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ARTES PLÁSTICAS
Rodrigues põe Pernambuco nos eixos

por Luiza Modesto
ESPECIAL PARA O JC

Além das chuvas, as primeiras semanas de agosto têm sido agitadas em termos de exposições de artes plásticas. A high season chegou com todas as cores, formas, estilos e linguagens, revelando temas, propostas e muita criatividade. A Rodrigues Galeria de Artes aproveita o ‘tempo bom’ e organiza, de amanhã até dia 31, a uma coletânea reunindo sete artistas pernambucanos de renome, todos da chamada geração 70/80.

A exposição chama-se Eixos e inclui trabalhos diversificados, porém tendo a linha da contemporaneidade unindo a todos. Com dois artistas pernambucanos residentes em Paris – Dulce Araújo e Sérgio Bello e os outros cinco – Eudes Mota, Flávio Gadelha, José Patrício, Luciano Pinheiro e Rinaldo – que não trocaram de endereço, todos têm seus talentos reconhecidos nacionalmente.

Dos que permanecem na terrinha, somente Eudes Mota que anda pensando em viver metade do ano em Nova Iorque e a outra aqui. Isto porque seus objetos tridimensionais, criados em madeiras do século 18 e 19, encantaram representantes da galeria novaiorquina Neuhoff Gallery, representante exclusiva de suas obras nos Estados Unidos.

O nome Eixos, aliás, foi escolhido justamente para abranger o caráter de internacionalidade da mostra, que, mesmo com ‘escala’ apenas no Recife, mais precisamente no Bairro de Torreão, não deixa de ser do mundo, já que o talento de alguns deles extrapolaram as fronteiras domésticas e foram parar em Paris e Nova York.

Sérgio Bello é um bom exemplo disso. Em 1970, ele juntou seus pincéis e rumou para a França. Pensou ficar dois anos, até concluir curso de especialização. Terminou ficando por lá. E hoje, volta depois de 17 anos de exílio deliberado.

O seu afastamento aconteceu por sua arte ter sido censurada. O motivo do veto foi o erotismo de dez litogravuras, frutos de vasta pesquisa realizada em livros egípcios, gregos, hindus, iranianos, chineses, etc. Indignado com a percepção deturpada do seu trabalho, Sérgio achou melhor se excluir da cena local e investir suas energias e criatividade no mercado parisiense.

Com Gritos do Século ele retorna com protagonistas de bocas escancaradas, exercitando um protesto mudo, aumentando ainda mais o efeito dramático das telas. Belas e curiosas, elas lembram cenas fortes de filmes, em que, na hora ‘h’, o diretor propositalmente retira o som. Isso tudo com linhas e cores da arte pop e muita dialética. “Eu queria retratar os gritos dos povos oprimidos, desde os índios até os croatas. Minha idéia era mostrar os horrores dos homens de maneira dialética. O feio revelado com beleza, através das cores.fortes e alegres. São as atrocidades humanas, retratadas sem tristezas, com muita exasperação nas cores”, explica.

No seu meio artístico em Paris sua arte é classificada como Belle et Rebelle, em puro portugês: belo e rebelde. Ansioso, esbanjando energia, ele próprio se define como a dialética em pessoa. “Ao mesmo tempo que sou alegre, bem-humorado e fanfarrão, minhas obras são sérias, chegando a ser tristes”, confessa.

Eudes Mota, que dividiu a vontade de trocar Recife por Paris, na década de 70 junto com Sérgio, participa em Eixos com uma série de tridimensionais feita a partir de portas de séculos passados, provenientes provavelmente da Mata Atlântica, desprezadas pelos projetistas das revitalizações de bairros antigos. Com seus objetos com cara de arte medieval e ‘janelinhas’ góticas lembrando a catedral de Saint Patrick, em Nova York, Eudes reafirma o seu ponto de vista artístico com elegância e rusticidade.

Ganhador do maior prêmio do I Salão de Artes Plásticas do Museu de Arte Moderna da Bahia (Mam-BA), Eudes, juntamente com oito artistas, foi convidado pelo curador Heitor Rey para expor na Liberty Street Gallery, no World Financial Center, lower Manhattan, em Nova York. Algum tempo depois alguém da Neuhoff Gallery veio conhecer seus trabalhos in loco. “Nova York não é Recife. Para acontecer leva mais de 10 anos. De toda maneira é uma oportunidade muito boa ter meu trabalho na capital mundial das artes e girando outras por outras cidades através da Neuhoff”, diz.

Serviço:

Eixos – Rodrigues Galeria de Artes – R. Othon Paraíso, 430, Torreão. Fone: 241.3358

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Jornal do Commercio
Recife - 15.08.2000
Terça-feira