
CULTURA II
Um futuro
que tem tudo para dar certo Assim como qualquer instituição pública,
as bibliotecas são dependentes de um sistema superior
que coordena as atividades e diretrizes gerais dessas
instituições em todo o Brasil. O que nas demais
atividades públicas seria um empecilho burocrático, no
caso das bibliotecas públicas é vital. O Sistema
Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP) funciona desde
1992, com sede da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro
e, nestes oito anos de funcionamento, é uma das poucas
fontes de energia que abastece o ânimo dos
bibliotecários. Suas premissas consistem em tornar as
bibliotecas como ponto de referência de uma comunidade e
ajudar essas instituições através de cursos promovidos
pelas chamadas bibliotecas centrais (no caso de
Pernambuco, a central é a Castelo Branco).
Nosso objetivo é
mostrar que as bibliotecas têm um acervo vivo,
explica Sandra Domingues, diretora do SNBP. O desafio na
verdade é tornar este acervo vivo. Sem
muitos recursos (ou quase nenhum) para comprar sequer uma
revista, muitas bibliotecas públicas dependem das
doações de uma comunidade que desconhece muitas vezes a
existência delas. Na biblioteca de Afogados, a
disposição dos exemplares ainda não é muito
organizada, mas é lá onde os estudantes ainda podem
tentar ultrapassar a barreira do consumo didático. Entre
um exemplar e outro da literatura brasileira, a pessoa
pode até achar O Triângulo das Águas, do alternativo
Caio Fernando Abreu, ou na sessão estrangeira,
Histórias Proibidas Para Nervosos, de Alfred Hitchcock
ou uma edição com capa dura de Histórias
Extraordinárias, de Edgar Allan Poe.
A criação de
bibliotecas populares me parece uma das atividades mais
necessárias para o desenvolvimento da cultura
brasileira. Não que essas bibliotecas venham a resolver
qualquer dos dolorosos problemas de nossa cultura, mas a
disseminação, no povo, do hábito de ler, se bem
orientada, criará fatalmente uma população urbana mais
esclarecida. A afirmação é de 1939 e foi dita
por Mário de Andrade. Na época, o escritor devia
imaginar que a tal população urbana realmente pudesse
ter a biblioteca pública como um pólo, um lugar onde se
marcassem encontros. Assim como naqueles filmes
estrangeiros em que as bibliotecas se parecem mais com um
santuário intelectual, do que com prateleiras
enferrujadas cheias de livros velhos. Se o objetivo do
Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas vingar, quem
sabe Mário de Andrade se torne um profeta.
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