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Breve comentário sobre rankings

por Flávia de Gusmão

Existe um fascínio inexplicável pelas listas de melhores e piores. Não há porque ser diferente na gastronomia. Anualmente, público e donos de restaurantes ficam excitados à espera da publicação do guia da Revista Veja, que não só relaciona os melhores em cada categoria como apresenta um ranking com os 10 melhores.

É bom esclarecer que este não é um guia ‘da Veja’, mas, sim, organizado por ela. A diferença pode parecer sutil, mas é fundamental para entender os critérios que colocam este ou aquele restaurante em primeiro ou último lugar, ou até o tiram da lista. Para ilustrar, vale o exemplo do Guia Quatro Rodas, este sim um guia ‘da Editora Abril’ porque, supostamente, existe uma equipe por ela contratada que freqüenta os restaurantes apontados e lhes dá um determinado conceito, no caso, as famosas estrelas. No caso da Veja, a revista seleciona um time de jurados que deve, individualmente, atribuir pontuação a alguns itens e indicar o melhor em cada especialidade.

Sempre haverá os que concordam e os que discordam da colocação obtida por alguns deles. É mais que natural. Afinal, ao se mudar o perfil do corpo de jurados, movendo de uma área de atuação para outra, de geografia gastronômica para outra, o resultado será muito específico. O que deve ser ressaltado na elaboração desse ranking é a lisura e a total boa intenção da Veja.

Alguns comentários merecem ser feitos na lista deste ano. É curioso observar a troca de lugares entre o Leite (1º lugar este ano e 2º no ano passado) e o Chez Georges (vice-versa). Isto reflete, basicamente, o triunfo de dois restaurantes de qualidade, mas que trafegam paralelamente: o Leite com a sua tradição secular; o Chez Georges com seu diálogo com o regional e o moderno. Pode significar, ainda, que o cenário gastronômico local se move muito lentamente em termos de abertura de casas tipo ‘arrasa-quarteirão’, nos moldes paulistas.

Dois restaurantes que não figuraram no ranking de 1999 marcam presença neste: o L’Atelier des Chefs e o Tasca, respectivamente cozinhas francesa e portuguesa. No caso do primeiro, é fácil entender o porquê: sendo um restaurante praticamente recém-inaugurado, e de grande potencial, não teve tempo de emplacar antes e, este ano, sua omissão nesta lista seria um equívoco. Já a ausência do Tasca em 1998 e 1999, seguida por sua aparição em 2000, causa estranheza por ser esta uma casa com muito mais de uma década de atuação e não muito afeita a divulgação e renovações. É indiscutível, porém, a qualidade de sua cozinha.

O Navegador, um dos precursores da cozinha autoral na cidade, vem caindo de posição. Mereceu um primeiro lugar em 1998, caiu para 4º no ano passado e ocupa 6º lugar este ano. Foi um ano difícil para o Navegador, com reformas sucessivas, mudança no staff e, finalmente, mudança de endereço. Espera-se que, com a nova localização, o Navegador volte a ocupar o lugar e a atenção que merece.

O Beijupirá, neste contexto, é um estranho no ninho e a simples menção do seu nome neste ranking já é uma vitória. Não porque não mereça, pois é, indiscutivelmente, um dos melhores e mais originais restaurantes do Brasil. Mas, o fato é que ele é o único a estar localizado fora dos limites de Recife e Olinda, em Porto de Galinhas, a 65 Km da capital. É natural, portanto, que seja freqüentado mais espaçadamente pelos moradores do Recife que, afinal, compõem o corpo de jurados. É, na verdade, o único a merecer tal recall, só isso já mostra o seu poder. A grande ausência é mesmo o Garrafeira, um restaurante de ótima freqüência, grandes vinhos e boa cozinha. Outro mistério é descobrir porque o Buongustaio figura como o 4º melhor restaurante, o Barbarico fica em 10º, mas é o Barbarico quem leva a medalha de ‘melhor italiano’. O eterno mistério das listas.

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Jornal do Commercio
Recife - 09.06.2000
Sexta-feira