, dissemos que a manifestação da última semana foi bem brasileira, por sabermos que em nosso país tropical as pessoas (não somente as destacadas, mas as comuns também) gostam de eventos, e sentem necessidade de ir às ruas, de tempos em tempos, para sair pacificamente e manifestar seus desejos, suas frustrações ou seu entusiasmo. Assim é no Carnaval, nas festas de Natal, ou após as vitórias futebolísticas internacionais em que se destaca a seleção brasileira. Mas assim tem sido, também, em momentos políticos importantes, como na Marcha dos Cem Mil, na Campanha das Diretas Já, no desfile dos Caras Pintadas, ou até nas concentrações recentes realizadas em Brasília, ou em outras cidades-sede de governos estaduais.

Mas é preciso lembrar, no caso expressivo que estamos comentando, que paz é também desarmamento de espírito. Não se pode macular movimentos contra a violência com manifestações de protesto orientadas contra alguém, pessoalmente, ou contra instituições. Dizemos isso porque aprovamos a programação feita, com palhaços e cantores, multidões usando branco e velas acesas, mas não nos esquecemos de que este é um ano eleitoral. Algumas pessoas poderiam querer aproveitar a ocasião para culpar esta ou aquela autoridade, criticar um ou outro político. Os pretextos seriam variados – e alguns, inclusive podem ser reais – mas para que toda a população participe e se sinta unida, neste momento, é preciso deixar os “slogans” políticos para o guia eleitoral, ou para as atividades partidárias.

Na primeira semana de março, comentamos neste espaço a publicação de uma estatística revelando que, no mais rico Estado do Brasil, o investimento governamental em armas e equipamentos para a Polícia teve um crescimento anual de 55%, entre 1996 e 1999, passando de 47,5 para 73,6 milhões de reais. Mas, o número de homicídios e latrocínios não caiu, tendo ao contrário aumentado de 11.171 para 13.572 no mesmo período.

Também já comentamos o recente Plano Nacional de Segurança Pública, um pacote de medidas abrangendo desde o controle do contrabando e do porte de armas até a ampliação do sistema penitenciário – com a criação de 15 mil vagas nos presídios brasileiros. E lembramos que o país tem, oficialmente, três policiais para cada grupo de 1.000 habitantes, índice superior ao recomendado pela ONU, que é de um policial militar para 500 pessoas (ou 3 para 1.500). E que, apesar disso, a violência nas grandes cidades vem aumentando a cada ano. Veja-se, ainda, que o número arrolado de policiais atuando nos estados da federação não inclui as inúmeras polícias privadas, que constituem um capítulo à parte nos estudos sobre segurança. Há até quem seja contra a sua existência, que hoje envolve um grande exército.

O plano recentemente anunciado pela Presidência da República fala apenas na criação de mais 1.500 vagas na Polícia Federal, com a instalação de 20 novas delegacias, o que parece pouco num país-continente como o Brasil.

O que a população mais deseja é um basta à impunidade, e isso envolve não apenas a ação da polícia, mas a colaboração expressa e continuada do Judiciário, além do Legislativo.

Mas, a violência entre nós só será reduzida a níveis toleráveis se a sociedade inteira for mobilizada. É o que se está começando agora a fazer.



Jornal do Commercio
Recife - 11.07.2000
Terça-feira