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SOBREVIÊNCIA II
Para moradores, beleza é secundária

A beleza dos mangues está em segundo plano para os moradores das comunidades de áreas alagadas. “A principal visão que eles têm do manguezal é enquanto fonte de alimento e renda”, diz a arquiteta Onilda Gomes Bezerra, que estudou a representação sociocultural da paisagem para os moradores ribeirinhos da zona sul do Recife para sua dissertação de mestrado em geografia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Ela também pesquisou as visões dos moradores de classe média, ambientalistas, especialistas e poder público. Na avaliação dos resultados, obtidos por meio de entrevistas, Onilda identificou que a paisagem se mostrou mais importante para os especialistas. “Para eles, a paisagem é um atenuante para as construções”, diz. A visão dos moradores de classe média é semelhante à do poder público: o manguezal é visto, principalmente, como solo para construção. “Já os ambientalistas defendem o manguezal enquanto verde”, constata.

A beleza natural ao redor das comunidades de áreas alagadas também levou o geógrafo Jorge Araújo a pesquisar o potencial turístico da Ilha de Deus, Ilha do Destino e o Bode, na Zona Sul do Recife, para sua dissertação de mestrado pela Universidade de São Paulo (USP).

No trabalho, que será concluído no final do ano, ele defende o ecoturismo para o local, com passeios de barco e observações da pescaria nos viveiros de camarões e peixes implantados no entorno do mangue. “O ecoturismo é uma oportunidade para que outras pessoas, além dos moradores da ilha, possam desfrutar da paisagem”, explica o geógrafo.

Jorge Araújo também vê no turismo uma alternativa para a geração de renda para a população desses locais. Na sua opinião, a mão-de-obra local pode ser empregada como guias turísticos e barqueiros. Ele defende o uso de barcos a remo, para não interferir no ecossistema e permitir que os visitantes ouçam o som do mangue, como o canto dos pássaros e o estalar dos galhos.

O barco a motor, explica o geógrafo, afugenta de pássaros a crustáceos. No local há de aves migratórias, como gaivotas e maçaricos, a ameaçadas de extinção, como o socó, que está na lista oficial do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Os passeios idealizados pelo geógrafo em baiteiras (nome dado às canoas pelos pescadores do Recife) contornariam a Ilha de Deus. O local, no entanto, é de difícil acesso. Uma única ponte, por onde passam pedestres, bicicletas e motos, liga a comunidade ao bairro da Imbiribeira. Os pescadores usam barcos para se locomover. Para Jorge Araújo, os passeios poderiam inicialmente partir do Pina, onde há infra-estrutura de píers que facilitam a saída dos barcos.

PODER PÚBLICO – O potencial turístico não é descartado pela Prefeitura do Recife, mas os técnicos da URB, a empresa municipal de urbanização, preferem priorizar a infra-estrutura de Mangue Seco, Ilha do Destino, Ilha de Deus, Caranguejo e Jardim Beira Rio.

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Jornal do Commercio
Recife - 15.10.2000
Domingo