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COMPORTAMENTO Pedaço de tanta gente dentro de um só lugar por FABIANA MORAES Lúcia (nome fictício), 35 anos, detesta quando alguém fala português errado. Dói no ouvido, diz. Corrige a filha maior, de 14, sempre que esta comete algum deslize linguístico. Tudo bem que a gente é pobre, mas não precisa ficar falando errado. Lúcia é uma das 18 moradoras do nº 228 da Rua Velha, na Boa Vista, região que sofreu um processo de empobrecimento gritante, a despeito de seus belos sobrados e casarões coloniais. Um patrimônio tão importante quanto aquele visto nas ruas do Bairro do Recife, mas hoje lotado apenas de gente que vem tentando sobreviver. Para isso, se juntam em locais ínfimos. Passam a compartilhar da vida um do outro, seja para ajudar, ser ajudado, contar uma fofoca, ver um pedaço no jornal na TV, mostrar um novo objeto que foi comprado. Lúcia, por exemplo, sabe que pode contar com a amiga que mora ao lado, Vera, nos momentos de apuros. Em alguns momentos, foi Vera quem acudiu os filhos da ambulante quando estes não tinham o que comer. A filha de 14 anos da ambulante teve sorte: inteligente, ganhou uma bolsa para estudar numa escola de classe média alta. Mas sofre ao ver a mãe tentar manter os filhos lavando roupa para fora, vendendo almoços, balas, pirulitos. Perto do quarto de Lúcia, vive a cafuza Poliana Silva, 22, também paraibana, de Itambé. Vive não, passa uns dias, pois está sempre saindo de casa após brigar com o marido que vende relógios, sombrinhas e cartões-postais no centro da cidade. A casa dos dois é um quartinho minúsculo, junto à cozinha coletiva do cortiço-pensão. Bem ao lado de Poliana, está Seu Amaro, que ninguém nunca vê ou sabe muito bem o sobrenome. Ele faz trabalhos temporários, quando surge algum. É apaixonado por Lúcia há anos, e detesta vê-la na companhia de outro homem. Uma vez, estava alugando um quarto para uns peruanos que sempre vêm aqui. Ele ficou com raiva, quis me bater, lembra Lúcia, que já foi abordada por ele não sabe quantas vezes. O Amaro do amor não-correspondido, porém, não é violento quando está sóbrio. Fica quieto e nem mesmo faz alusão ao sentimento que nutre por Lúcia, segundo ela mesma. Se hoje poucas pessoas sublocam os quartos de taipa erguidos dentro do sobrado que um dia foi colonial, antes a procura fazia com que todos os cantos fossem habitados. Até o corredor já foi alugado. Nos quartos, misturam-se, nestes períodos, solitários e prostitutas sem cafetão. Menino chegado a fumar maconha. Vou neles e peço para não fumarem aqui. Tem gente que não gosta, e é preciso respeitar, conta Lúcia. Bem ao lado da porta de seu canto, um cartaz informa: Evite o uso de drogas. SOFÁ NOVO O último andar do 228 é ocupado por familiares de Lúcia. Uma briga, porém, separou os que vivem ali dos que vivem lá embaixo. Não se falam mais, e o motivo da contenda é o próprio casarão. Tem mais gente da família, só que desta vez foram se instalar no térreo, área nobre da construção. Sala ampla, cozinha, tanque de água próprio. Mislene da Hora, 22, foi morar lá. Se juntou ao irmão de Lúcia e teve uma filha. Faz questão de se manter à parte da briga familiar e não sabe explicar muito bem o porquê de um dado curioso: apenas a ambulante paraibana paga as contas da casa, apesar de todo mundo usufruir dos serviços. a sala, o sofá novo, ainda com o plástico, denuncia a mais nova aquisição da casa de Mislene que, apressada, pede para que as fotos sejam tiradas mais rapidamente. É que meu marido não gosta de ninguém por aqui, diz, sem jeito. O feijão também está no fogo, e, talvez, seja esta a principal razão da pressa. Mislene se despede apressadamente e volta para dentro do sobrado. Lá em cima, ouve-se uma briga. É apenas mais um dia começando. |
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