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Escrever era uma forma de se corresponder com o povo

“Enquanto puder, não tenha dúvida de que manterei esses artigos, porque sinto que, de certa maneira, há uma correspondência com o povo brasileiro. É uma correspondência que me satisfaz imensamente. Só não posso evitar a aposentadoria da natureza, mas, voluntariamente, não me aposento”. Era desta forma que Barbosa Lima Sobrinho encarava o ofício de escrever para jornal, uma profissão que abraçou em 1921.

Quando deixou a procuradoria, em 1967, todos acharam que, finalmente, ele se aposentaria. “No dia seguinte, eu já estava na Biblioteca Nacional, reunindo elementos para a publicação de meus livros, sobretudo para A Presença de Alberto Torres, um livro fundamental, de 500 páginas”, declarou, certa vez em entrevista.

Barbosa Lima Sobrinho sempre foi um defensor da liberdade de imprensa. Não é à toa que ele escreveu um trabalho sobre o primeiro jornalista brasileiro, Hipólito da Costa. “Como não tinha liberdade no Brasil, ele publicava o jornal dele na Inglaterra. Chamava-se Correio Brasiliense. Publiquei um trabalho exaltando o seu esforço, sua capacidade. Ele lutou durante 14 anos, de 1808 a 1822, pela independência do Brasil. Tanto que, quando o Brasil declarou sua independência, ele encerrou a publicação de seu jornal”.

Além de escrever durante mais de sete décadas, Barbosa Lima Sobrinho era também um grande leitor. Sua biblioteca deve chegar a 40 mil volumes. “Foram livros que surgiram das minhas campanhas. Porque, toda vez que eu travava no jornalismo determinada campanha, eu tinha de me munir de livros para apoiar as campanhas que estava enfrentando. E, então, a biblioteca ia crescendo. E também por causa da minha atividade como escritor. Eu tenho até livros de contos e de literatura publicados”.

A paixão do jornalista e escritor, no entanto, era pelos romances. Segundo a esposa D. Maria José, ele chegava a ler de cinco a sete horas por dia. “Às vezes acordo à noite e não tenho outro meio senão ler. Não estou dormindo tanto quanto antigamente. Quando acordo às 4 horas da manhã, pode ter certeza que vou pegar os livros”, dizia.

“Uma das minhas fascinações foi Machado de Assis. Tenho cinco coleções completas do Machado de Assis. Tenho os livros novos e a edição completa da Garnier, a original, cerca de 20 volumes. Machado é uma velha paixão. De vez em quando, quando sinto que estou enferrujando um pouco, volto a Machado de Assis para desenferrujar. Leio todos os escritores, Jorge Amado, além dos meus companheiros de Academia. Porque temos lá Josué Montello, Antônio Callado, a própria presidente da Academia, Nélida Piñon, em quem votei. São vários companheiros cujos livros eu preso e figuro entre seus leitores mais assíduos”, confessava.

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Jornal do Commercio
Recife - 28.07.2000
Sexta-feira