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BOM JARDIM II
Um roteiro para aventureiros

Conhecida como a Terra do Granito, por ser a única localidade no País que possui a pedra granito marrom imperial, Bom Jardim faz juz ao título, esbanjando paisagens naturais exóticas, margeadas por rochas de todos os tipos, formas e tamanhos. Separe pelo menos dois dias para um passeio pelo roteiro das pedras, que inclui muita diversão, descobertas e aventuras.

Logo na entrada do município, o visitante se depara com o cartão-postal da cidade, a pedra do Navio – na verdade, um conjunto de pedras de rara beleza arquitetônica, formando um bloco monolítico de 10 metros de altura, que se assemelha a uma nau (antiga embarcação). É de impressionar o perfeito eqüilíbrio encontrado pela natureza para esculpir as pedras, que parecem repousar umas sobre as outras.

Quem passa por ali, certamente, não resiste a tirar fotografias. O movimento de visitantes é tão intenso que a região em torno da pedra do Navio ganhou infra-estrutura para receber os turistas e curiosos, contando com uma via para circulação de automóveis, playground, quadra de areia, jardins com bancos e iluminação.

O local possui, também, uma escada de ferro que dá acesso à parte superior da pedra, de onde se tem uma vista primorosa da região. É lamentável, no entanto, verificar a falta de proteção ao monumento, permitindo a existência de pichações feitas por visitantes menos educados.

Doze quilômetros depois do trevo de acesso à cidade, já no distrito de Umari, encontra-se a próxima parada: a pedra Nossa Senhora de Lourdes. Formada por uma gruta encravada em diversos blocos graníticos, o lugar é um centro de devoção à Virgem, atraindo um fluxo regular de romeiros. Em 1814, foi construído, no abrigo natural, um santuário composto por um pequeno altar que acolhe a imagem de Nossa Senhora de Lourdes, onde, desde então, são realizadas missas aos domingos.

ADRENALINA – Para encarar os demais atrativos naturais de Bom Jardim, é preciso ter espírito aventureiro. Durante o inverno, o acesso aos pontos turísticos fica bastante prejudicado. O ideal é procurar um guia local e alugar um veículo do tipo off-road, como o jipe ou a Toyota. Esta última opção é encontrada facilmente pela cidade, sendo o principal meio de transporte da população. O aluguel de uma Toyota alongada, com capacidade para até 12 pessoas, fica em torno de R$ 50 por dia.

O passeio começa nas proximidades do centro. No sítio Baraúna, uma pequena trilha leva o visitante à pedra do Caboclo, de onde foram retirados, na década de 70, valiosos acervos pré-históricos, como urnas mortuárias, objetos e utensílios domésticos, atualmente em exposição no Museu do Homem do Nordeste, no Recife.

Cercados por muitas árvores, dois grandes blocos graníticos sobrepostos sobre outros pequenos blocos formam abrigos naturais e passagens, adquirindo formas das mais inusitadas. Mais trinta minutos de caminhada e os visitantes deparam-se com a chamada ‘barriguda’, conjunto de pedras côncavas que, quando chove, forma piscinas naturais.

No sítio Quati, a pedra do Índio é mais uma atração interessante. Apesar da propriedade ser privada, o acesso a turistas é livre. Para chegar até lá, passa-se por hortas, plantações de feijão e trechos cobertos por uma vegetação composta por cactáceas, trepadeiras e alguns arbustos. A área, assim como praticamente todo o município, é cortada pelo rio Tracunhaém, propício para o banho neste trecho.

Segundo os moradores do sítio, foram encontrados diversos objetos e ossadas humanas no interior da pedra, levando a crer que ela pode ter sido utilizada por grupos pré-históricos como abrigo e cemitério. Cuidado apenas com os insetos. Maribondos e abelhas podem atrapalhar o programa.

TREKKING RURAL – Os caminhos seguintes são percorridos, invariavelmente, a pé. Pelas estradas não passa nem a Toyota. Para se ter uma idéia: no período de estiagem, os 12 quilômetros que separam a barragem Pedra Fina do centro da cidade são percorridos de carro em vinte minutos, no máximo. Com as chuvas, a mesma distância pode consumir uma, duas ou mais horas de buracos, sacolejos e atolamentos.

Na Pedra Fina, um grande espetáculo aguarda os visitantes e compensa o sacrifício. A barragem voltou a sangrar depois de três anos de seca intensa.

Uma passarela dá acesso à torre de operação das comportas e às colinas que a circundam. Nas proximidades do sangradouro, os moradores costumam dividir espaço com as lavadeiras para pescar e tomar banho.

No distrito vizinho de Bizarra, vale conhecer o Engenho Palma, há mais de 100 anos em propriedade da família portuguesa Gayão. Já na sétima geração, o Engenho ainda está em atividade, sendo utilizado para a produção de cana e banana, pecuária de leite e corte. Suas instalações também estão em bom estado de conservação, o que garante um deliciosa volta ao passado. O conjunto arquitetônico é composto pela casa-grande, cocheira e igreja em estilo barroco, reformada no ano de 1900.

No sítio Paquevira, já do outro lado de Bom Jardim, a cachoeira Poço Verde é outro local que merece uma visita. Para chegar até lá, no entanto, o turista vai se deparar com muitos obstáculos. O terreno está acidentado, exigindo do aventureiro bastante fôlego para aguentar mais de uma hora de caminhada, entre subidas e descidas intermináveis.

Se o ar faltar, dê uma parada e aprecie a paisagem. É belíssima. Formada por pequenas quedas d'água, intercalada por trechos de corredeiras, escorregos e piscinas naturais, a cachoeira faz valer todo esforço.

A Associação Bom Jardinense de Ecoturismo conduz visitantes por trilhas deste roteiro (exceto no Engenho Palma) e possui guias capacitados há seis meses por técnicos do Senai. Há três anos, o município recebeu o Selo Verde do Estado, estando apto para receber visitantes na linha do turismo ecológico. Resta saber se, no verão, as estradas vão estar mais acessíveis e sinalizadas. O turista agradece. (J.M.)

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Jornal do Commercio
Recife - 10.08.2000
Quinta-feira