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CULTURA
Bibliotecas precisam modernizar para viver

por Carol Almeida

O maior problema cultural do Brasil é que, por aqui, a cultura sempre é o último dos problemas. Pode-se até esperar que, desta frase por diante, se teçam comentários políticos, críticas sociais e outros tópicos tão comuns no discurso do País. Mas o problema cultural do Brasil está há 500 anos na periferia das prioridades porque ninguém ensinou que cultura não é supérfluo. Poucas são as pessoas que levantam voz para pedir, com muita persistência, um pouco de atenção nesta área. Talvez seja por essa displicência que um dos maiores exemplos de centro cultural, a biblioteca, esteja se transformando gradualmente, ao menos em Pernambuco, em instituições do passado.

Passado porque as informações encontradas são velhas, porque as páginas já estão muito mal tratadas e porque ninguém tem dinheiro que chegue para comprar edições recentes e atualizadas, contratar profissionais experientes e adquirir novos bens materiais, tais como um teto novo para a Biblioteca Municipal de Casa Amarela ou uma sala de arquivo sem goteiras para a Biblioteca de Afogados. Desde que Jarbas Vasconcelos assumiu o governo do Estado, foi decretado que não poderia mais haver contratação de pessoal e nem compra dos chamados ‘materiais permanentes’ (o que inclui livros). Mas, para quem freqüenta as bibliotecas do Estado, nada disso é novidade. Como sempre, sobra boa vontade dos funcionários e faltam meios concretos de realizar todos os projetos que as bibliotecas desenvolvem.

No entanto, ao contrário de museus, por exemplo, as bibliotecas têm uma enorme vantagem: o público precisa delas. Seja para fazer o trabalho escolar de ‘copia’ e ‘transcreve’, seja para os pesquisadores. Isto é, mesmo sem as condições ideais, é difícil encontrar uma biblioteca vazia. Muito pelo contrário, elas geralmente estão cheias de estudantes por todas as mesas. Só que poderiam atender muito mais.

Tudo porque a biblioteca passa agora a assumir uma identidade que, apesar de sempre ter existido, nunca pesou tanto em seu conceito. De centro cultural, ela transforma-se quase exclusivamente em um centro educacional. Mais de 90% das crianças e adolescentes que freqüentam todo dia a apertada Biblioteca Municipal de Casa Amarela procuram as salas de estudo (com mesas de plástico e cadeiras de bar) para transcrever trabalhos escolares. Suas fontes são livros didáticos, de onde eles copiam as informações e, pacientemente, as escrevem em seu caderno num mecanismo automático.

OS SEM-VERBA – Quando perguntada sobre a sessão de literatura brasileira, uma das funcionárias da biblioteca de Casa Amarela indica uma prateleira. Nela, ‘jaz’ apenas uma coleção que a Editora Abril publicou na década de 80, chamada Literatura Comentada, série doada na época para várias instituições. O que deveriam ser romances, contos e poesias, são na verdade finas edições didáticas sobre os mais conhecidos autores nacionais. Na prateleira de baixo, alguns escassos exemplares de doações em literatura (não comentada). “A situação é difícil, não temos sequer um computador para trabalhar aqui. E, mesmo assim, a sala de estudos está sempre cheia”, garante Verônica Farache, diretora da biblioteca de Casa Amarela.

A situação é semelhante na biblioteca municipal de Camaragibe. Com um acervo de cerca de oito mil livros, a casa ao lado do Mercado Público funciona quase somente do trabalho de estagiários. Na manhã da última sexta-feira, havia somente um funcionário e mais quatro estagiários no local.

“Nosso maior problema é a carência de pessoal, mas isso pode ser otimizado com o melhor aproveitamento dos profissionais da casa”, explica o Secretário de Educação de Pernambuco, Éfrem Maranhão. Sobre a aquisição de novos livros, o secretário admite “dá para comprar livros, mas de outras formas que não com o dinheiro do Estado”. As formas às quais ele se refere ele são atividades que as bibliotecas promovem desde o simples serviço de um xerox no local até a locação de salas para palestras e cursos. É desta forma, aliás, que a maior biblioteca do Estado sobrevive. A Castelo Branco, mais conhecida como ‘a do Parque 13 de Maio’, mantém seu acervo renovado através de doações e da compra de alguns livros recentes mais procurados pelos sócios.

Com prateleiras de livros que preenchem todo o espaço térreo do edifício, a Biblioteca Castelo Branco guarda um universo de informações subestimado até pela população que já conhece o local. Apesar das edições não serem exatamente novas, a biblioteca oferece a melhor opção em literatura de Pernambuco. Fora a coleção aberta ao público, o prédio guarda ainda uma sala com obras raras, visitada somente depois de alguns protocolos. Nela, estão livros como o Manual de Confessores e Penintentes, de 1560 (o mais antigo volume da biblioteca) e uma edição do século XVII de Os Lusíadas, de Camões. Raridades que se escondem em um universo de riqueza cultural pouco conhecido pela população.

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Jornal do Commercio
Recife - 15.08.2000
Terça-feira