
MÚSICA II
É SANGUE,
É MANGUE. É A NAÇÃO ZUMBI Mesmo sem a, infelizmente,
presença do síndico Chico Science, os condôminos da
Afrociberdelia, i.e, mangueboys e manguegirls, pelo pouco
que se conseguiu escutar do novo disco Rádio S.AMB.A,
não terão do que se queixar.
Uma evolução no
som da banda. A gente acha que este é o nosso disco mais
bem acabado. (Pupilo)
É um disco sem
problemas psicológicos, sem seqüelas. (Dengue)
A sonoridade que a
gente queria acho que foi alcançada. Se outra pessoa
tivesse produzido talvez houvesse sido mais difícil pra
gente. (Jorge du Peixe)
Tivemos os melhores
equipamentos, o melhor material, uma coisa que não
conseguimos numa grande gravadora. A Sony dava hotel
cinco estrelas, enquanto no estúdio a gente não tinha
condições. Agora todo o equipamento que a gente
precisou, os caras viabilizaram. (Dengue)
No final de 98, a
banda quase vai para a Warner. Ela queria contratar o
grupo de todo jeito. Se a gente tivesse gravado naquele
tempo o que teria saído? Todo mundo ainda tava muito
verde. Este tempo foi bem-aproveitado. Cada um partiu
para alguma parada, enquanto a banda continuou fazendo
shows, gravando com outras pessoas, fizemos o Acorda
Povo, oficinas, projetos paralelos feito Os Malteses,
quer dizer não estivemos parados nenhum tempo.
(Lúcio Maia)
O legal neste disco
é que tivemos tempo para trabalhar. Começamos a gravar
em novembro. As vozes foram gravadas aos poucos, as bases
foram gravadas em oito dias, as guitarras num dia, mas
para finalizar tudo foram uns quatro meses (Lucio
Maia)
Dengue trazia
música de casa, Lúcio também. Gilmar canta. Toca
canta. Quer dizer, foi um disco mais aberto a
participações. Tem esta última composição que
fizemos juntos, Brasília, feita num avião, vindo do
Rio. Só a letra. Tentamos bolar um arranjo pra ela na
época do Afrocibederlia, mas nunca terminamos, nunca
colocamos música, tem só a letra. (Jorge du
Peixe).
Uma sutil mas fundamental
diferença entre o Tropicalismo e o Manguebeat. No
primeiro além de antropofagia, fazia-se uma música que
se assemelhava a uma colcha de retalho, formada pela
justaposição de vários elementos. O Manguebeat, pelo
menos o da Nação Zumbi, não revisitou Oswald de
Andrade, em vez de deglutir as influências e
regurgitá-las recicladas, optou pela aglutinação. Foi
acrescentando a cada disco tudo que os oito integrantes
da banda escutaram e escutam.
Rádio S.AMB.A continua
assim. Tem desde uma versão thrash de Jornal da Morte,
um samba feito de encomenda por Miguel Gustavo (o mesmo
autor de Pra Frente Brasil), até o instrumental Del
Chifre Beach, uma surf music (com direito ao trombone de
Bocato) que pode entrar na moda a praia Del Chifre,
próxima ao Complexo de Salgadinho, paraíso dos
surfistas da periferia. Ao todo são 17 faixas, incluindo
três vinhetas. Ei-las: Azougue, Caranguejo da Praia das
Virtudes, Low-fi Dream, Arrancando as tripas, Pela Orla,
Remédios, Carimbó, Cocos assassinos, Brasília, Quando
a maré Encher, Jornal da morte, Antromangue, Na Parada
do Rio Salgado, João Galafuz, Zumbi Zulu, Do mote do
doutor Charles Zambohead, que abre o disco, cuja música
de trabalho será Quando a maré encher. O som do Nação
Zumbi continua o mesmo mas completamente diferente.
Pela primeira vez
trabalhamos mais os tambores. Nos outros discos, eles
eram mixados pra ficar tudo alinhado. Agora colocamos
distorção, demos um tratamento diferente, eles ficaram
com jeito de batuque, como instrumento de marcação
mesmo. (Pupilo)
Tem o maracatu de
baque solto, de baque virado, o nosso é o baque de
arrodeio, é o chamado loop. O maracatu feito sob nossa
perspectiva. A gente sempre teve esta coisa funk , não
funk copiando americano, mas no sentido de despojamento.
No disco tem maracatu, tem coco, samba, tá bem
variado. (Jorge du Peixe).
Afrika Bambaataa foi um
célebre chefe zulu do final do século 19. O nome foi
adotado, nos anos 70, por um cara do Bronx, Nova Iorque,
que ao misturar o ritmo e poesia (Rhythm And Poetry) da
ruas, com o Kraftwerk, influenciou uma legião de garotos
mundo afora, incluindo Chico Science e Jorge du Peixe. E
o ídolo Afrika Bambaataa, quem diria, faz uma das
várias participações especiais de Rádio S.AM.BA. Ele
se apresentava em São Paulo quando o grupo estava
gravando e, convidado, foi no estúdio deu a canja, para
bem do povo e felicidade geral da Nação Zumbi.
As outras participações
ficam por conta de Lia de Itamaracá, Fred 04, Jeff
Parker e Dan Bitney (Tortoise), Zé Gonzales (Planet
Hemp), Maciel Salu (Chão e Chinelo), Snutz (Dzcuts),
Eder Rocha (Mestre Ambrósio), Bocato (o trombonista),
Mamelo Sound System, e KSB (ex-Faces do Subúrbio).
A gente faz o
lançamento, mais alguns shows, e em julho tocamos em
Nova Iorque, no Summerstage, em que haverá uma homenagem
especial a Chico Science. De lá voaremos para a Europa.
Faremos Londres, Manchester, Amesterdã, Lisboa,
Alemanha, Bélgica. O lançamento do disco no Recife deve
acontecer em agosto ou setembro.
Ao fundo a voz de Jackson
Bandeira/Jorge du Peixe atravessa a parede sonora de
tambores, baixo, bateria e a guitarra distorcida de
Mocambo/Lúcio Maia, no samba de Miguel Gustavo:
Tresloucada e quase nua/ pulou do oitavo andar/
Porque o noivo não trazia/ Maconha pra ela fumar.
Pairando sobre a nave-estúdio Nostromo, o doutor Charles
Zambohead/Chico Science, com certeza aprovava o refrão:
É sangue, é mangue/ é sangue, é mangue.
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