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MUDANÇA
A poeta Lucila Nogueira se encerra cercada por serpentes e leopardos

por Schneider Carpeggiani

Com o lançamento no próximo mês de Saudade, Lucila Nogueira encerra não só aquilo que ela chama de ‘tetralogia ibérica’ como também seu próprio ofício de poeta. “Não sei se daqui para frente voltarei a escrever poesia. É uma forma muito rígida e estou mais interessada em trabalhar com prosa poética, porque tenho uma liberdade maior na forma e conteúdo dos textos”. O primeiro momento dessa sua nova fase acabou de sair na França, e só nela por enquanto, com o título de A Quarta Dimensão do Delírio, em edição bilíngüe, francês e português. “Nunca me senti tão livre como quando escrevi esse livro, foi uma espécie de loucura”.

Dois dos volumes da sua ‘tetralogia ibérica, que também inclui Ainadamar, Ilaiana - Enigmas de Elche e Imilce, foram recentemente relançados em edições luxuosas, artesanais e com tiragem limitada. A razão desses números limitados reside, no seu entender, no pouco poder de fogo mercadológico da própria poesia. “O que me interessa é escrever. Sei que algumas pessoas vão ler os livros, como meus os amigos. Leitores sempre irão existir, mas não em larga escala. O poeta deve mesmo se preocupar em escrever”, definiu Lucila.
A idéia de realizar a tetralogia ibérica surgiu na metade dos anos 90, tanto para resgatar as origens portuguesas e espanholas da autora quanto para fazê-la superar uma crise pessoal. “Eu estava tendo sonhos fortíssimos com uma dama de Alicante (cidade espanhola) e isso me perturbava, então comecei a escrever imaginando a história dessa mulher, que aparecia quando eu dormia. Meu marido, que na época estava na Espanha, disse que, não em Alicante, mas em Elche, uma cidade próxima, havia uma lenda em torno de uma estátua feminina, que ninguém sabia a história. Peguei um avião e fui aturdida para Elche”.
Em Ilaiana, Lucila conta, à sua maneira, a história da estátua de Elche e faz uma ode à figura feminina, misturando imagens católicas (como a Maria bíblica) com outras profanas, como a deusa Cibele, que emasculava seus sacerdotes, e a grega Diana. Para contar a saga fictícia dessa mulher, ela se utiliza de quarenta poemas, que mantêm uma regularidade de estrófica e acentual.

No final da obra, a autora avisa: “Escrevi recoberta de serpentes. Montada em leopardos e leões”. “Esse livro foi mesmo um grande momento de loucura e essa frase define bem meu estado de espírito durante sua composição”.

Tão fixo quanto Ilaiana é Imilce, em forma de uma peça de teatro, para ser lida em quatro vozes. Sua temática, histórica, conta a tragédia de Aníbal Barca, o chefe cartaginês em luta contra Roma, da qual foi derrotado, mas seu tema dominante é seu forte amor por Imilce. E é em sua forma magistral de tratar a temática amorosa que a autora conquista, também, leitores fora do circuito acadêmico, no qual sua poesia geralmente é localizada. “e o que é a loucura/ senão a lembrança/ de algo que se perdeu/ sem se pedir/ e o que é o amor/ senão uma loucura/ que tenta/ a eternidade construir”, declara, derramada, Lucila, em Imilce.

Serviço

Imilce e Ilaiana – Os dois livros estão à venda na Livraria do Escritor do Nordeste por, respectivamente, R$ 30 e R$ 40

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Jornal do Commercio
Recife - 15.10.2000
Domingo