
O Brasil passado em revista pelo Homem do Século A firmeza nas posições sempre
foram uma tônica nas entrevistas que o jornalista e
acadêmico Barbosa Lima Sobrinho deu ao longo de sua
vida. Mais recentemente, em dois momentos o decano da
Imprensa e das Letras do Brasil foi solicitadíssimo: no
processo que culminou com o impeachement do presidente
Fernando Collor de Mello, do qual foi o primeiro
signatário, e ao completar 100 anos.
Em entrevistas
concedidas a jornais e revistas como Veja, Manchete,
Imprensa, Best Views e jornais como O Globo, Folha de S.
Paulo e o Estado de São Paulo, de onde foram extraídos
as perguntas e respostas da seguinte entrevista
coletiva, Barbosa Lima Sobrinho, com a lucidez de
sempre, traçou um amplo painel da vida brasileira no
século 20, rememorou os tempos da juventude, quando
saía do Recife até Goiana em caminhadas com o amigo
Múcio Leão.
Privilegiada
testemunha da história, viveu os momentos de liberdade e
de exceção do primeiro século da República. Para ele,
o maior político que conheceu foi o presidente Getúlio
Vargas. Depois de lutar pela redemocratização do país,
o jornalista entrincheirou-se em cruzadas contra a
corrução e, mais ultimamente, contra a privatização
das estatais brasileiras, não se importando em estar
contra a corrente. Para Barbosa Lima Sobrinho, mais
importante de tudo era lutar pelos seus ideais e pela sua
pátria amada, Brasil.
BEST VIEW O
senhor foi um dos raríssimos políticos brasileiros que
não enriqueceu, pois aqui até os políticos mais
obscuros, os vereadores das localidades mais modestas,
acabam ficando ricos.
BARBOSA LIMA SOBRINHO Eu vivo dos
ordenados que recebo. Não enriqueci de forma nenhuma, e
só consegui construir uma casa boa porque na época eu
consegui somar o salário que o Jornal do Brasil me
pagava (e pagava bem, pois eu era o redator principal),
com o subsídio de deputado federal. Com esse total eu
comprei o terreno e construi a casa com financiamento do
Instituto da Previdência, que eu paguei durante vinte
anos.
VEJA A política não lhe deu nenhuma
chance de ficar rico?
BLS Na vida pública perdi foi o melhor
ordenado que já ganhei, o de redator principal do Jornal
do Brasil. Com ele economizei para comprar o terreno de
minha casa, construída com financiamento há sessenta
anos. Basta dizer que, quando saí da presidência do
Instituto do Açúcar e do Álcool, IAA, em 1946, para
assumir o mandato na Assembléia Constituinte, tive de
tomar um empréstimo para comprar roupa. Não que, no
IAA, faltasse oportunidade para ficar rico. Chegamos a
ter muito dinheiro em caixa. O dinheiro do instituto,
como o de todos os outros, deveria ser depositado no
Banco do Brasil, com juros de 6%. E não faltavam bancos
particulares oferecendo mais vantagens. Por isso, quando
escrevi meu relatório final no IAA, botei em capítulo
separado que, no meu período, todo o dinheiro esteve
rigorosamente no Banco do Brasil.
VEJA Por quê?
BLS Isso é uma coisa que eu acho que vem
de minha altivez natural. Não atribuo a nada mais do que
isso ter passado incólume pelos cargos que exerci, não
tendo senão os honorários da função. Quando fui
governador de Pernambuco, a situação foi ainda mais
difícil. Todas as despesas do palácio saíam dos meus
vencimentos. Tinha de alimentar a família e o pessoal da
casa. Minha mulher, que tem espírito de caridade, achou
de incluir também os jardineiros e o resto da equipe.
Não havia sobras. Ao sair de Pernambuco, em 1951,
cheguei ao Rio com uma necessidade tão urgente de
compensação que fui atrás de uma vaga de professor,
para a qual fora nomeado por Anísio Teixeira em 1929.
Mas para isso tive de regularizar minha situação de
professor. Por causa dos outros cargos que fui ocupando,
nunca exercera o magistério. Só em 1956, cinco anos
depois de deixar o governo, comecei a dar aulas na Escola
Amaro Cavalcanti. Tenho o orgulho de dizer que nunca tive
na vida uma sinecura. Sempre fiz questão de exercer os
cargos que tive.
