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RODIN II
Fama, fortuna e longa vida para Auguste Rodin

Longe de ser um desmerecimento ao seu valor, o fato de suas maiores obras terem sido feitas sob encomenda oficial é um indicador importante da sua forte marca pessoal. Se, por um lado, ele conseguiu quebrar todos os padrões da escultura tradicional, que remontavam ao classicismo greco-romano, ainda assim ele foi capaz de fazer uma transição suave, talvez por ter permanecido como um dos herdeiros do movimento romântico. Sua temática reflete inspiração, paixão e heroísmo, crenças artísticas muito arraigadas no início do século 19.

O crítico Tim Marlow observa que a diferença fundamental entre Rodin e os principais artistas do início do século 20 – tais como Picasso e outros pioneiros do modernismo – é que estes últimos pretendiam uma reinvenção quase primitiva do fazer artístico ao passo que Rodin pretendia restaurar e reavaliar a arte oficial. “O mais difícil não é pensar com a ingenuidade primitiva da infância, mas, sim, pensar com a tradição, com formas já adquiridas e, também, com toda a riqueza acumulada por esta mesma tradição”, afirmou Rodin já no fim da sua vida.

SUCESSO – A habilidade com que Rodin transitava entre o mundo do mecenato oficial e a originalidade de sua obra renderam-lhe dividendos que poucos artistas alcançaram em vida.

Filho de um modesto funcionário da Secretaria de Polícia, aos 14 anos Rodin abandonou os estudos para ingressar na Escola Imperial Especial de Desenho e Matemática, a Petite École. Sob a direção de Lecoq de Boisbaudran e de Louis-Pierre-Gustave Fort, aprende a desenhar de memória e a modelar com surpreendente destreza, o que não o impediu de ser rejeitado por três vezes quando tentou a admissão na Escola de Belas Artes.

Se a polêmica despertada pela suposição de sobre-moldagem na escultura A Idade do Bronze lhe trouxe certa notoriedade, a princípio desconfortável e depois bem capitalizada, foi a aquisição de um estúdio individual – um espaço cedido pelo Estado no seu ‘Depósito de Mármore’– que marcou o início de uma grande produção, sobretudo, remunerada com adiantamento.

Rodin faz de tudo. É, na verdade, o nome da vez quando o assunto é arte decorativa: modela carrancas para os chafarizes do Trocadero, decora vasos para a Manufatura de Sèvres e se empenha em conseguir encomendas públicas.

Algumas delas, como a Porta do Inferno, destinada ao Museu das Artes Decorativas que ainda nem havia saído do papel, têm histórias particularmente curiosas.

Num momento especialmente rico em criatividade, Rodin consumiu mais de 20 anos de sua vida e nunca chegou a concluí-la. Tantos foram os elementos de inspiração, de Dante a Baudelaire, que mesmo inacabada, ela será sua pedra fundamental, uma espécie de resumo de tudo o que le foi capaz de confeccionar.

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Jornal do Commercio
Recife - 15.10.2000
Domingo