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SOBREVIÊNCIA II
O pai do mangue vive seu encantando

Nelson Caranguejo. O nome já diz tudo de um homem que vive da maré, como ele mesmo define. Nelson do Monte, 74 anos, é o pescador mais antigo da Ilha do Destino, em Boa Viagem, e também o que mais sofreu com as mudanças no mangue. “A poluição que vem com o esgoto é tanta que tenho que ir de barco até o Pina para pescar”, reclama. Pescador desde os 12 anos, Nelson Caranguejo ainda consegue se encantar com a beleza do mangue. “Tenho que achar o mangue bonito. Vivo dele”, resume. Do mangue ele tira saúnas, tainhas, camorins, curucas e arabaianas.

O pescador mora na Ilha do Destino há 50 anos. Lá, ele criou seus seis filhos, mas hoje mora sozinho. Ainda forte e disposto, Nelson Caranguejo sai diariamente para pescar e se orgulha de nunca ter sido empregado. Embora saia sozinho toda madrugada para o mangue, o resultado de seu trabalho termina garantindo o emprego informal de muita gente. Nelson Caranguejo comercializa na Ilha do Destino mesmo o seu pescado. “Vendo de 15 a 30 quilos de peixe e camarão por dia para a gente que é ambulante na Praia de Boa Viagem”, conta. Um quilo de peixe custa de R$ 2 a R$ 3.

Segundo os cálculos do pescador, isso acrescenta cerca de R$ 500 à sua renda mensal, que é de um salário mínimo com a aposentadoria. Por tirar o seu sustento do local, Nelson Caranguejo não quer sair de jeito nenhum da Ilha do Destino. “Se essa estrada nova for passar por cima da minha casa (a Linha Verde, novo acesso viário para a zona sul projetado pela Prefeitura do Recife), não sei o que será de mim”, diz.

PAI DO MANGUE – No Jardim Beira Rio, uma comunidade de pescadores do Pina onde mantém um viveiro de camarão, Nelson Caranguejo é conhecido como o ‘Pai do Mangue’. “Ele tem o mapa da maré. Se se embrenhar pelo mangue ele chega mais rápido em casa do que se pegar um ônibus”, diz Valdomiro Oliveira, 34 anos, um dos pescadores do local. “De mangue e maré, ele entende tudo”, garante.

Outro conhecedor profundo do mangue é Abílio de Sá Barreto, 85 anos, que mora sozinho numa casa construída na área mais remota da Ilha de Deus, uma comunidade de pescadores do bairro da Imbiribeira. O local é paradisíaco. Um sítio de difícil acesso (só se chega a pé, pelas trilhas entre viveiros de camarão) onde o pescador plantou bananeiras, cajueiros, cana-de-açúcar, coqueiros e goiabeiras e criou seus onze filhos. “Daqui só saio para Santo Amaro (o cemitério, não o bairro)”, costuma dizer.

Embora viva dentro dele, Seu Abílio não considera o mangue um local agradável. “Tem muito mosquito e assombração também”, justifica. As assombrações, histórias fantásticas de nobres que surgem do mangue no meio da noite para reivindicar seus tesouros, são uma forma de o pescador manter longe de seus seis viveiros fortuitos visitantes. “Aqui só tem ladrão”, esclarece.

Os moradores da Ilha de Deus, principalmente as crianças, acreditam nas lendas de Seu Abílio. Para comprovar suas histórias, ele exibe um par de talheres antigos que diz ter encontrado cavando o mangue para fazer os viveiros. As assombrações parecem ganhar vida ao entardecer, quando o local escurece e Seu Abílio fica de tocaia na porteira. “Não gosto de mangue, mas daqui ninguém me tira”, sussurra.

Há gente, como Seu Abílio e Seu Nelson, que mantém uma ligação afetiva com o mangue. Outros, no entanto, só botam o pé na lama por necessidade. É o caso do motorista desempregado Pedro Valdevino, 41 anos. “Estou sem emprego fixo há dez anos e venho para a maré para não morrer de fome”, afirma. O cobrador de ônibus aposentado Wellington Santos Chagas, 66 anos, é outro que nunca pisou no mangue, mesmo vivendo em Mangue Seco, a única das cinco comunidades de áreas alagadas visitadas pela reportagem que está sendo urbanizada. Uma cerca colocada pela Prefeitura do Recife para evitar novas invasões separa os moradores do mangue.

Líder comunitária de Caranguejo, na Ilha do Retiro, a dona de casa Maria José Bezerra da Silva, 45 anos, também não chega perto do mangue. Ela mora na parte aterrada da comunidade. “Andar aqui com as ruas alagadas de esgoto já é um problema. O que é que vou fazer no mangue?”, indaga.

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Jornal do Commercio
Recife - 15.10.2000
Domingo