VEJA Por que desistiu da política?
BLS Eu deixei a política depois de
perder em Pernambuco a campanha de 1962 para o Senado,
concorrendo com José Ermírio de Moraes, que tinha uma
fortuna. Tive uma votação até expressiva, quase
200.000 votos, o que lá, na época, era muita coisa.
Resolvi largar a política nessa ocasião, porque nela a
gente depende muito de recursos particulares. Não pode
deixar de haver uma dependência, portanto, entre o
deputado e as pessoas que financiaram a sua eleição.
Cada vez eu tinha menos recursos. Decidi que era hora de
me dedicar à vida de jornalista e escritor.
O GLOBO O senhor é mais carioca ou
pernambucano?
BLS - Vivi mais tempo aqui do que lá. Vim com
20 e poucos anos, quando desisti da política. Aqui,
nunca concorri porque era outro ambiente. Trabalhei por
causas cariocas também, mas a vida política daqui não
me seduzia.
FOLHA Nos últimos cem anos, qual foi, na
sua opinião, o melhor período de vida dos brasileiros?
BLS Isso é muito relativo. Em todos os
períodos, houve sofrimento. Agora, eu achei que o pior
período para os brasileiros foi o regime militar, após
1964.
FOLHA Por quê?
BLS Eu esperava que o Exército
defendesse os interesses fundamentais do Brasil. E, a
começar por Castelo Branco, foi uma fase de entrega
total ao estrangeiro.
O GLOBO O senhor foi preso?
BLS - Atravessei todo esse século sem deixar de
tomar as atitudes que deveria, mas nunca cheguei a ser
preso (risos). Acho que me respeitavam, achavam que teria
repercussão.
BEST VIEW Qual é o segredo então desta
sua prodigiosa longevidade? Seria a atividade intelectual
ininterrupta, que mantém a mente alerta?
BLS Eu acho que o trabalho é crucial.
Mas essa coisa da longevidade é curiosa. Meu pai morreu
com 53 anos, minha mãe não passou dos 64 anos e eu tive
uma irmã que chegou aos 97 anos, sendo que eu mesmo
estou com 98 anos e tenho outra irmã que está com 92
anos. É um mistério, pois é um casal que teve vários
filhos e somente alguns alcançaram a longevidade.
O GLOBO Aos 100 anos, do que o senhor se
arrepende?
BARBOSA LIMA A idéia do arrependimento
importa na idéia de deixar de agir. Enquanto tiver vida,
possibilidade de agir, defenderei meus ideais.
ESTADO Qual é a sensação de completar
100 anos?
BLS Nunca levei muito a sério essa
questão de idade. Tomei todas as atitudes que deveria
tomar em todas as idades e chego aos 100 anos ainda na
presidência da ABI, cargo para o qual fui eleito em
1978. E essa era a terceira vez que era eleito presidente
da Associação Brasileira de Imprensa, porque fui o mais
novo presidente da associação, quando tinha apenas 30
anos, em 1928. Depois, fui reeleito em 1930, o que me
permitiu fazer a fusão das três associações de
imprensa que existiam no Rio. Mas, para fazer essa
fusão, era preciso que todos nós nos convencêssemos de
que precisávamos renunciar aos nossos mandatos para
eleger um presidente comum. Elegemos, afinal de contas, o
Herbert Moses.
BEST VIEW O senhor praticou natação,
remo e futebol na juventude. É esse o segredo?
BLS Eu pratiquei todos os esportes que
podia até os 22 anos, inclusive andar a pé. Eu fiz
marchas que ficaram assinaladas na época, como uma
marcha de um dia de Olinda até Goiânia, numa distância
de cerca de 60 kms.
O GLOBO O
senhor viveu muitas frustrações?
BLS Uma delas foi no Governo Castelo
Branco. O Exército se colocava a serviço de Roberto
Campos. Não tenho dúvida de que foi o Governo mais
entreguista do Brasil.
VEJA Faz mal, na sua idade,
escandalizar-se?
BLS Eu perco o sono. Tenho de me
controlar para escrever meus artigos. Mas, não sei por
que milagre, a minha vida continua, para que eu continue
a defender as teses que sempre defendi.
