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COMPORTAMENTO II Uma geladeira para um sobrado inteiro São três andares no casarão de número 124, na Rua da Matriz, bairro da Boa Vista. No primeiro, são seis quartos, sete famílias, um banheiro. Toda manhã, ouve-se um tem gente, misturado ao cheiro de café. Dona Rita dos Santos, 66 anos, administra o piso junto ao filho Beto. Mas deixe ele quieto que ele não gosta de aparecer, diz. Quando chegou à Rua da Matriz, Dona Rita tinha apenas 17 anos, e desfilava no Marim dos Caetés e no Batutas de São José. Gozei muito a minha vida, não fui besta não. Agora, idosa, vive naquele que pode ser chamado de quarto principal da pensão (outro nome freqüentemente dado ao cortiço) do primeiro andar. Morre de pena do rapaz do lado, que veio de São Paulo para morar com uma tia e acabou por ali. O rapaz vende uns barquinhos de artesanato, que não rendem dinheiro nenhum. Dona Rita tem dó, mas diz que vai ter que mandar o menino embora, que ele já está muito atrasado no aluguel. Eu fraquejava, no início. Mas tenho que sobreviver, não posso manter ninguém que não pague. Sorte teve seu João, que chegou ao cortiço quando Dona Rita ainda estava na sua época de fraqueza. Foi deixando de pagar o quarto um, dois, três meses. Atrasou mais de um ano. Hoje, mora por ali há mais de quinze. Seu João, visto muitas vezes bêbado pelo sobrado, cai nas graças dos moradores que passam pela casa. São muitos os tipos: comerciantes, ambulantes, prostitutas, ladrões, aposentados, estudantes, garotos de programa. Gente boa e gente ruim. Mas aqui eles não mexem com ninguém, ou mando embora. Aqui, é só para morar, diz a ex-Rita dos carnavais ao lado de um complacente Padre Cícero, que ladeia a sua cama. Nos tempos áureos, a casa ficava lotada. Todo quartinho tinha seu inquilino. O dinheiro era melhor, e dava para reformar, lá e cá, um pedaço do casarão que hoje está caindo aos pedaços. No térreo, a fiação solta e descoberta enrola-se pelas escadas de madeira carcomida. A impressão é que tudo vai desabar a qualquer momento. Quem entra no local sem saber que ali funciona uma verdadeira comunidade, imagina que o sobrado está abandonado. Pedro (nome fictício), 23, chegou faz quatro meses, depois de passar oito meses na cadeia. Mora no quartinho central do corredor e faz alguns programas para se manter. A definição programa, no entanto, ainda suscita dúvidas ao próprio rapaz. Bem, na verdade eu me relaciono com mulheres casadas, entende? Elas bancam as minhas despesas e eu transo com elas. Acho que isso é ser garoto de programa, não é?, pergunta. Seu espaço custa R$ 100, pagos em parcelas de R$ 20 por semana. Pedro é precoce: saiu de casa aos 11 anos, por não concordar com as idéias dos pais. Estava na terceira série. Desde então, está na rua. Aprendeu a se virar completamente só: lava, cozinha, passa. Há quatro anos não vê os pais, ele um engenheiro e ela uma psicóloga. A cara de Pedro não nega: veio de uma classe média, sim. Mas não quis continuar nela. PERTO DE TUDO Uma das poucas vantagens que os moradores destas pensões vêem é a proximidade entre o trabalho e o canto de dormir. Fica mais cômodo, mais barato. Porque, afinal é preciso de um mínimo de comodismo para conseguir relevar as muitas incoveniências de dividir um só ambiente. O vendedor de vales-transporte Jorge Araújo, 44, foi morar ao lado de Pedro e Dona Rita exatamente por esse motivo. Saiu de Joana Bezerra e chegou à Boa Vista. Vende os passes ali pertinho mesmo, na avenida. Seu quarto tem TV a cores, ventilador, cama. De