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SOBREVIÊNCIA IV
Contrastes entre beleza e pobreza são registrados desde o século 19

A beleza e pobreza dos mangues, antigamente considerados terrenos sem valor e onde era difícil se construir, foram registradas pela primeira vez em 1817, pelo viajante francês Tollenare. “De lá para cá, pouca coisa mudou, com exceção do conceito que as pessoas têm do ecossistema, que passou a ser valorizado culturalmente”, diz o professor da Universidade Federal de Pernambuco Jan Bitoun, especialista em geografia urbana.

Tollenare, que percorreu o estuário do Rio Capibaribe, no caminho de São José a Afogados (atualmente Rua Imperial), registrou o mangue e as palafitas do atual bairro do Coque. Mais tarde, na década de 30, Gilberto Freyre levantou o debate sobre a ecologia e a ocupação dos mangues. “Na época, o governador Agamenon Magalhães tinha um programa para erradicar os mocambos”, conta Jan Bitoun. “É que, culturalmente, esse ecossistema era sinônimo de pobreza e sujeira”, justifica. O geógrafo lembra que Gilberto Freyre defendia a melhoria dos mocambos no local onde estavam e condenava a política de erradicação promovida por Agamenon.

Mais tarde, na década de 60, o médico Josué de Castro (1908-1973) também registra a importância do mangue para a população ribeirinha, destacando a densa ocupação humana e de caranguejos. “Assim como os homens, o mangue conquistou seu espaço colonizando as margens dos rios”, esclarece Jan Bitoun. A valorização do mangue enquanto ecossistema, no entanto, apenas surgiu na década de 80, como o movimento ambientalista. “O resgate cultural do mangue enquanto identidade surge na década seguinte, como o Mangue Beat”, opina.

Como caranguejos, os homens das áreas alagadas ocupam o leito do rio. De acordo com o professor Jan Bitoun o rio é dividido em dois leitos: o maior, constituído pelas planícies de inundação, e o menor, onde está o canal fluvial, também chamado de calha. “As planícies de inundação, onde estão as palafitas, são áreas baixas ocupadas diariamente pelo rio, na maré alta, e pelas chuvas durante o inverno”, explica. É através das palafitas que ocorre a ocupação. Suspensas sobre o rio, elas aos poucos vão constituindo uma espécie de terra firme. “Os dejetos das palafitas com o tempo compõem um solo próprio, numa espécie de aterro paulatino”, afirma Jan Bitoun. Ele afirma que a planície de inundação também é ocupada por avenidas, loteamentos e empreendimentos.

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Jornal do Commercio
Recife - 15.10.2000
Domingo