FOLHA O senhor critica muito a falta de
patriotismo dos governantes brasileiros. Essa é a causa
dos principais problemas do País?
BLS O Brasil tem problemas graves para
resolver. O povo brasileiro precisa acordar. Como elegem
pessoas que lutam contra o seu futuro? A responsabilidade
total está com o eleitorado. E eu acredito que o
eleitorado algum dia despertará para escolher
brasileiros que lutem pelo progresso do país.
FOLHA Qual é o problema dos partidos
políticos brasileiros?
BLS Em 1968, no livro Presença de
Alberto Torres, escrito para reagir contra o entreguismo
dos militares, eu disse que, no Brasil, só havia dois
partidos: o partido de Tiradentes, defendendo os
interesses do Brasil, e o partido de Joaquim Silvério
dos Reis, traindo os interesses do Brasil.
VEJA Houve algum presidente, na História
do Brasil, que tenha sofrido tantas acusações de
corrupção como o presidente Collor?
BLS No tempo de Artur Bernardes houve o
escândalo da Revista dos Tribunais, que conseguiu
regalias e verbas consideráveis para montar uma
tipografia. A largueza de verbas escandalizou o país e
criou um movimento de protesto. Houve punição e a
revista desapareceu. Em nenhum país do mundo, porém, um
governante recorreu a fantasmas para se sustentar.
Pessoas sem CPF e sem carteira de identidade tinham conta
corrente e financiaram o presidente do Brasil. Como
explicar isso? Saímos da vida terrena para uma vida de
verdadeiros mitos. De todos os escândalos de nossa
História, este talvez seja o maior.
VEJA Há quem compare este período com o
final do governo Getúlio.
BLS Naquele tempo houve manifestações
das classes armadas, não das civis. Hoje é o inverso.
Há quarenta anos, eu conversava com o deputado Dias
Leite, em Pernambuco, e ele dizia que o Getúlio estava
perdido. Respondi que ainda havia uma solução: o
suicídio. Ele se espantou. "O Getúlio? Um
sibarita? Isto não está ao alcance dele." Mas
estava.
VEJA Por que o senhor resolveu encabeçar
o pedido de impeachment (do presidente Collor)?
BLS Há muito me convenci do envolvimento
do presidente com PC Farias. É um caso de irmãos
xifópagos. Collor e PC estão de tal maneira unidos que
não há meios de separá-los. A separação de irmãos
xifópagos é uma operação de alto risco. Convencido
dessa união perfeita, não pude recusar uma função que
considero cívica.
VEJA Qual foi o seu sentimento na hora em
que recebeu o convite?
BLS Tive a impressão de estar revivendo
1973, quando aceitei o convite da oposição para ser
candidato a vice-presidente da República. Para mim, o
cumprimento do dever ofusca todos os outros sentimentos.
Quando estou diante dele não costumo sentir nem vaidade,
nem alegria. Lembro que em 1948, quando assumi o governo
do Estado de Pernambuco, posto maior que atingi na vida,
no meu discurso dizia exatamente isso. Que eu sentia,
acima de tudo, a responsabilidade. No serviço da pátria
e da coletividade, não aceito aposentadoria.
BEST VIEW A classe política ainda tem
alguma credibilidade?
BLS De certo modo a classe política
está em crise, mas teve um momento favorável com os
processos contra os deputados da Comissão de Orçamento,
pois aí a reação do Congresso foi uma reação
louvável: ele tomou uma posição contra a corrupção e
cassou o mandato de deputados corruptos.
VEJA Pode-se comparar o atual movimento
contra a corrupção com o moralismo udenista da década
de 50?
BLS O moralismo da UDN era uma arma
política para chegar ao poder. Hoje o moralismo da
população é uma revolta real contra a corrupção e
todo este desmando. Afinal de contas, se viu que o
presidente não tinha outro objetivo senão o de
enriquecer.
VEJA Não é arriscado uma democracia tão
jovem enfrentar novidade tão grande?
BLS Claro que a situação do Brasil é
grave. A democracia está correndo perigo. Há riscos
porque tudo o que acontece no Brasil não chama só a
atenção da opinião pública civil, alcança também a
opinião militar. Tanto como nós nos escandalizamos, os
quartéis se escandalizam.
