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NÃO A DISCRIMINAÇÃO Menos hipocrisia e muito mais amor Ela é quinze anos mais velha Ele tem 27 anos. Ela completa 42 hoje. A diferença de 15 anos de idade não impediu que Cristina e Stênio descobrissem inúmeras afinidades. Em setembro de 1994, quando estava se divorciando do primeiro marido, após 11 anos de casamento, Cristina e seu casal de filhos foram passar um tempo na casa da mãe dela. Nesse período, conheceu Stênio, que era amigo de sua irmã mais nova e ídolo das crianças. A atração foi inevitável. Os gostos em comum em termos de literatura, música e cinema geraram horas e mais horas de papo. Com um mês, estavam morando juntos. Quando comunicamos aos garotos foi uma festa, lembra Cristina. A mãe e os amigos de Stênio, entretanto, não comemoraram tanto assim a notícia. Ela ficou desamparada porque não aceitava a idéia de que o filhinho praticamente saído da adolescência se juntasse com uma mulher que já tinha filhos e um ex-marido no pé. Os meus amigos não queriam que eu deixasse a turma e as farras. Diziam que o relacionamento era passageiro, que não podia ser sério, diz Stênio. No início, conta Cristina, os comentários das pessoas na rua ou nos lugares que freqüentavam incomodavam bastante. Como a situação era muito nova, eu ficava com vergonha de ser alvo de todos aqueles olhares de reprovação. Para a sociedade, uma mulher mais velha só se relaciona com um homem mais novo se for uma coroa rica que vai sustentá-lo. Ninguém acredita que haja uma relação dessas de igual para igual, critica, fazendo questão de acrescentar que hoje o casal se diverte com o conservadorismo das pessoas. Contrariando todas as más previsões, Cristina e Stênio continuam casados e felizes. A vida sexual, acima da média, conforme revelam, vai de vento em popa. A experiência, independência e segurança de Cristina, qualidades que assustariam muitos homens, para Stênio são fatores positivos do relacionamento. Dividimos todos os problemas, iniciativas e decisões, explica. Da mesma forma, a impossibilidade da companheira engravidar não o preocupa: Peguei os meninos na melhor fase e tenho uma ótima relação com eles. Estou realizado como pai, assegura. Quando tratam do futuro da vida a dois, Cristina é quem se inquieta. Digo a ele: daqui a pouco você vai estar deitado com uma mulher de 60 e aí não vale me trair, brinca. Já Stênio prefere não pensar no assunto: Do mesmo jeito que não sabia que iria me apaixonar por ela, não quero imaginar como será a nossa vida nos próximos 10 ou 20 anos. Quero viver e aproveitar com ela cada dia de uma vez. (M.D.) Ele é negro e ela é branca Silvana (branca e de olhos castanhos claros), 19 anos, e Gilberto (negro e de cabelo crespo), 23, moram na mesma rua no bairro de Torrões e desde que se conheceram, há sete anos, sempre foram amigos, inseparáveis, mas apenas bons amigos, até que... Bem, até que, como era de se esperar, pintou um clima, primeiro por parte dela, depois pela dele, e finalmente os dois se acertaram. O que tinha tudo para ser um romance tranqüilo, no entanto, logo encontrou no preconceito da família e das amigas de Silvana uma barreira. As meninas perguntavam se eu ia trocar um namorado branco e de melhor nível social, que tinha na época, por ele. Já o meu pai não gostou nada de saber que estávamos juntos, mas, no início, não entendemos o motivo, porque Gilberto sempre foi uma pessoa bem quista em nossa casa, comenta. Para o rapaz, a situação foi se tornando mais evidente com o passar do tempo, quando um ou outro parente deixava escapar que a sua cor era o problema. O fato de ser negro não incomodava se eu fosse só um amigo. Para namorar a Silvana ou fazer parte da família, contudo, a conversa era outra, concluiu. Mesmo contra a vontade de todos, eles decidiram noivar, e, com a gravidez inesperada de Silvana, casaram-se. As expectativas em torno do nascimento de Pedrinho, atualmente com 10 meses, trouxeram novamente à tona a face do preconceito: As pessoas sempre diziam que ele ia ser um negrinho ou, no máximo, moreninho, conta Silvana. Quando o menino nasceu, a primeira pergunta do pai dela não foi sobre a saúde da criança, mas sobre a cor dele, que é branquinho. Esse é o tipo de comportamento que magoa, embora eu tente ignorar, revela Gilberto, que foi vítima da mesma discriminação sofrida pela sua mãe (também negra) ao se casar com o seu pai(que é branco), há mais de vinte anos. Separados por conta de alguns conflitos agravados pela posição da família de Silvana, entre idas e vindas, o casal atualmente está se reconciliando. Acima de tudo, nos amamos e queremos criar o nosso filho juntos, para ensiná-lo que, quando existe um sentimento forte que une duas pessoas, nada deve impedir que elas fiquem juntas, muito menos a cor da pele. Afinal, o que realmente vale no caráter de alguém são as suas concepções e atitudes, acredita Silvana. (M.D.) Eles são homossexuais