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URBANISMO II
Edificação foi o único templo do Brasil todo construído pelas mãos de escravos

Das três construções religiosas demolidas no Recife em reformas urbanas, a Igreja do Bom Jesus dos Martírios, no Bairro de São José, é a que está mais viva na memória da população. O imóvel ficava na Rua Augusta (destruída pela abertura da Avenida Dantas Barreto), com a fachada principal voltada para um beco que levava até a Igreja de Nossa Senhora do Terço.

Em 1968, o prefeito Augusto Lucena pretendia derrubar a edificação, que ficaria entre os atuais módulos 3 e 4 do Camelódromo, para dar continuação à Dantas Barreto. Segundo técnicos da 5ª Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), naquela época a Igreja do Bom Jesus dos Martírios não era tombada.

Levantamento feito pelo Iphan revela que “a Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Martírios, em troca de uma quantia em dinheiro e um terreno em outro local, havia concordado que a igreja fosse derrubada”. Na tentativa de salvar o templo, o Iphan fez a inscrição do monumento no livro de tombos em junho de 1971.

De nada adiantou. O então presidente da República, Emílio Garrastazu Médici, autorizou o cancelamento da inscrição de tombamento da igreja e garantiu que o Ministério da Educação e Cultura iria cuidar da preservação do frontão do templo. “A igreja foi demolida em 1973 e o frontão nunca foi recuperado”, informam os técnicos do Iphan.

O arquiteto José Luiz Menezes observa que a Dantas Barreto foi ampliada “sem nenhum apoio lógico de um plano urbanístico correto”. Ele ressalta que, na ocasião, o arquiteto Delfim Amorim havia apresentado proposta mostrando que a igreja podia ser salva com um pequeno desvio da avenida.

José Luiz acrescenta que “o gesto do prefeito que a derrubou tinha o apoio somente de um populismo desejado pelos integrantes do poder instituído em 1964”. A Igreja do Bom Jesus dos Martírios começou a ser construída em 1791 e foi concluída em cinco anos. Foi a única igreja do Brasil toda edificada por escravos, com iniciativa da Irmandade dos Homens Pardos. A fachada tinha estilo rococó.

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Jornal do Commercio
Recife - 15.10.2000
Domingo