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ARTIGO

O grande derrotado

por José Luiz Delgado

Em vão os eternos bajuladores dos governos procurarão demonstrar que nada teve o Sr. Presidente com os resultados das eleições municipais, a disputa havendo sido eminentemente municipalizada, não federalizada. Em vão se esforçarão para abafar os evidentes sinais da gigantesca insatisfação popular revelada nas urnas – muitas vezes inclusive repercutindo sobre candidatos que não mereceriam rejeição.

Bem menos importa comparar os números, para concluir que os partidos governistas terminaram com boa votação, do que verificar, espantado, que o Presidente não se envolveu nas campanhas, não participou delas, não pediu votos para os pretensos aliados, o que seria a atitude mais natural do mundo, posto que todo político deve não só querer fazer o sucessor como ter amigos nos outros cargos, para governarem em perfeita sintonia. Pior ainda: os candidatos não procuraram o Presidente, não lhe pediram presença, declarações de apoio, recomendação de votos. Porque sabiam que elas funcionariam ao contrário: quanto mais apoiado pelo sr. FHC um candidato parecesse, quanto mais se mostrasse vinculado à figura do Lamentável, menos votos teria. Por isso, o sr. FHC é o grande derrotado dessas eleições, é o Indesejado dos palanques, o supremo o Repudiado: repudiado fundamentalmente pelo eleitor mas antes, e por causa disso, repudiado pelos próprios correligionários.

A população que se iludiu, em 1994 (eu também), com o discurso e o passado do sr. FHC, passado e discurso que ele depois explicitamente renegaria, e ainda se iludiu em 98 (eu mais não), está finalmente tomando consciência do que veio sendo esse duplo Governo lamentável, que se exauriu no projeto vaidoso da própria reeleição e que hoje, ainda a dois anos da despedida, parece haver acabado, não ter mais nenhum projeto, salvo, é claro, o de pavonear no estrangeiro sua fluência no inglês perante os governantes aos quais entregou a soberania brasileira. Tudo havendo empenhado para “salvar” o real e para conseguir a indecência da própria reeleição (afinal, neste Governo, como diz um amigo meu, somente a vaidade consegue ser maior do que a incompetência e a insensibilidade social), o que o sr. FHC fez, ao cabo, foi empobrecer os Estados e Municípios (dos quais tirou, com a cumplicidade pretensamente esperta dos parlamentares aliados, parcela substancial das receitas); alienar o patrimônio nacional, vendendo, em muitos casos a troco de banana, as empresas públicas; privatizar o Estado, totalmente esquecido do que pregava, o louvor do papel intervencionista estatal; submeter-se em mesuras; aumentar espetacularmente a dívida externa, hoje muitíssimo maior do que recebeu; humilhar o funcionalismo e achatar a população, que está, toda, passando dificuldades; não ter dinheiro para nenhum programa social, embora sempre o encontre para extravagâncias como o recente aluguel de um prédio inteiro para servir de embaixada em Berlim. Como esperar, então, que a população não acabasse por despertar do deslumbramento de ter um presidente PhD, culturalmente mais respeitável do que a boa maior parte dos governantes estrangeiros, e se declarasse decepcionada, enganada, frustrada, indignada, revoltada?
O espantoso crescimento do PT não se deve nem ao radicalismo ideológico nem a alguma atenuação de suas bandeiras. Deve-se simplesmente ao fato de que – confundidos o PSDB, o PFL e o PMDB na grande salada de espertos que gira em torno do poder, somente querendo tirar vantagens – o PT foi identificado como a grande voz da oposição brasileira. Nele se expressou o descontentamento nacional. Assim como o PMDB, na agonia do regime militar, exprimira o anseio pela redemocratização, agora o PT canalizou essa insatisfação generalizada com o Governo do cada vez mais lamentável sr. FHC – insatisfação que somente não se traduziu em derrotas muito maiores por força justamente do prestígio das lideranças locais do lado governista.

José Luiz Delgado é professor universitário


Jornal do Commercio
Recife - 15.10.2000
Domingo

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