VEJA E a indignação militar (com
relação à corrupção, na época do Governo Collor) é
mais forte do que a civil?
BLS Nossa sorte é que os militares têm
a memória de como ficaram impopulares no governo. E, no
regime militar, não tivemos uma reação tão grande
contra a corrupção. A começar pelo presidente Castello
Branco. Ele era sério, mas pôs no ministério o
economista Roberto Campos, que estava em contato direto
com os interesses das grandes empresas, a tal ponto que
elas nem precisaram organizar esquemas paralelos de
influência. E chega-se até a compra da Light pelo
ministro Shigeaki Ueki, no governo Geisel. No caso, o
presidente era austero, mas o ministro deu mais de 400
milhões de dólares por uma empresa que, em dez ou doze
anos, reverteria de graça para o Brasil.
VEJA O senhor não acredita que, quanto
maior for o Estado, maior será a corrupção dentro
dele?
BLS Esse argumento em favor da
privatização é uma sandice. Nesse caso, para evitar
que a corrupção cresça, seria necessário evitar
também o crescimento do país. Não vejo o que o tamanho
do Estado tenha a ver com isso. Nos Estados Unidos, qual
será o tamanho real do Estado? As empresas privadas são
fiscalizadas por mais de cinqüenta comissões
especializadas. Se você acrescentar ao governo americano
essas comissões, verá que a presença pública nas
empresas, não é tão pequena assim. E no Japão, onde
há o Miti, ministério que supervisiona tudo na
indústria e no comércio? Nos Estados Unidos, a Nasa,
que botou o homem na Lua, é uma empresa pública. O
homem não chegou à Lua pela empresa privada.
MANCHETE O que o senhor pensa sobre as
privatizações?
BLS Essas privatizações, a meu ver,
são um erro, porque eu advogava totalmente a criação
das próprias entidades que tinham sido fundadas. Por que
privatizar a indústria elétrica do Brasil, no momento
em que ela se libertava do domínio estrangeiro?
Libertou-se do domínio estrangeiro, passou a dar lucro,
conseguiu iluminar bairros que não tinham até então,
nos domínios da empresa privada, luz elétrica, e quando
estava num regime de prosperidade, foram vendidas
novamente aos estrangeiros, para continuar com o
sacrifício do povo brasileiro.
VEJA O senhor não teme ficar sozinho
contra a privatização?
BLS A gente não tem medo de ser
reacionário. É claro que não vejo nada errado em
verificar quais estatais podem ser privatizadas, desde
que se faça a sua venda pelo preço mais aproximado
possível de seu valor real. Mas não é possível dar
quase de presente um patrimônio feito com sacrifício e
impostos. Senão, o próximo escândalo sairá daí. E
será o maior de todos.
O GLOBO O senhor aprova os métodos do
Movimento dos Sem Terra?
BLS Estão na defesa de seus interesses,
o que é legítimo. Não se consegue nada sem luta. Não
digo a luta física, deve ser uma luta de ideais. Se se
formasse no país uma opinião pública inteiramente
favorável às aspirações da pequena propriedade, não
tenho dúvida de que a reforma se imporia. A violência
dos sem-terra é uma atitude de desespero. Atitudes de
desespero eu não posso louvar. Acho que se deve procurar
caminhos legais, mas com veemência, decisões firmes.
MANCHETE O senhor se sente clamando
sozinho no deserto?
BLS Não, porque sei que todos os que
estão sendo prejudicados, toda massa que está sendo
posta à margem de tudo, me é solidária e a
solidariedade deles, para mim, é compensação
suficiente.
VEJA O que mais falta ao Brasil neste
momento?
BLS Auto-estima. Se quiser, pode chamar
de nacionalismo. Tenho sido escravo dessas idéias. Se o
capital japonês invade os EUA, meu coração fica
instintivamente do lado dos americanos. Agora mesmo,
procuro um editor interessado em publicar no Brasil a
mensagem de despedida de George Washington e o manifesto
do secretário do Tesouro Alexander Hamilton.
VEJA Para quê?
BLS Quando para os brasileiros verem
como, no século XVIII, os EUA tinham lideranças
políticas protecionistas, nacionalistas, que defendiam
abertamente os interesses do país sobre todos os outros.
