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JOELMIR BETTING

Uma, duas ou três?

Afinal, a cisão por decreto vai prejudicar ou beneficiar a Microsoft hegemônica? Consultores e investidores estão divididos. Metade sustenta que o martelo da Justiça americana patrociona a criação de duas gigantes globais no lugar de apenas uma. A outra metade entende que a Microsoft, separada em duas canoas, perderia os ganhos da sinergia para negócios tangidos pela convergência tecnológica, operacional e mercadológica.
Em monobloco, a Microsoft espera faturar, este ano, US$ 23 bilhões.

Aumento de 14% sobre o ano passado. A divisão de sistemas operacionais, que formaria a empresa tipo Windows Plataforms, avança para US$ 10 milhões, redondão. A divisão de softwares aplicativos, vulgo Productivity Applications (liderados pelo Office), espera faturar US$ 9,5 bilhões.

Produtos de Internet e negócios de megamídia podem responder por mais US$ 3,5 bilhões. Onde alojar esta terceira divisão, de grande potencial de mercado? Criando uma terceira Microsoft, à frente do bisturi do juiz Thomas Penfield Jackson?

Duas certezas, por enquanto. Primeira: Bill Gates ainda não jogou a toalha e diz pela Internet que não pretende entregar a rapadura digital a um veredicto de primeira instância. Segunda: o bug da legislação antitruste, pinçada de 1896, já produziu nos ativos da vasta comunidade de 3,1 milhões de acionistas da Microsoft um prejuízo coletivo de US$ 294 bilhões (valor de mercado de maio/2000 versus maio/1998).

QUEBRA DO MONOPÓLIO – Os que apostam nas vantagens da cisão da gigante tomam como paradigma a quebra judicial do monopólio privado da telefonia americana, exercido até 1982 pela tentacular American Telephone & Telegraph (AT&T). Esta valia US$ 61 bilhões antes do desmembramento em oito empresas independentes.

Em apenas dois anos, as oito empresas em bloco já estavam valendo US$ 82 bilhões. Em maio, a heráldica família AT&T, ampliada agora para 14 empresas, totalizava um valor de mercado de US$ 871 bilhões. Que tal? A patriarca AT&T, isoladamente, vale US$ 114 bilhões. A nova cabeça da dinastia é a Lucent, cotada na semana passada em US$ 212 bilhões. A SBC Communications contenta-se com US$ 155 bilhões.

Acima de US$ 70 bilhões cada uma navegam a Bell Atlantic, a Vodaphone AirTouch, a GTE, a Bell South...

Referência: em 5 de junho, a General Motors, maior corporação industrial do planeta e da História, valia US$ 67 bilhões. Pode?

Contramão
O desmembramento compulsório da Microsoft tromba de frente com megafusões voluntárias das empresas de datacom e telecom. Por dentro e/ou ao largo de marcos regulatórios nacionais.

Pelo padrão
A economia em rede faz da conquista do padrão (ou da compatibilidade tecnológica) a alma do negócio. Daí a espaventosa valoração de mercado das três maiores titulares de padrão: Microsoft, Cisco, Intel.

Radical
Desmembramento voluntário e silencioso foi o da Asea-Brown Boveri, do alto da megafusão da gigante sueca com a gigante suíça. Ela funciona, hoje, no formato de unidades de negócios autônomas. Nada menos de 1.214 unidades.
E o que dizer da IBM? A Big Blue só não foi a pique porque se desmembrou em 12 baby-blues. Sob o efeito ODD – outsourcing, delayering e downsizing.


Jornal do Commercio
Recife - 15.06.2000
Quinta-feira