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COMPORTAMENTO
“No começo do homem, estava o beijo”

por Fabiana Moraes

Como foi o seu primeiro beijo? Doce, esperado, nervoso, intenso, rápido, trágico, delicioso, hilariante... igualzinho aos dos seus sonhos ou uma verdadeira comédia de erros? Não importa a resposta. Ele pode ter sido qualquer um dos acima descritos ou algo que você nunca saberia explicar. Mas, com certeza, foi inesquecível. Até mesmo beijos que não foram os seus devem estar impressos na memória. Uns belos, como o eternizado pelo pintor Gustav Klimt. Uns sensíveis, como os de Chaplin. Outros, decepcionantes, como o trocado entre o soldado francês e uma enfermeira, no final da Segunda Guerra Mundial. Há pouco, descobriu-se que a famosa foto havia sido forjada dias antes da guerra terminar.

mística em torno de um beijo sempre provoca reações apaixonadas. Ou análises científicas. “Justaposição dos músculos orbiculares da abertura bucal no estado de contração”, disse o médico australiano Henri Gibbons, que, com certeza, devia beijar muito mal. A Igreja Católica, sabendo do poder do ato, o trocou por um aperto de mão. O ‘beijo da paz’, trocado na Idade Média dentro da igreja no final de cada celebração, foi, com o tempo, ficando para trás. Era por demais terno, simbólico. Talvez um pouco erótico.

Na cartilha das prostitutas, beijar na boca é terminantemente proibido. Fazer sexo, para elas, pode ser ato puramente mecânico. Mas, num beijo, não dá para disfarçar a falta de emoção. “Eu não beijo cliente na boca. É perigoso, você se envolve demais. A única pessoa que eu beijei enquanto fazia programa é o meu namorado até hoje”, diz Débora, 26 anos, há cerca de três fazendo programas. Beijar, para ela, é ação que envolve sentimento. Sexo pode passar sem isso. “Tem cliente que pede muito para ser beijado. Sempre recuso. Alguns deixaram de me procurar por causa disso. Não faço por dinheiro nenhum”. Ao que parece, beijo também não se vende.
O cantor e compositor Jards Macalé, 56, assombrou muita gente quando estampou na capa do seu disco Contrastes (1977) uma foto onde ele e a então esposa, Ana Miranda, apareciam trocando um bonito beijo. Teve gente que achou lindo, teve gente que achou de mal gosto (aqueles que descendem do doutor Gibbons). “Os beijos sempre me emocionam, qualquer um deles. Acho maravilhoso os casais se beijando pela rua. Roubo um sempre que eu posso”, diz Jards, enquanto rememora o primeiro ósculo (nome feio para dizer beijo) de sua vida. “Foi no peito da minha mãe. Beijo amoroso e faminto”. E qual deles seria o mais emocionante? O da chegada ou o da partida? “É aquele que a gente dá na mão, sopra, e ele sai à procura do rosto certo para pousar”.

O FREI E DENEUVE – O frei Aloísio Fragoso tinha um sonho na adolescência: tocar com a boca os lábios de outra pessoa. “Mas era infinitamente acanhado”, conta. Nos seus sonhos, via a boca de Catherine Deneuve. Ou a de Ângela Maria. “Acho que era por causa da voz dela”, diz o frei, que, na juventude, concretizou seu sonho de menino. Mas não foi com Deneuve ou Ãngela, ele assegura. Também não revela quem foi, por motivos óbvios. “Não fiquei decepcionado ou por demais emocionado. Devo ter sentido o que todo adolescente sente nesses momentos”.

A falta desse carinho já provocou questionamentos envolvendo até mesmo Jesus Cristo. Quem não lembra da passagem bíblica onde Cristo chega à casa dos fariseus e uma mulher, pecadora aos olhos de todos, trata de lavar os pés do Messias para depois enxugá-los com os próprios cabelos e beijá-los? “Se és santo, como permites que uma pecadora se aproxime?”, indagam os fariseus. “Ela me recebeu com o ósculo da paz quando cheguei a vossa casa. Vocês não o fizeram”, responde Jesus.

Esse beijo dado nos pés do senhor, vindo dos lábios de uma prostituta, representava um mero carinho. Mas era visto de forma sexual. O psicanalista Antônio Escobar, 54, explica: “Depois de determinado tempo em que usa o seio da mãe apenas para satisfazer seu instinto de conservação, o bebê começa a possuir uma ligação erótica com essa área, que torna-se erógena. O ato de sugar ganha mais conotação de prazer do que apenas de sobrevivência. Mais tarde, a zona labial se incorpora à zona genital”.

As explicações psicanalíticas esbarram em uma confusão de sentimentos quando a teoria deixa o divã para ganhar a prática nos lábios de alguém. A arquiteta Alice Holanda, 31, não esconde que uma das grandes emoções de sua vida é – adivinhem – beijar. “Meu primeiro beijo foi tudo o que eu havia imaginado. Começou doce e depois foi se tornando intenso. Foi muito bom. Acho que é por isso que até hoje eu gosto tanto de beijar. Às vezes, pode até ser melhor que sexo”, acredita a arquiteta, que não tem idéia de quantos lábios já beijou. “Se parar para contar, posso até me lembrar”, diz, sorrindo.

Sorte de Alice, que pode beijar à vontade sem ser tachada de plebéia, como acreditavam os aristocratas do século 19. Também por não ser obrigada a encostar os lábios numa fria tábua esmaltada (o osculatório) usada antigamente pela igreja para substituir a face dos fiéis (era menos perigoso). Nas mãos, rosto, ou boca, não há sociedade que, hoje, não festeje a antiga saudação. O Brasil já teve o seu representante oficial para o tema: José Alves Moreira, o Beijoqueiro, que ganhou notoriedade ao sair beijocando João Paulo II, Pelé e Sinatra. Foi condenado por desordem pública. O juiz, que deve entender bem do assunto, o absolveu. “Feliz a sociedade em que os delinqüentes trocam as armas pelos beijos”, disse. Um beijo para ele, então.

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Jornal do Commercio
Recife - 11.06.2000
Domingo