Eles se conheceram numa biblioteca, em junho de 1997. A identificação foi quase instantânea. Conversaram como velhos amigos e marcaram de se encontar no São João, em Caruaru. O desfecho deste enredo não é difícil de supor. Isso mesmo. Eles começaram a namorar e estão juntos até hoje. Mais precisamente casados. Para comemorar o Dia dos Namorados, geralmente procuram fugir da rotina preparando jantares românticos à luz de velas, fazendo piqueniques noturnos em praias semi-desertas ou presenteando-se com flores e bombons. Este ano, vão viajar para Aracaju. Será uma nova lua-de-mel. Essa história seria igual a todas as outras, se não fosse por um motivo. Eles são Alessandro, 28 anos, coreógrafo, e Caio (nome fictício), 36, ator e professor. Pessoas que se realizam afetivamente com outras do mesmo sexo. Para muita gente, um relacionamento inconcebível. Para eles, apenas uma forma diferente de amar. Ambos já tiveram relações heterossexuais. Sandro, inclusive, foi casado com uma mulher por três anos e tem uma filha de 10. Caio teve várias namoradas e quase noivou por duas vezes. Mas foi na convivência com o companheiro que eles realmente se satisfizeram e resolveram suas frustrações. Chega um momento em que você reconhece que vive uma farsa e enfrenta o que for necessário para alcançar a felicidade, revela o coreógrafo. O clima de harmonia é tanto que ele e Caio chegam a garantir que, num relacionamento homossexual como o deles, existe muito mais compreensão e cumplicidade, pelo fato de os parceiros entenderem as necessidades e limitações do outro. No nosso caso, não há padrões socialmente estabelecidos como nos casamentos hetero, nos quais cabe à mulher cozinhar, lavar e passar, por exemplo. Nós dividimos as obrigações por aptidão, alfineta Caio. Assumir um comportamento oposto ao considerado normal, no entanto, não é uma opção livre de estranhamentos e rejeições. O preconceito da minha própria família foi o pior de todos. O meu pai não me aceitava e, por isso, saí de casa, queixa-se Sandro. A resposta que encontrou para combater a discriminação foi criar a ONG Os Defensores, que já conta com 150 associados. A organização tem o objetivo de conscientizar a comunidade homossexual quanto ao direito à dignidade e ao respeito, mas existe principalmente para defender o direito de ser feliz, explica Sandro, aproveitando para informar que a partir de hoje o site da ONG (www.osdefensores.org.br) está no ar, com a campanha Namorados 2000, cujo tema é: Expresse sua forma de amar sem preconceito. (M.D.) Eles se conheceram pela Internet Nanda-PE e Bethoven não sabiam como o outro era fisicamente e muito menos como era seu jeito de falar, olhar e se movimentar. Mesmo sem terem acesso a esses detalhes de sedução fundamentais numa paquera, eles se apaixonaram. Representantes de uma geração que aderiu a novas formas de se comunicar e até de namorar, os dois se conheceram no ano passado, na Internet, mais especificamente no mirc (sala de bate-papo eletrônico) todos nóis. Foi amor à primeira vista. Aliás, à primeira teclada (no jargão dos internautas, conversa). Papo vai, papo vem, descobriram que, coincidentemente, têm a mesma idade, 22 anos, e estudam na mesma universidade (ela cursa Direito e ele, Computação, na Unicap), além de terem projetos de vida, idéias e gostos semelhantes. Falávamos sobre estudos, passatempos, amigos e Jiu-jitsu. Tudo que revelasse um pouco mais sobre a personalidade do outro, lembra Nanda-PE, que estreou nos chats em 1997, com o intuito de apenas se divertir e fazer amizades. O encontro com Bethoven, segundo ela, foi uma surpresa. Não imaginava começar um relacionamento assim, diz. O interesse despertado em seguida foi inevitável, levando-nos a trocar e-mails, telefones e fotos. Mas foi somente num churrasco promovido pela turma do mirc que Nanda-PE e Bethoven deixaram de ser apenas um nick (sinônimo de apelido) para se transformarem em Fernanda e Alberto. Quando nos vimos pessoalmente foi que o sentimento se incendiou, conta Alberto. Os dois começaram a namorar uma semana depois da festa e estão juntos há seis meses, mas admitem que, embora o contato virtual privilegie a atração pelo pensamento e opiniões do outro, em vez de destacar mais o lado estético, como acontece nas paqueras convencionais, na Internet sempre existe a possibilidade de que alguém não diga exatamente a verdade. Você sempre fica um pouco com pé atrás. Além do mais, a rede serve somente como o caminho para um relacionamento real, no qual as pessoas possam se ver e se tocar. Não acredito em namoros apenas virtuais porque, geralmente, eles não duram muito, confessa Fernanda. Ela e Alberto continuam acessando os chats, mas numa ferqência bem menor do que a de quando se conheceram. É que agora queremos aproveitar ao máximo o tempo livre para curtir um ao outro bem de pertinho, revela o estudante. (M.D.) |
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