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COMPORTAMENTO Meu pai é gay por Mona Lisa Dourado Ex-menino de rua adotado por homossexual conta que orgulha-se do pai, mas ainda sofre com o preconceito. Juristas e psicanalistas afirmam que é cedo para determinar as conseqüências desse tipo de situação para a formação da criança, mas deixam claro que não há nada que impeça os gays de adotarem crianças ou ficarem com a guarda de filhos de relacionamentos anteriores. Neste domingo, o estudante Edmilson (nome fictício), 19 anos, presenteará duas pessoas: o seu pai adotivo, Jurandir (nome fictício), 32, e o companheiro deste, Moacir (nome fictício), também considerado como pai. Com uma estrutura familiar diferente da maioria dos garotos de sua idade, Edmilson não vai deixar de comemorar o Dia dos Pais com alegria, talvez até maior do que a dos outros. Abandonado pela mãe aos cinco anos, junto com mais dois irmãos, não demorou muito para que Edmilson se drogasse e passasse a praticar pequenos furtos, até ser recolhido da rua por Jurandir e colocado num centro de reabilitação. Não aguentava mais sofrer, e ele foi a minha salvação. Para mim, ele é pai, mãe, irmão, amigo e protetor, porque foi ele que me deu a dignidade e a cidadania que eu não tinha, conta o estudante, que, atualmente, além de estar na 6ª série do ensino fundamental, faz cursos técnicos, trabalha para ajudar a manter a casa em que mora e sonha em prestar vestibular para Agronomia. Mesmo sendo filho de homossexuais, o que para muita gente pode ser uma situação inconcebível, o ex-menino de rua teve uma educação semelhante à de qualquer outra criança. Ele teve carinho quando precisou, mas também apanhou quando mereceu, recorda Jurandir. No que se refere à sua opção sexual, objeto da curiosidade de muitas pessoas, Edmilson faz questão de destacar que é heterossexual, tendo sido, inclusive, casado por algum tempo, embora confesse ter saído com outro homem apenas uma única vez, por curiosidade. A homossexualidade dos pais, admite, em alguns momentos se traduz em problemas, que, no entanto, têm sido contornados sem maiores conseqüências. No colégio, os meus colegas diziam em coro: ei, teu pai é gay, mas hoje já aprenderam a nos aceitar e respeitar, diz. Ele assume publicamente que o pai é homossexual, conta a nossa história e desafia qualquer um a discutir sobre o assunto, porque o que realmente importa para ele é saber que tem um lar e um responsável com quem contar. Se cada gay adotasse um menor abandonado como eu fiz, não tinha tanta criança se acabando por aí, completa Jurandir, orgulhoso. De acordo com o psicanalista e psiquiatra Cláudio Duque, situações como a de Edmilson e Jurandir, ainda que estejam ficando cada vez mais comuns, são uma novidade em termos de organização social, não existindo fundamentação teórica alguma para que se possa estudá-las, uma vez que a psicologia e a psicanálise se organizaram a partir do núcleo familiar convencional, constituído por um homem, uma mulher e os filhos. Por isso, não se pode afirmar com certeza que fugir a esse padrão é bom ou ruim, condenável ou não, uma tragédia ou algo sem grandes conseqüências. Eu creio, particularmente, que a família, tal como a conhecemos, como tudo no mundo, está fadada a mudar, mas ninguém sabe como estarão as relações daqui a 10 ou 20 anos, explica Duque. Existem alguns fatores, todavia, que, segundo os especialistas, parecem ser imutáveis, como a estabilidade no lar, o carinho, o amor, a consideração e a harmonia conjugal, elementos muito mais decisivos no desenvolvimento emocional e psíquico de uma criança do que a opção sexual de seus pais, sejam eles adotivos ou legítimos (no caso da guarda de filhos provenientes de relacionamentos heterossexuais anteriores). O que as pessoas são vai além de quatro paredes, pois, mais que hetero ou homossexuais, elas têm uma multiplicidade de papéis e responsabilidades sociais que as levam ou não a ter condições de cuidar de alguém, afirma o mestre em Psicologia Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Jorge Lyra. PRECONCEITO Qual seria a razão da estranheza, então, que os homossexuais e seus filhos tanto causam? Ocorre que, às vésperas da virada do milênio, a sociedade que diz se adaptar às mudanças que estão ocorrendo e se preparar para o que ainda está por vir continua a tratar alguns assuntos com reservas. Quanto ao comportamento sexual das pessoas, pode-se dizer que em muitos aspectos ele passou a ser encarado com naturalidade, mas, devido ao preconceito e ao falso moralismo ainda incorporado por muita gente, grupos como os dos homossexuais continuam encontrando sérias dificuldades para serem aceitos. Prova disso é o temor expresso por classes conservadoras a respeito da influência negativa que os pais homossexuais podem vir a ter sobre a sexualidade dos filhos. Se a lógica fosse tão linear assim, nenhum dos nossos 250 associados seria homossexual, já que todos têm pais hetero, avalia o presidente da ONG Os Defensores, de proteção aos direitos dos homossexuais, Alessandro Monte. Ele tem uma filha de nove anos, cuja guarda pertence à avó paterna, que, à época de sua separação da ex-mulher, era quem tinha as melhores condições financeiras e emocionais para proporcionar o crescimento saudável da menina. Minha ex-esposa estava desempregada e eu viajava muito, revela. Por outro lado, por mais que se defenda a capacidade dos pais homossexuais de criarem filhos, não se pode negar que a criança ficará exposta a constrangimentos imediatos. Infelizmente, não há como protegê-la da discriminação reservada a quem se atreve a romper os modelos socialmente impostos, a exemplo do que fizeram as mulheres desquitadas há 30 ou 40 anos atrás, quando abalaram os alicerces de uma instituição que parecia sólida e duradoura como era o casamento, condenando seus filhos a um estigma forjado pela irracionalidade do preconceito alheio. O sofrimento psíquico é inevitável por conta da incompreensão e discriminação daqueles que não toleram a diversidade. No entanto, para atenuá-lo, os pais devem ir estruturando os valores dos filhos aos poucos, para que eles lidem com as diferenças, sem que elas impliquem em desigualdade, afirma Jorge Lyra. Da mesma forma que a sociedade aprendeu a não mais pronunciar em voz baixa e de forma pejorativa expressões como mulher divorciada e filhos de pais separados, convivendo com um novo padrão familiar, composto por mulheres e homens divorciados e filhos vindos de diversos casamentos, constituindo surpreendentes quebra-cabeças familiares, pessoas como Edmilson e Jurandir acreditam que um dia esta mesma sociedade também irá aceitar abertamente os homossexuais e seus filhos, sem restrições. |
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