fogão não precisa, pois come na rua mesmo. Em qualquer bar que chegar eu almoço, diz. Conviver com muita gente sob o mesmo teto nunca trouxe problemas ao ambulante. No primeiro andar do sobrado 124, pelo menos durante o tempo em que ele chegou (dezembro de 99), não existem brigas ou barulho excessivo. Fiz amigos aqui. Eu não incomodo, nem sou incomodado. OLHO ROXO A filosofia pacifista de Jorge não é muito comum lá no terceiro andar, onde funciona outro aglomerado de quartos. De vez em quando, sai uma briga. Na cobertura, três dos seis quartos estão ocupados. Num deles, vive uma mulher sozinha, que grita continuamente não acreditar em mais ninguém e por isso mesmo se recusa a falar com estranho. Ligue não, ela é assim mesmo. Vive dizendo que a Xuxa roubou os planos dela e por isso ficou rica. Quando sai à noite, ela só veste roupa cheia de brilho, contam os moradores. Outro quarto, este maior, é habitado pela família de Rejane Maria da Silva, 31, que também se instalou ali por ser próximo ao seu trabalho, como o Jorge lá de baixo. Tem cozinha, sala e banheiro. É a única a possuir a regalia (o banheiro próprio). Os outros inquilinos precisam dividir um único, no final do corredor. Quando os quartos estão todos ocupados, é uma bagunça, diz Rejane, casada com Gerson, 35, que faz uns bicos para pagar o aluguel. Entre a pensão em que vive Dona Rita e a que vive Rejane, está a casa do aposentado da Marinha José de Albuquerque, 67. Ele gosta de morar ali, no segundo andar, afinal de contas, foi onde se instalou há 18 anos. A gente só se incomoda com algumas coisas. Às vezes tem muito barulho, às vezes escuto marido bater na mulher. Encontro com ela pelas escadas, de olho roxo. Não gosto, mas também não posso fazer nada. Não se mete nestas coisas, concorda?, fala o simpático ex-marinheiro, um costumaz leitor da Bíblia Sagrada. Atualmente, é na geladeira do aposentado que muitos moradores do casarão conservam seus alimentos. Enquanto seu Albuquerque conversa, Tatiana, a filha de 5 anos da Rejane do andar de cima, adentra a casa sem pedir licença e abre a geladeira. Pega uma garrafa de água e sai, correndo. Tá vendo só?, ri o ex-marinheiro, que possui um dos dois melhores espaços do casarão, dividido com três filhos seus, todos homens. Seu Albuquerque é uma espécie de eminência no 124. Imprime respeito. Todos os meninos estão na escola. Perdeu a mullher ano passado e vai toda semana ao cemitério visitar o túmulo. Antes, levava flores, mas depois as trocou por algumas definitivas, de plástico, e mandou colocar cimento na base do enfeite para que ninguém o roubasse. Às vezes, bebe uns tragos, mas sua diversão predileta é ficar em casa ouvindo os discos de Nelson Gonçalves. Quando era marinheiro, viajou para lugares como Tóquio, Filadélfia e toda a Europa. Hoje, se presenteia com pequenos prazeres, como comer uns lagostins, comprados no Pina. Na mesma geladeira em que Rejane guarda a água de sua casa, e outro vizinho, a comida que sobrou do almoço, está uma grande panela do crustáceo. E sou eu mesmo quem preparo, anuncia. Todos os moradores concordam quando chamados à atenção sobre a importância da conservação do sobrado. Cada um faz o que pode para mantê-lo em pé, mas a tarefa mostra-se impossível. Dona Rita fica ansiosa quando é procurada pela reportagem. Quando é que vocês vão consertar?, indaga, apressada. Logo, fica resignada. Não é ninguém importante, ela percebe. A atenção se concentra só no outro lado da cidade. Aqui é feio mesmo, eu sei. ( F.M.) |
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