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Brasil e México Continua repercutindo no mundo inteiro, sobretudo na América Latina e Estados Unidos, a vitória de Vicente Fox Quesada nas eleições presidenciais mexicanas. O México é governado desde 1929 pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI, pretenso herdeiro da Revolução Mexicana), que conseguiu criar ali uma ditadura perfeita (ideal que nossos militares não conseguiram com a Arena); dominando a máquina partidária e a política do país sem fechar o Congresso, permitindo uma vida cultural intensa e praticando uma política externa das mais avançadas do mundo; mantendo, contudo, sob rédea curta sindicatos, movimentos trabalhistas, tentativas de mudanças na política interna, e permitindo uma corrupção generalizada. Como aconteceu com a Democracia Cristã na Itália, que dominou aquele país durante uns 40 anos e terminou afogada no mar de lama que ela mesma contribuíra para criar, o PRI termina finalmente com seus dias contados. Em 1º de dezembro, o novo presidente, do Partido de Ação Nacional (PAN), toma posse. Em entrevistas concedidas a órgãos da imprensa brasileira, Fox se mostra otimista com as perspectivas da América Latina para o século que se inicia em janeiro: O século 21 será da América Latina. Na política interna, ele combate o revanchismo e quer aproveitar os quadros administrativos formados pelo PRI. Na política externa, tem propósitos claros quanto à integração continental latina, principalmente entre seu país e o Brasil: México e Brasil precisam construir um futuro juntos e com todos os nossos irmãos latino-americanos. Diz que buscará diminuir a dependência de seu país em relação ao gigante vizinho, que absorve 80% de suas exportações. Ele não correu logo para Washington, como seus antecessores e os governantes da AL em geral. De 6 a 11 deste mês, o presidente eleito visitou o Brasil, Chile, Argentina e Uruguai. Para ele, no século que termina, a AL reconheceu seus problemas e criou formas para superá-los; agora, começa a pô-las em prática. Desenvolvimento com distribuição de renda é a sua meta. Não dá prioridade à Alca (Associação de Livre Comércio das Américas), patrocinada pelos EUA, preferindo dar força ao Mercosul: Vamos dedicar muito tempo e estaremos muito comprometidos com o Mercosul. Claro que ele não tem nada contra os EUA. É empresário e foi presidente da Coca-Cola no México. Como muitos de seus antecessores, estudou em universidades americanas. Nega que os EUA não apreciem suas idéias em relação à integração com o Brasil e a AL (o México forma, com os EUA e o Canadá, a Nafta, uma associação de livre comércio), pois os americanos devem compreender que o desenvolvimento da América Latina é também o desenvolvimento dos EUA. Fox vai mais longe. Ele ambiciona não somente fazer um acordo de livre comércio, mas formar uma integração econômica entre seu país, Chile, Brasil e Argentina, as principais economias da AL. Acredita, inclusive, que uma união de forças entre o Brasil e o México pode criar um foco de poder nas Américas mais independente da diplomacia e dos interesses dos EUA. O que é do maior interesse para nós. O esforço que o Brasil tem feito, na última década, para integrar-se ao comércio mundial com vantagem e para quebrar as peias de uma estatização ampla, não tem encontrado uma contrapartida de apoio dos EUA, que pregam livre comércio mas protegem sua economia taxando excessivamente nossos principais produtos de exportação. Os EUA também não vêem com bons olhos o Mercosul, pretendendo queimar etapas para uma rápida consolidação da Nafta. Devido à crise por que passa nosso mercado comum, têm diminuído as pres sões. O futuro presidente do
México propõe política semelhante à do presidente
Fernando Henrique Cardoso, quando defende o aumento
imediato de cooperação com o Mercosul e a União
Européia. Mas ele quer uma real globalização
comercial, que atenda aos interesses de seu país. Sem
enquadrar-se em filosofias ou ideologias, como
neoliberalismo (ao contrário da maioria dos governantes
latino-americanos), diz acreditar no mercado livre,
mas com responsabilidade social, com intervenções
seletivas temporárias do governo, quando o mercado não
resolve questões que interessam a toda a sociedade:
Não vamos deixar somente ao mercado a condução
do desenvolvimento e a distribuição da renda. O sábio
é usar a inteligência e o talento da sociedade, e do
governo, para fazer crescer a economia e distribuir a
renda. Nosso governo tem o que aprender com Fox. A
distribuição da renda no Brasil continua vergonhosa e
humilhante. |
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