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O homem de três séculos

por Orlando Morais*
ESPECIAL PARA O JC

Todo o Brasil, especialmente Pernambuco, chora a perda de seu grande e inesquecível filho, Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho, falecido no dia 16 de julho. Poderíamos chamá-lo o homem dos três séculos, pois, nascido a 22/01/1897 (século XIX), viveu ao longo do século XX e veio a falecer nos albores do século XXI.

Precisamente no domingo, data de sua morte, tivemos a oportunidade de ler seu último artigo – Exclusão da classe média – em que, como sempre, sua palavra cheia de sabedoria, clareza e emoção, nos transmitiu a idéia de que a perda do sentimento de nacionalidade está diretamente correlacionada com a desnacionalização da nossa economia e com a invasão de empresas estrangeiras, dando a entender que nós, brasileiros, somos incapazes de cuidar de dirigir e de produzir. E concluiu, dizendo que tudo isso promoveu a exclusão da classe média do centro das discussões econômicas.

Era assim o querido e saudoso amigo pernambucano. Na defesa dos seus ideais, que coincidiam com os das classes mais carentes e desprotegidas, não hesitava em defender as grandes causas públicas.

Ele, que escreveu em sua vida jornalística, mais de 3.600 artigos, fez o seguinte desafio, quando exercia o cargo de presidente da Associação Brasileira de Imprensa: “Quero que alguém encontre nos artigos que escrevi uma só palavra que não tenha sido em defesa do Brasil”.

Preciso é recordar que seus opositores, na campanha de 1947, a Governador de Pernambuco, chegaram a retirar-lhe um ano de mandato, com os famosos recursos da Justiça Eleitoral. Sobre o assunto, o saudoso jornalista Andrade Lima Filho, afirmou em seu livro História amena de uma campanha, o seguinte: “O TRE resolveu, há alguns minutos, diplomar Barbosa Lima, simplesmente porque, depois de 365 dias de somas e subtrações de votos, de bota e tira, chegou à conclusão de que Barbosa Lima ganhou nas duas apurações, isto é, nas duas fases – na apuração e na depuração” (pág. 244, ed. 1948).

Como escritor, notabilizou-se com sua obra Documentos Históricos sobre a Comarca do São Francisco, quando defendeu “o direito de nosso Estado à posse dos 140 mil quilômetros quadrados, arrebatados de Pernambuco por Pedro I, pelo crime de ter se insurgido contra a dissolução da Assembléia Constituinte de 1823, com a conseqüente outorga de uma Carta Política imposta pelo Imperador” (edição 1951). A propósito, consta da vigente Constituição de Pernambuco, no Ato de sua Disposições Constitucionais Transitórias o art. 51, do seguinte teor: “O Estado cuidará da preservação do seu direito ao território que correspondia em 1824, à Comarca do São Francisco, valendo-se, se necessário, da ação cabível perante o Supremo Tribunal Federal”.

Sua conferência A Revolução Praieira, pronunciada no Instituto Histórico Brasileiro, em 1949, é outro brilhante trabalho, quando teve a oportunidade de analisar seus aspectos políticos e sociais, registrando a figura de Nunes Machado que, em 1848, “sacrificou sua vida à causa da autonomia de Pernambuco”.

Além de presidente da Academia Brasileira de Letras e da Associação Brasileira de Imprensa (neste último cargo há mais de 20 anos), exerceu o dr. Barbosa Lima Sobrinho importantes cargos políticos, como Governador de Pernambuco (período 1947/1950), deputado federal, representando o povo pernambucano em três legislaturas e presidente do Instituto do Açúcar e do Álcool (período 1938/1945).

Assinalemos, ainda, que foi candidato a Vice-Presidente da República, tendo na chapa como candidato a Presidente o não menos saudoso deputado Ulysses Guimarães. Era a chamada anticandidatura, pois, sabíamos que os candidatos eleitores seriam os que compuseram a chapa oficial elaborada pelo Planalto.

Foi ele, ainda, quem, na qualidade de Presidente da ABI, tendo ao seu lado o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, entregou solenemente ao presidente da Câmara dos Deputados o pedido de impeachment do Presidente da República, Fernando Collor, em 1992.

Para concluir, lembramo-nos das vezes em que, em seu gabinete oficial do Governo de Pernambuco, conversávamos sobre suas defesas perante o Tribunal Superior Eleitoral (eram na realidade brilhantes), não só como candidato ao cargo de Governador de Pernambuco, mas também como advogado de palavra fácil e vibrante.

* É advogado, professor universitário e ex-presidente do Tribunal de Contas de Pernambuco

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Jornal do Commercio
Recife - 28.07.2000
Sexta-feira