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ESPETÁCULO II Fanatismo rege o dia-a-dia da cidade A paixão que as galeras cultivam pelos seus respectivos bois é capaz de causar polêmicas intermináveis, intrigas eternizadas no tempo ou até mesmo separar casais que torcem por agremiações diferentes durante os dias do Festival. Tudo em nome do boi-bumbá. Antigamente, os torcedores contrários evitavam circular pela área do outro, que corresponde basicamente ao centro de Parintins, tradicionalmente o lado azul da cidade; e o bairro de São José, vermelho até a última casa. A disputa era tanta que os moradores rivais nem se quer se falavam. Grande parte desse fanatismo continua intacto pelas ruas, nas casas pintadas pela cor do boi, e no comportamento dos moradores mais entusiastas da brincadeira, que de brincadeira mesmo não tem nada. As pessoas levam tudo muito a sério. O escritor e jornalista Paulo José Cunha, autor dos dois livros sobre os bumbás (Vermelho, Um Pessoal Garantido e Caprichoso, A Terra é Azul) conta a dificuldade que teve de reunir as duas maiores figuras do Garantido e do Caprichoso, na tentativa de tirar uma foto delas juntas. Ficou só na vontade. A caprichosa Ana Maria Azedo e a garantida Maria Ângela preferem morrer a ter que dividir o mesmo espaço, explica. O fanatismo de Ana Maria, por exemplo, chegou ao ponto de impedir que até seu marido colocasse o carro na garagem de casa. Isso tudo porque o automóvel é vermelho. Já Maria Ângela, chega a exibir orgulhosamente a todos sua residência rubra, literalmente. Desde os móveis da casa, às paredes, às roupas e até à piscina. O local virou atração turística daquela banda da cidade. Durante a estada na cidade, é bom escolher logo qual o boi que vai torcer porque os moradores detestam os garanchosos (indefinidos). No Bumbódromo, evite também entrar do lado da galera com roupas de cor contrária. Os torcedores ficam exaltados, vaiam e exigem a retirada do invasor de seu espaço. E a rivalidade não pára por aí. Os jurados do festival entram também no clima. Além de serem de outros estados e terem seus nomes ocultados até minutos antes de iniciar a festa, eles são pressionados pelos moradores para não sofrer nenhuma influência antes do julgamento. A caneta utilizada pelos jurados, inclusive, é verde. Para ser imparcial. Até a poderosa Coca-Cola, empresa patrocinadora oficial do festival há seis anos, teve que seder à rixa pessoal dos bois-bumbás. Ineditamente, sua logomarca teve que ser alterada na cor para poder freqüentar o lado Caprinhoso da torcida. Por isso, não se espante caso venha a se deparar com a Coca-Cola azul pelas esquinas de Parintins. (J.M.) |
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