Hamilton ignorava até as idéias econômicas de Adam
Smith, que estava no auge, porque as identificava com os
interesses da Inglaterra. Esta sempre foi minha batalha.
Quem hoje ainda se lembra da Oração aos Moços, de Rui
Barbosa? O maior perigo do Brasil é voltar a ser
colônia, desistir de ser metrópole. Um país precisa de
auto-estima.
IMPRENSA Ao longo da sua carreira, o país
passou por regimes de exceção, durante a ditadura
Vargas e depois durante a ditadura militar...
BLS Existiram outras exceções. Em
matéria de liberdade de imprensa a República fica
devendo à Monarquia. D. Pedro II sempre teve entre suas
preocupações principais a liberdade de imprensa. A
República nem sempre tem sido fiel aos seus princípios,
porque várias vezes tem criado dificuldades para o
trabalho da imprensa...
IMPRENSA Durante o período republicano
quais foram as fases mais difíceis para a imprensa?
BLS Com exceção do governo Bernardes,
tivemos, até 1930, bons períodos de liberdade de
imprensa. Foi uma fase muito boa para o Correio da
Manhã, por exemplo. Já Artur Bernardes exerceu censura
prévia à imprensa durante todo o período em que
governou, inclusive no Jornal do Brasil, em que era
obrigatória a presença do censor, que, todas as noites,
comparecia ao jornal e fiscalizava as matérias que iam
ser publicadas no dia seguinte.
IMPRENSA O senhor teve matérias suas
censuradas?
BLS Tive alguns artigos cortados, mas
quem escreve num regime de censura prévia já leva isso
em conta e acaba fazendo uma autocensura. Costumo dizer
que a censura tem pelo menos uma vantagem: serve para o
jornalista exercitar sua sutileza. Havendo censura, é
preciso encontrar uma forma diferente de dizer as coisas.
Escrever as coisas abertamente, desafiar a censura
frontalmente, para depois ser cortado, não serve ao
jornalista nem ao leitor.
MANCHETE Como é ficar casado com alguém
por 65 anos?
BLS Encontrei, realmente, uma esposa como
podia desejar. Uma esposa que se entendia muito bem
comigo e que me deu quatro filhos, que também
constituíram a alegria da minha vida. De modo que Maria
José - felizmente ainda está viva, graças a Deus - e
nós estamos festejando 65 anos de casados.
MANCHETE O senhor acredita em Deus?
BLS Acho que sempre acreditei em Deus.
Porque, afinal de contas, não praticava a religião, mas
não podia imaginar todo um mundo sem que houvesse um
criador. E foi a idéia dessa veneração a um criador
que me aproximou da religião.
MANCHETE O senhor é um homem que reza?
BLS Eu não rezo muito porque acho que
converti as minhas rezas em rezas patrióticas. E como
fico pensando dia e noite no Brasil, nos interesses do
Brasil, acho que isso prescindiu das rezas a um criador,
que foi o criador também do Brasil e que não pode
deixar de zelar pelos interesses do Brasil.
MANCHETE A sua vida sempre foi de lutas. O
importante é lutar?
BLS O importante é lutar. Indiferente é
o resultado. Porque o essencial não é, propriamente, o
resultado da luta. O essencial é o tema que a gente
desposou na luta que veio a travar.
MANCHETE Como vê o futuro do Brasil?
BLS De certa maneira eu nunca abri mão
do otimismo. Porque um país tão grande, por maiores que
sejam os erros que venha a cometer, nunca deixará de
alcançar o desenvolvimento que seus filhos esperam.
Sejam quais forem os desserviços de algumas gerações
que não chegaram a adivinhar, exatamente, que o futuro
do Brasil estava no seu autodesenvolvimento.
MANCHETE O que o senhor diria ao jovem de
hoje?
BLS Eu sempre detestei dar conselhos,
porque sempre achei que devia estar na formação de cada
pessoa esse sentimento de luta pelo Brasil, de concorrer
para sua prosperidade. É isso que eu posso desejar para
a mocidade. E que eles pensem como eu penso, que o dever
de cada um, de cada pessoa que nasceu no Brasil, é
trabalhar para o seu país, ao seu serviço e para sua
prosperidade, sempre.
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