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ARTIGO

Violência e ética

por Maurício Rands*

Cena 1 – Por volta das 2h, Pernalonga, soropositivo que nunca fez mal a ninguém, é esfaqueado na perna por um assaltante. Perde todo o sangue até ser atendido mais de duas horas depois. Testemunha afirma que a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros omitiram socorro. Ninguém aparece para ao menos aplicar-lhe um torniquete e estancar o sangramento.

Cena 2 – O assaltante do ônibus no Rio de janeiro faz refém e espalha o terror entre os passageiros. A polícia, depois de lentas negociações, faz disparos. Morre a refém, negra e pobre. O seqüestrador, pelo visto, não é atingido. É morto depois.

Cena 3 – As CPIs parecem despertar os deputados para despertar a própria carne para preservar a imagem. Com merecidos aplausos começam a pegar alguns culpados cuja culpa para muitos já não era novidade. Gente grande que sempre agira com a certeza da impunidade começa a ser atingida. Ao invés do merecido elogio à ação dos deputados, alguns preferem criticar o que vêem como excessos das CPIs. Sem perceber que sua oposição à CPI equivale ao imobilismo no combate à criminalidade e a corrução. Sem ver que as CPIs legitimam o parlamento e, assim, fortalecem a capacidade do Estado de deter os ataques à vida e à liberdade dos cidadãos.

Cena 4 – O presidente FHC toma um “porre de civilização” com Jospim, Blair, Schrorder e Clinton. Enebriado, proclama que o ajuste fiscal tem que ser acompanhado de forte estímulo ao desenvolvimento. Defende que é hora de reduzir a jornada para combater o desemprego, como fizeram a França, a Itália (Lei 196/97) e a Alemanha. De volta ao Brasil, seu “porre de modernidade” tem que se ver com os servidores em justa greve por reajuste negado há 5 anos, os hospitais sucateados, a escalada dos seqüestros e a prisão ou cassação de políticos e empresários que há pouco eram por ele apoiados nas eleições ou com polpudas verbas do Proer (senador Luís Estevão e banqueiro Salvatore Cacciola, p. ex.).

Reduzir a jornada por meio de lei, como fizeram os europeus, Sr. Presidente? Com restrições legais à exigência de horas extras, como na Lei Italiana nº 196/97, Sr. Presidente? Não, seria bom que os empregadores e os sindicatos negociassem a redução.

O Governo não se deve meter. Será que o sociólogo não sabe que apenas 20% do mercado de trabalho formal está sindicalizado? E que, das categorias profissionais sindicalizadas, poucas têm poder de negociação numa conjuntura de desemprego? Esperto o deslumbrado presidente. O discurso sem compromisso algum com a prática.

Esta esperteza é fruto de um egoísmo narcisista prenhe de conseqüências para o inconsciente coletivo. Vale é se dar bem. O exemplo que vem de cima reproduz a atitude de indiferença ao sofrimento alheio. Como o de Pernalonga, o da refém do ônibus, e das vítimas do narcotráfico e da pistolagem.

A banalização da vida é o fruto perverso da prática dos liberais e espertos cuja ética é a de se darem bem a qualquer custo. Nas eleições como nos negócios.

* Maurício Rands é advogado


Jornal do Commercio
Recife - 15.06.2000
Quinta-feira

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